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A arquitetura da Biblioteca Universitária: Preservação dos espaços de memória coletiva e identidade estudantil da UNESP de Marília

De Wikiversidade

Esse trabalho de Memória foi realizado no ano de 2024 pelos estudantes Larah Valentini Mallavazi, Lorenza Carlesso Mariano, Luisa Vitoria de Almeida Corrêa e Pedro Boni Rezende, da turma LX de Ciências Sociais da UNESP FFC - Campus de Marília, para a avaliação da disciplina de História do Brasil II, ministrado pelo Professor Doutor Paulo Eduardo Teixeira.

Introdução

A atual biblioteca da UNESP FFC - Campus Marília iniciou suas atividades em 1° de abril de 1959 enquanto vinculada à Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (FAFI), inaugurando-se como biblioteca da UNESP no dia 3 de novembro de 1980, tendo como proposta a serventia de suporte ao desenvolvimento do ensino, pesquisa e extensão da Universidade. Atualmente, o espaço fornece aos alunos e comunidade local os serviços de acesso às Bases de Dados, empréstimos para usuários cadastrados, capacitação de usuários, visitas orientadas e etc. Dentre as citadas atividades, a Biblioteca da UNESP FFC também oferece seu espaço para eventos estudantis e culturais da localidade, como roda de leituras, exposições e assembleias de campo, favorecendo a comunicação, união e atuação dos estudantes dentro da universidade. Gisele Dutra Quevedo e Juliane Conceição Primon Serres, trazem em seu trabalho “O papel da memória na história oral e na escuta de narrativas” a seguinte análise a partir de demais autores, como Michael Pollak e Maurice Halbwachs:

"[...] Pollak destaca a contribuição da história oral ao ressaltar a importância das memórias subterrâneas, que fazem parte integrante das culturas minoritárias dominadas, em contraposição à memória oficial, como a memória nacional. Embora a história oral não seja mais exclusiva de grupos excluídos, ela continua sendo fundamental para as minorias, pois muitas vezes é a única fonte onde encontramos seus registros. Determinados grupos não eram mencionados em documentos históricos e ainda são negligenciados até hoje. Portanto, o uso da história oral é crucial para registrar a memória desses grupos." (QUEVEDO; SERRES, 2023)

A importância de um espaço para utilização universitária permite, desde sua inauguração,  que a memória estudantil seja construída, fortalecida e preservada ali, dentre as paredes que abrigam inúmeros alunos em sua formação universitária e também em seu acervo de registros, com fotos de exposições, gravações de eventos e diversos outros registros acadêmicos. O local, então, preserva a memória coletiva de milhares de alunos, de diversos eventos e movimentos de organizações. O objetivo dessa pesquisa é compreender e analisar como o contato coletivo dos estudantes da UNESP FFC é construído e preservado, além de identificar como a arquitetura da biblioteca atua para preservar a memória atual dos alunos em formação, buscando contribuir para a preservação da história oral da localidade.

Objetivo

A análise do ambiente universitário, com foco na arquitetura da Biblioteca da UNESP FFC, tem o objetivo de identificar quais fatores favorecem e quais os desafios para realizar a preservação da memória coletiva estudantil, sendo estes do próprio ambiente arquitetônico quanto aos projetos de integração universitária, analisando a história oral de uma funcionária pós-graduada pela unidade. A memória coletiva é enriquecida por experiências de diversos alunos de graduação e pós-graduação que vivenciaram sua jornada acadêmica naquele espaço, sendo sujeitos participantes e atuantes da cultura local, mas também tem grande influência de projetos da área da Ciência da Informação.

Objetivos específicos

Construída em 1970, a biblioteca universitária da UNESP de Marília é um espaço que abriga a memória coletiva e a identidade estudantil da instituição como um todo, além de ser um exemplo de arquitetura modernista brasileira, projetada para ser um espaço de encontro e troca entre estudantes, professores e pesquisadores, refletindo a filosofia educacional da UNESP, sempre valorizando a acessibilidade, a inclusão e a interdisciplinaridade.

Preservar tal espaço, preservar a memória coletiva, é fundamental para manter a identidade tanto do campus, quanto da comunidade estudantil da UNESP.  No entanto, tal ato enfrenta desafios, desde a necessidade de certa atualização tecnológica, até a pressão por espaços mais modernos. E encontrar um equilíbrio entre preservação do patrimônio e  adaptação às necessidades contemporâneas é de grande importância.

Metodologia

Para que a preservação da memória coletiva estudantil aconteça, a comunidade acadêmica da UNESP de Marília deve se engajar na preservação da biblioteca como espaço de memória coletiva e identidade estudantil como um todo, de acordo com a professora Elaine Silva, do departamento de Ciência da Informação. Cabe à pesquisa entender, apontar e analisar como o espaço da biblioteca preserva a memória e o contato coletivo dos estudantes dos diferentes cursos a partir da história oral, utilizando o depoimento da Professora Doutora Elaine Silva, professora do Departamento de Ciência da Informação da Faculdade de Filosofia e Ciências da UNESP FFC.

A participação da professora será feita por meio de uma entrevista oral, organizada com um roteiro de perguntas que busque complementar a pesquisa sobre história oral a partir da visão de um funcionário que frequenta a biblioteca e está inserido à projetos do espaço, além de ter contato constante com os estudantes de graduação que também utilizam aquele local como um meio cultural.

1.1 Perguntas à entrevistada Professora Doutora Elaine Silva:

1. Qual é a sua primeira memória de interação com uma biblioteca universitária? Como você se sentiu naquele espaço?

2. De que maneira a biblioteca incorpora a sua história e a cultura da UNESP de Marília em seu ambiente físico?

3. Você tem alguma história ou experiência específica em que a biblioteca desempenhou um papel importante na construção ou fortalecimento da identidade acadêmica de uma comunidade?

4. A biblioteca universitária já foi, em algum momento, um lugar de resistência ou reflexão crítica dentro de sua experiência? Se sim, poderia compartilhar como isso aconteceu?

5. Em sua perspectiva, os alunos da FFC apresentam vínculo com a biblioteca e sua memória coletiva?

1.2 Recortes da entrevista

Primeira resposta:

“Minha primeira memória de interação com a biblioteca Universitária foi com a biblioteca aqui do Campus. Quando eu comecei a graduação, que faz bastante tempo, foi em 1993, e como eu vim fazer o curso de biblioteconomia,  foi assim, uma interação de conhecer mesmo porque eu não tinha muita experiência de bibliotecas no geral, nem universitária e nem no geral né, mas foi uma uma interação, do que eu me lembro, confortável.”

Segunda resposta:

“Olha, eu entendo que as bibliotecas universitárias, a daqui, as outras, elas devem ser um elemento central da vida acadêmica, tá? Eu acho que poderia ser até mais, né? Eu acho que elas poderiam interagir mais ainda com a comunidade acadêmica. Mas de qualquer maneira, fisicamente a biblioteca me parece ser um espaço que está sempre ali para quando a gente precisa [...] fazer uma pesquisa precisa, constar alguma coisa. Precisa sanar uma necessidade de informação, então é como se fosse assim um ponto de segurança, certo?”

Terceira resposta:

“Eu vou dar um exemplo que não é desta biblioteca acadêmica, pode ser? Olha só, eu trabalhei na Universidade Federal de São Carlos e a biblioteca de lá é, claro que aí é uma biblioteca Central, lá os cursos são reunidos praticamente todos os cursos no mesmo campus, mas ela é também uma biblioteca comunitária. [...] Ela foi concebida para atender a comunidade da cidade e essa eu sentia que era uma preocupação muito importante das pessoas que trabalhavam lá de atrair a comunidade e atrair as pessoas.[...] É naquele caso lá, mas eu achei um caso interessante e aí mais recentemente eles implementaram também um espaço lá que eles chamaram de “starteca”, que é a junção de uma startup e biblioteca também para atrair a comunidade pras pessoas usarem aquele espaço usar para pesquisa para consulta para empréstimo, mas também usar como o espaço de interação de cocriação. E eu achei bastante interessante a iniciativa porque eles começaram a ver que eles estavam com espaços que eles não estavam usando, espaços físicos mesmo, porque tinha a coleção de periódicos físico e aí todo mundo começou a usar periódico digital e eletrônico, então não tinha mais sentido [...] ficou esse espaço para interação e eu achei bastante interessante essa colocação para atrair a comunidade, né?

Quarta resposta:

“Eu acho que é o tempo todo e agora principalmente porque o que que acontece agora neste tempo de informações líquidas, conhecimento líquidos e as coisas todas muito rápidas e as pessoas se achando “detentoras da verdade” [...]. Eu acho que a biblioteca é como se fosse, assim,  um local que você sabe que terão ali eh documentos e informações, conhecimentos de diferentes pertencentes, dos diferentes pensamentos. Então isso eu acho que é muito importante para a resistência como um todo, entendeu? Você sabe que ali não vai estar a informação direcionada, e a biblioteca universitária a nossa biblioteca. [...] Você sabe que não vai ter algum tipo de censura para um segmento para alguma linha de pensamento ou não, estarão ali todas as linhas de pensamentos de filosofia, pensamento dos sociólogos… Estarão ali todos os pensamentos. [...]  Então eu acho que isso já é muita resistência.”

Quinta resposta:

“[...] eu acho que todos os lados entenderam, a do pessoal da biblioteca, os docentes e também os discentes, que deveriam pensar em ações compartilhadas para usar o espaço. Então muitas vezes a gente pode esperar que a biblioteca propõe, mas a gente também pode propor, né? Os alunos podem propor, dos diferentes cursos [...] Então talvez promovendo no Campus aqui uma reflexão acerca do que a gente pode demandar e esperar e fazer com a biblioteca, né? Aí a gente teria o que a biblioteca pensa, o que os discentes pensam, que os funcionários pensam que os docentes, todo mundo, né? Porque a biblioteca também tem poucos funcionários, tem um monte de processos. [...] Então talvez a comunidade toda da FFC  possa ajudar e contando para eles que que a gente poderia fazer lá né? Fazer com eles.”

1.3 Considerações sobre a entrevista

Segundo a entrevistada, a biblioteca incorpora, em seu ambiente físico, a história e cultura da UNESP de Marília, oferecendo um espaço de segurança e confiabilidade para seus estudantes. "A biblioteca me parece ser um espaço que está sempre ali para quando a gente precisa né? Fazer uma pesquisa precisa constar alguma coisa, precisa sanar uma necessidade de informação", relata.

A biblioteca, também, desempenha um papel importante na construção e no fortalecimento da identidade acadêmica da comunidade. Ela nos compartilha uma experiência em que a biblioteca da Universidade Federal de São Carlos implementou um espaço de interação e cocriação, chamado "starteca", para atrair a comunidade, como um ambiente de startups.

Os alunos do campus da FFC apresentam um vínculo com a biblioteca e sua memória coletiva, tratando a biblioteca como um local de reflexão crítica, bem como um de resistência. A entrevistada sugere que "a biblioteca é como se fosse assim, um local que você sabe que terão ali documentos e informações de conhecimentos de diferentes pertences, né? Dos diferentes pensamentos."

Para fortalecer esses vínculos, a professora propõe:

1. Promover ações compartilhadas entre a biblioteca, docentes e discentes.

2. Desenvolver projetos de digitalização e acesso ao acervo.

3. Incentivar o uso do espaço para atividades acadêmicas e culturais.

4. Realizar reflexões acerca do que a comunidade pode demandar e esperar da biblioteca.

A preservação da Biblioteca Universitária da UNESP de Marília é um compromisso com a história, com a cultura e com o futuro da instituição. É um espaço que une as gerações de estudantes, professores e pesquisadores atuais, e deve ser protegido e valorizado para que faça o mesmo com as gerações futuras.

Conclusão

Este estudo teve como objetivo compreender de que maneira o ambiente físico da biblioteca e suas atividades contribuem para a construção e manutenção dessa memória coletiva. A análise demonstrou que a biblioteca não apenas atua como um centro de apoio ao ensino, pesquisa e extensão, mas também como um espaço de convivência e troca entre estudantes, professores e pesquisadores. A arquitetura do espaço, projetada para acolher e fomentar a interação, é crucial para a preservação da memória contemporânea dos estudantes em formação. Ademais, os projetos de integração universitária e a história oral da docente pós-graduada pela unidade enriquecem ainda mais essa memória coletiva.

A preservação da Biblioteca da UNESP FFC enfrenta desafios, como a necessidade de atualizações tecnológicas e a demanda por ambientes mais modernos. Contudo, a biblioteca continua a ser um local seguro e confiável para seus usuários, proporcionando um ambiente propício à pesquisa e à reflexão crítica. A entrevistada enfatizou a importância da biblioteca como um espaço que incorpora a história e a cultura da UNESP de Marília, atuando como um ponto de resistência e diversidade de pensamentos.

Para fortalecer os laços entre a biblioteca e a comunidade acadêmica, a professora entrevistada sugeriu diversas ações, incluindo a promoção de iniciativas colaborativas entre a biblioteca, docentes e discentes, o desenvolvimento de projetos de digitalização e acesso ao acervo, bem como o incentivo ao uso do espaço para atividades acadêmicas e culturais. Essas ações são essenciais para assegurar que a biblioteca continue a exercer seu papel vital na preservação da memória coletiva e na construção da identidade acadêmica da UNESP.

Em síntese, a preservação da Biblioteca Universitária da UNESP de Marília representa um compromisso com a história, a cultura e o futuro da instituição. É um espaço que une gerações de estudantes, professores, pesquisadores e funcionários e deve ser protegido e valorizado para que continue a desempenhar essa função nas gerações vindouras.

Bibliografia

QUEVEDO, Gisele Dutra; SERRES, Juliane Conceição Primon. O papel da memória na história oral e na escuta de narrativas. Faces de Clio, [S.L.], v. 9, n. 17, p. 350-369, 22 jul. 2023. Universidade Federal de Juiz de Fora. http://dx.doi.org/10.34019/2359-4489.2023.v9.40979.

SILVA, Mayara Paula Atanásio Soares da; GOMES, Girlaine Pergentino. Biblioteca universitária como ambiente de memória coletiva, identidade e representatividade: um estudo sobre o espaço de pesquisa e cultura das relações étnico-raciais da ufpe. In: SEMINÁRIO NACIONAL DE BIBLIOTECAS UNIVERSITÁRIAS (SNBU), 22., 2023, Florianópolis. Anais [...] . Florianópolis: Snbu, 2023. p. 1-8. Disponível em: https://portal.febab.org.br/snbu2023/article/view/3024. Acesso em: 10 nov. 2024.