Ciência, a raiz recombinante do conhecimento

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Leia a introdução desta aula em Raízes do conhecimento: ciência e educação abertas


A base da ciência sempre foi o compartilhamento, dada a natureza recombinante e incremental do conhecimento. Novas idéias surgem da composição e contraste de velhas idéias e sua validade provêm da possibilidade de escrutínio independente. Dos primeiros registros na Idade Antiga, os sábios viajavam junto aos mercadores entre Egito, Fenícia e Grécia para circular conhecimento e fazer avançar o grande empreendimento humano. Já ali, manuscritos eram produzidos, transportados e armazenados como bens de imenso valor, não só pela raridade mas pelo custo de produzí-los, mas por esses mesmos motivos a tradição oral imperava.

Com o avanço das grandes viagens comerciais até atingir-se a circunavegação, as distâncias e o próprio acúmulo do conhecimento tornaram-se grandes demais para carregar as idéias nas mentes, e o registro em suporte inerte tornou-se mais frequente e importante. Por fim, o surgimento das universidades e a posterior tecnologia da imprensa criaram um mercado eficiente para sustentar os custos da comunicação de ideias, tornando a aquisição e produção de livros acessível numa escala não imaginada. Compilações regulares de artigos por sociedades profissionais deram forma às primeiras revistas científicas, que multiplicaram-se e tornaram-se a peça chave no seu desenvolvimento.

No último século, por vantagens cumulativas baseadas na reputação de editoras e efeitos de economia de escala, essas revistas profissionalizaram-se e tornaram-se grandes corporações editoriais, desconectando-se da comunidade científica para a qual era conveniente tercerizar a operação desse trabalho.

O trabalho dos editores, nesse modelo, é organizar os artigos submetidos voluntariamente por cientistas, repassar a cientistas voluntários que os revisem e, diante dos pareceres, determinar se um artigo será publicado ou não. Os editores trabalham, assim, como facilitadores dessas avaliações por pares, e lucram cobrando de universidades e institutos de pesquisa pelo acesso às publicações e, para isso, restringem esse acesso ao público.

Ao mesmo tempo, o sistema de reputação e financiamento, fundamental à eficiência da produção científica, como várias outras políticas públicas tornou-se crescentemente baseada em indicadores numéricos, em geral optando-se por funções elementares envolvendo o número de publicações e algum outro indicador de qualidade das revistas em que se publicou.

Assim, acidentalmente, esse sistema vital foi colocado em interferência direta com o sistema das editoras, gerando ciclos viciosos de interesses que, aliado ao distanciamento dos cientistas, cristalizaram estruturas rígidas que, ainda que em sua maioria realizem seu trabalho corretamente, tem enorme dificuldade em evoluir mesmo quando há certeza de aprimoramento.

A Internet, naturalmente, abriu enormes e inúmeras oportunidades para a produção, disseminação e organização da ciência e essa resistência do sistema tem tido efeitos visivelmente prejudiciais para a comunidade científica, uma vez que se criam tensões entre o estado atual e a inovação intrínseca e característica do empreendimento científico.

Para superar os obstáculos dessa crise, algumas iniciativas surgiram, dentre as quais destacam-se as seguintes.

Movimento de Acesso Aberto[editar]

Este movimento iniciou-se a partir da construção de uma alternativa digital gratuita e aberta para distribuir artigos científicos à comunidade, o arXiv. No começo, o arXiv era chamado LANL preprint archive, por ter surgido no Laboratório Nacional de Los Alamos – lugar onde a física das bombas atômicas da Segunda Guerra Mundial foi finalmente entendida. Ele é um repositório para artigos científicos nos campos de Física, Matemática, Ciência da Computação e Biologia Quantitativa, entre outros.

Os artigos depositados ali são preprints, literalmente "anteriores à imprensa", querendo dizer apenas que não há exigência de que tenham sido submetidos a revisão por pares, o que geralmente acontece quando publicados em revistas científicas. Atualmente o arXiv é servido e operado pela Universidade de Cornell, tendo réplicas de seus dados distribuídas pelo mundo afora. Sua concepção original deveu-se ao físico Paul Ginsparg.

O arXiv surgiu em 1991 como um arquivo de preprints em física e, mais tarde, foi expandido para incluir outras áreas. Hoje o arXiv contém mais de meio milhão de artigos e recebe cerca de cinco mil novas submissões por mês. A partir da experiência do arXiv, a comunidade científica começou a contestar a função e status das revistas científicas e suas políticas de restrição de acesso, iniciando assim um movimento chamado Acesso Aberto à Ciência.

Esse movimento então estruturou-se internacionalmente em torno da Iniciativa de Budapeste para o Acesso Aberto (em espanhol, original em inglês), em 2001, e da Declaração de Berlim sobre Acesso Livre ao Conhecimento nas Ciências e Humanidades (em português, original em inglês), em 2003.

No Brasil, foi elaborada em 2005 uma declaração de apoio ao acesso aberto à literatura científica, mas a mobilização gerada foi pequena diante da forte reação direta do país e de pesquisadores brasileiros às iniciativas internacionais precedentes. Um outro documento brasileiro é o Manifesto Ciência Livre, surgindo em 2008 com a consolidação de uma comunidade bastante ativa na divulgação e produção aberta de ciência, que tem suas raízes na comunidade de Física (requer login do Orkut). Além dessas iniciativas independentes, algumas instituições vem conduzindo seus próprios debates sobre o tema, como é o caso do Acesso Aberto USP.

Conquistas[editar]

Sob influência desses movimentos e de sua própria tradição, muitas universidades e instituições científicas tem gestado e mantido iniciativas de estímulo ao acesso aberto e compartilhamento científico. Alguns casos comuns são a exigência da publicação de artigos submetidos a revistas em repositórios institucionais abertos, e o financiamento e organização de revistas científicas de acesso aberto com revisão por pares.

Também os governos e agências de financiamento tem tomado atitudes consonantes aos princípios do movimento de acesso aberto, por entenderem que promovem dessa maneira o melhor progresso científico, assim como pelo retorno justo do investimento público. Aqui destacam-se o condicionamento de financiamento e bolsas de pesquisa à publicação dos resultados em acesso aberto, e a organização de repositórios nacionais para artigos, teses e dissertações publicadas em universidades públicas ou com financiamento público.

Desafios[editar]

Além de esclarecer a comunidade e as instituições para ampliar seu alcance, talvez a maior dificuldade enfrentada pelo movimento hoje seja a adoção por algumas partes de formas precárias de acesso pseudo-aberto, que garantem alguns dos benefícios de curto prazo, mas obstruem os ganhos muito maiores a longo prazo, inclusive os benefícios estruturais que uma política de acesso aberto legítima promove, como argumenta este artigo na PLoS Biology.

Iniciativas[editar]

No Brasil[editar]

  • Scientific Electronic Library Online (SciELO), articulação de revistas de países em desenvolvimento para acesso aberto, liderada pelo Brasil
  • Portal Periódicos, acesso a revistas científicas negociado a nível nacional pela CAPES
  • PEPSIC, Portal de Periódicos Eletrônicos em Psicologia e áreas afins de acesso aberto (PePSIC)
  • Acesso Aberto USP, portal de discussão sobre políticas de acesso da universidade
  • Blog do Kuramoto, que discute acesso aberto no Brasil

Dados, tecnologias e materiais científicos[editar]

Para além do acesso à literatura, uma outra restrição com a qual a prática científica precisa lidar são as dificuldades técnicas e condições legais sobre o uso e produção do conhecimento e de experimentos.

Da parte legal, tanto o direito autoral quanto as patentes, além de legislações sobre bancos de dados, tem impacto direto sobre o uso do conhecimento científico e, portanto, sobre o desenvolvimento da ciência.

Novas descobertas requerem a aplicação de descobertas anteriores, além da replicabilidade em si ser necessidade fundamental da ciência, tornando o intercâmbio de ferramentas e materiais de pesquisa imprescindível.

Além disso, novos desafios, como o estudo do clima, requerem a combinação simultânea de dados e modelos de muitas fontes distintas.

Portanto, pelo lado técnico, é preciso desenvolver procedimentos e tecnologias para que essas transferências e interoperabilidades sejam eficientes.

No caso de dados, isso requer a publicação sob licenças livres e armazenagem com padrões abertos, além de anotações e metadados que permitam seu uso com clareza científica.

Já ferramentas devem ter seus planos públicos e também livres, e insumos devem ter seus métodos de produção compartilhados. Esses sendo os casos que mais frequentemente conflitam com patentes e os interesses de seus beneficiários.

No caso de softwares científicos e utilizados na ciência, as necessidades são essencialmente as mesmas dos movimentos pelo software livre, que assim torna-se uma recomendação também sob a perspectiva científica.

O Science Commons é uma iniciativa da Creative Commons para desenvolver licenças de direito autoral, licenças de patentes, meios técnicos, padrões de comunicação e procedimentos comuns para facilitar o acesso universal a dados, ferramentas e materiais resultantes de pesquisas científicas, tornando-os mais transparentes ao escrutínio e mais úteis para a comunidade científica e a sociedade. Seu sítio oficial tem mais informações sobre os programas e iniciativas do projeto, mas somente em inglês.

Um outro impecílio ao fluxo de dados, mais presente nas ciências da saúde, encontra-se ainda nos costumes sobre os termos de consentimento esclarecido, que regulam a ética do uso das informações e amostras coletadas. Nesse contexto, surge a ideia de termos de consentimento expandidos, manifestada no projeto Consentimento para Pesquisar, que padroniza termos para uso em pesquisas. A ideia é que, além do termo padrão para o uso mínimo necessário à pesquisa, o sujeito também é oferecido um termo adicional que permitirá o uso científico mais amplo das informações a seu respeito, que muitas vezes tem grande valor e são difíceis de coletar, mas não podem ser cruzadas com outras informações pelo escopo reduzido dos termos usuais.

Iniciativas[editar]

No Brasil[editar]

Ciência amparada por computação e cognição distribuídas[editar]

Um dos primeiros e talvez o mais conhecido projeto de computação científica distribuída é o SETI@Home, no qual indivíduos, através da instalação de um software e conexão com a Internet, cedem o poder de processamento dos seus computadores para a análise de dados que poderiam acusar a existência de vida alienígena. Outros projetos começaram a valer-se desses computadores distribuídos voluntários para mapear genes, modelar proteínas e outros fins.

Posteriormente, surgiram alternativas de fato interativas, onde o próprio indivíduo contribui com sua cognição, anotando imagens ou resolvendo problemas simples, caso do NASA Clickworkers, que busca classificar crateras através da inspeção de fotografias. Outros projetos nessa linha solicitam, por exemplo, ajuda humana para identificar áreas de desmatamento através de imagens de satélite.

Há grande interesse nessa área, na busca de solucionar problemas complexos mas que podem ser fracionados em unidades pequenas que um computador possa lidar ou que sejam muito eficientemente resolvidas pela cognição humana.

Esse tipo de atividade também ficou conhecido como ciência cidadã.

Iniciativas[editar]

  • Citizen Cyberscience Centre, centro dedicado a produzir infra-estrutura e promover projetos de ciência cidadã
  • Seti@home, primeiro grande projeto científico de de computação distribuída voluntária
  • Boinc, infra-estrutura para projetos de computação distribuída
  • PyBossa, infra-estrutura para projetos de cognição distribuída
  • CrowdCrafting, comunidade de projetos em cognição distribuída

No Brasil[editar]

Wikipesquisas: a fronteira final?[editar]

Com tudo que vimos sobre acesso ao conhecimento, intercâmbio de dados e distribuição do processamento, ainda esses formam apenas parte instrumental do fazer científico.

Será possível ir ainda além e testar condições nas quais o próprio processo de descoberta seja participativo e transparente? Ou massivamente colaborativo como a Wikipédia? É isso que propõem algumas iniciativas como o Polymath e a Wikiversidade, onde tanto as questões científicas como as ideias e discussões na busca de sua solução são trocadas abertamente em blogs e wikis.

Esse modelo, com todas as vantagens que apresenta na prática, contudo sofre dificuldades ao adaptar-se ao atual sistema de credenciamento baseado na unidade do artigo científico. Fica cada vez mais claro, assim, que essa unidade pode não ser mais tão natural na Internet, e se queremos explorar o potencial de uma ciência completamente livre e colaborativa precisaremos reinventar os mecanismos de incentivo e aferição de mérito na ciência.

Iniciativas[editar]

No Brasil[editar]

  • Wikiversidade, projeto da família Wikimedia que acolhe também pesquisas científicas em wiki