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Amaral, Tarsila do

De Wikiversidade
Retrato de Tarsila, por volta de 1925.

Tarsila do Amaral (1886-1973) foi uma das mais importantes artistas plásticas brasileiras, figura central do Modernismo no Brasil, notável por sua busca por uma arte com identidade nacional e suas fases artísticas distintas.

Infância e Formação Inicial (1886-1922)

Tarsila do Amaral nasceu em 1º de setembro de 1886, no município de Capivari, interior do Estado de São Paulo. Filha de José Estanislau do Amaral e Lydia Dias de Aguiar do Amaral, passou sua infância nas fazendas de seu pai.

Iniciou seus estudos em São Paulo, no Colégio Sion. Em 1904, durante uma estadia em Barcelona, Espanha, pintou seu primeiro quadro, ‘Sagrado Coração de Jesus’.

Retornou ao Brasil, casou-se com André Teixeira Pinto, com quem teve sua única filha, Dulce. Após alguns anos de separação, Tarsila iniciou seus estudos formais em arte. Começou com escultura, com Zadig, e em 1918, passou a ter aulas de desenho e pintura no ateliê de Pedro Alexandrino, onde conheceu a pintora Anita Malfatti.

Em 1920, viajou para Paris para estudar na Académie Julien e com Émile Renard. Permaneceu na capital francesa até junho de 1922, sendo informada sobre a Semana de Arte Moderna, ocorrida em fevereiro de 1922 no Brasil, através de cartas de sua amiga Anita Malfatti.

O Encontro com o Modernismo Brasileiro e a Fase Cubista em Paris (1922-1923)

Ao voltar ao Brasil, em meados de 1922, Tarsila foi apresentada por Anita Malfatti ao grupo modernista e iniciou um relacionamento com o escritor Oswald de Andrade. Juntos, formaram o "Grupo dos Cinco", composto por Tarsila, Anita Malfatti, Oswald de Andrade, Mário de Andrade e Menotti Del Picchia. Esse grupo promoveu uma intensa agitação cultural em São Paulo, com reuniões, festas e conferências. Tarsila afirmava ter tido seu primeiro contato significativo com a arte moderna em São Paulo, visto que seus estudos anteriores haviam sido acadêmicos.

Em dezembro de 1922, Tarsila retornou a Paris, e Oswald de Andrade a seguiu logo em seguida. Em 1923, em Paris, Tarsila e Oswald conheceram o poeta franco-suíço Blaise Cendrars, que os introduziu à intelectualidade parisiense. Tarsila estudou com o mestre cubista Fernand Léger, além de outros cubistas como Lhote e Gleizes.

Tarsila apresentou a Léger a tela ‘A Negra’, que o entusiasmou profundamente, levando-o a mostrá-la a outros alunos. Esta obra, cuja figura remetia às filhas de escravos que cuidavam das crianças em sua infância, marcou a entrada de Tarsila para a história da arte moderna brasileira.

Cendrars também a apresentou a importantes artistas e intelectuais como Pablo Picasso, o casal Delaunay, Jean Cocteau, Constantin Brancusi, Igor Stravinsky e Eric Satie. Tarsila também cultivou amizades com brasileiros em Paris, como o compositor Heitor Villa Lobos e o pintor Emiliano Di Cavalcanti. Era conhecida por oferecer almoços brasileiros em seu ateliê, com feijoada e caipirinha, e por sua elegância, vestindo-se com renomados costureiros da época. Em 1923, pintou o autorretrato ‘Manteau Rouge’ (Casaco Vermelho) após chamar a atenção em um jantar em homenagem a Santos Dumont, onde vestia um casaco vermelho.

A Fase Pau Brasil e a Afirmação da Identidade Nacional (Meados dos Anos 1920)

Tarsila descobriu em Minas Gerais as cores que a encantavam desde a infância – o azul puríssimo, rosa violáceo, amarelo vivo, verde cantante. Apesar de ter sido ensinada por seus mestres que essas cores eram "feias e caipiras", ela as incorporou em suas telas, fazendo delas uma de suas marcas registradas.

A temática brasileira – com suas paisagens rurais e urbanas, fauna, flora, folclore e o povo brasileiro – tornou-se central em sua obra, e Tarsila expressava o desejo de ser "a pintora do Brasil".

Aplicou a técnica do Cubismo aprendida em Paris em seus trabalhos. Essa fase de sua obra é conhecida como Pau Brasil. Quadros notáveis desta fase incluem ‘Carnaval em Madureira’, ‘Morro da Favela’, ‘O Mamoeiro’ e ‘O Pescador’. Além das pinturas, dessa viagem a artista fez uma das suas melhores séries de desenhos que inspirou Oswald de Andrade no livro de poesias intitulado Pau-Brasil, e Blaise Cendrars no livro Feuilles de route – Le formose.

Em 1926, Tarsila realizou sua primeira Exposição individual em Paris, recebendo críticas muito favoráveis. No mesmo ano, casou-se com Oswald de Andrade. Após o casamento, o casal passou longas temporadas na fazenda de Tarsila, onde recebiam os amigos modernistas.

A Fase Antropofágica e o Legado de ‘Abaporu’ (1928-1929)

Em janeiro de 1928, Tarsila pintou ‘Abaporu’ como presente de aniversário para Oswald de Andrade. Oswald ficou profundamente impressionado e, junto com o escritor Raul Bopp, batizou o quadro de Abaporu, que significa "homem que come carne humana, o antropófago". Inspirado por ‘Abaporu’, Oswald de Andrade escreveu o Manifesto Antropófago e fundou o Movimento Antropofágico. A figura do Abaporu simbolizava o ideal do movimento: "deglutir, engolir, a cultura europeia... e transformá-la em algo bem brasileiro. Valorizando o nosso país".

Tarsila revelou que ‘Abaporu’ era fruto de imagens de seu inconsciente, ligadas às histórias que as negras contavam para ela em sua infância. Nesta fase, a artista utilizou bichos e paisagens imaginárias, além de cores fortes. Outras Obras Antropofágicas Incluem ‘Sol Poente’, ‘A Lua’, ‘Cartão Postal’, ‘O Lago’ e ‘Antropofagia’.

Em 1929, Tarsila realizou sua primeira Exposição Individual no Brasil, onde a crítica se dividiu, refletindo a incompreensão de parte do público com sua arte. Neste mesmo ano, a crise da bolsa de Nova Iorque e a crise do café no Brasil afetaram sua realidade financeira, levando seu pai a perder dinheiro e ter fazendas hipotecadas, o que a obrigou a trabalhar. Tarsila também se separou de Oswald de Andrade, devido a uma traição dele com a estudante Patrícia Galvão (Pagu).

A Temática Social e os Últimos Anos (Pós-1930)

Em 1931, com o novo namorado, o médico comunista Osório Cesar, Tarsila expôs em Moscou. Lá, sensibilizou-se com a causa operária. Ao retornar ao Brasil, participou de reuniões do Partido Comunista Brasileiro e foi presa por um mês. Após este episódio, terminou o namoro com Osório e nunca mais se envolveu com política.

Em 1933, Tarsila pintou a tela ‘Operários’, considerada pioneira na temática social no Brasil. Outras obras com temática social incluem ‘Segunda Classe’, ‘Costureiras’ e ‘Orfanato’.

Em meados dos anos 1930, Tarsila uniu-se ao escritor Luís Martins, um romance que durou 18 anos. Trabalhou como colunista nos Diários Associados de seu amigo Assis Chateaubriand de 1936 até meados dos anos 50.

Em 1949, sua única neta, Beatriz, morreu afogada tentando salvar uma amiga. Nos anos 1950, Tarsila retomou a temática do Pau Brasil com obras como ‘Fazenda’, ‘Vilarejo com ponte e mamoeiro´, ´Povoação I´ e ´Porto I´. Participou da I Bienal de São Paulo em 1951, teve sala especial na VII Bienal de São Paulo e participou da Bienal de Veneza em 1964. Em 1966, sua filha Dulce faleceu. Em 1969, a doutora e curadora Aracy Amaral organizou a exposição ‘Tarsila 50 anos de pintura’.

Tarsila do Amaral faleceu em janeiro de 1973.

Obras de Tarsila do Amaral

Referências

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MOMA. Tarsila do Amaral Brasileiro, 1886–1973. Disponível em: <https://www.moma.org/artists/49158-tarsila-do-amaral>. Acesso em: 3 jul. 2025.

TARSILA DO AMARAL. Tarsila do Amaral – oficial. Disponível em: https://www.tarsiladoamaral.com.br/. Acesso em: 29 jun. 2025.


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