Ir para o conteúdo

Análise de Filme: "Terra em Transe" - Vikytor Moreno

De Wikiversidade
Aluno/a: Vikytor Moreno de Sousa
Ciências Sociais – 2025 – Turma Matutino ( ● ) Turma Noturno (   )
Terra em Transe
Cartaz de Filme "Terra em Transe"
Brasil
1967 •  pb •  106 min 
Género drama
Direção Glauber Rocha
Produção Glauber Rocha
Luiz Carlos Barreto
Carlos Diegues
Raymundo Wanderley Reis
Produção executiva Zelito Viana
Roteiro Glauber Rocha
Elenco Jardel Filho
Glauce Rocha
José Lewgoy
Paulo Autran
Paulo Gracindo
Música Sérgio Ricardo
Cinematografia Luiz Carlos Barreto
Direção de arte Paulo Gil Soares
Sonoplastia Aloisio Viana
Figurino Clóvis Bornay
Guilherme Guimarães
Paulo Gil Soares
Edição Eduardo Escorel
Companhia(s) produtora(s) Mapa Filmes do Brasil|Mapa Produções Cinematográficas Ltda.
Distribuição Difilm
Lançamento 19 de maio de 1967
Idioma português
Ator/Atriz Papel
Jardel Filho Paulo Martins
Glauce Rocha Sara
José Lewgoy Felipe Vieira
Paulo Autran Porfírio Diaz
Paulo Gracindo Júlio Fuentes
Francisco Milani Aldo
Hugo Carvana Álvaro
Jofre Soares Padre Gil
Mário Lago Capitão
Danuza Leão Sílvia
Thelma Reston Esposa de Felício
Flávio Migliaccio Homem do Povo
Antonio Camera Indigena
Paulo César Peréio Estudante
Darlene Glória Mulher na Orgia
Elizabeth Gasper Mulher na Orgia
Irma Alvarez Mulher na Orgia
Sônia Clara Mulher na Orgia
Zózimo Bulbul Repórter
Modesto de Souza Senador
Echio Reis Marinho
Emmanuel Cavalcanti Felício
José Marinho Jerônimo
Maurício do Valle Segurança de Vieira
Lauro Escorel Fotógrafo (Não Creditado)
Edison Machado Baterista na Orgia (Não Creditado)
Ion Muniz Músico na Orgia (Não Creditado)
José Medeiros Cameraman (Não Creditado)

DINÂMICA DA NARRATIVA

[editar | editar código]

Idéia Inicial – História

[editar | editar código]
O filme conta uma história. Sobre quem?
[editar | editar código]

Sobre Paulo Martins, um jornalista e poeta que, em seu leito de morte, rememora sua trajetória política em Eldorado, país fictício na América Latina, onde testemunhou e participou de manobras de poder entre diferentes facções.

Quais são as personagens principais?
[editar | editar código]
  • Paulo Martins (Jardel Filho) - jornalista, intelectual e poeta que representa, na minha opinião, a imprensa onisciente que observa e interage com todos os grupos
  • Porfírio Díaz (Paulo Autran)- senador e candidato à Presidência, político populista de direita que busca o poder com apoio estrangeiro;
  • Sílvia (Danuza Leão) - esposa de Díaz e amante de Paulo Martins, representando as relações ambíguas entre poder e afeto;
  • Sara (Glauce Rocha) - ativista revolucionária que personifica a esquerda combatente;
  • Felipe Vieira (José Lewgoy) - vereador candidato à Presidência, político de oposição que vacila quando precisa agir;
  • Júlio Fuentes (Paulo Gracindo) - empresário que representa os interesses econômicos e as traições políticas.
Qual delas mereceu a sua atenção?
[editar | editar código]

Porfirio Diaz, por ser uma figura que encapsula com precisão cortante a mediocridade fascistóide do poder. Sua caricatura no filme é de uma contemporaneidade quase perturbadora, ecoando de forma visceral o contexto político em que este texto é escrito. Ele é a quintessência do político profissional cinicamente construído, como o próprio filme denuncia na reportagem sabotada por Paulo: "Vejam como se fez um político. Vejam como um homem, sem nunca ter contato com o povo, pode se fazer grande e honrado nesta terra de Eldorado."

Contudo, diferentemente de uma simples caricatura, Díaz possui uma nuance crucial: ele tem plena consciência de seu papel no jogo de poder. Este cinismo atinge seu ápice quando o personagem quebra a quarta parede, dirigindo-se diretamente ao espectador para anunciar, sem qualquer pudor, a realidade da luta de classes e a desgraça que recairá sobre o povo de Eldorado – uma violência que será infligida em nome da manutenção de uma "ordem" vazia. Este gesto meta-cinematográfico não só amplifica a denúncia, mas também expõe a frieza calculista de um opressor que não se esconde, mas sim exibe sua lógica perversa como um fato inquestionável da vida política.

Como termina o filme? O que você achou sobre ele e porquê?
[editar | editar código]

O desfecho de Terra em Transe realiza-se no retorno ao seu marco inicial, consumando a estrutura circular que confere à narrativa seu caráter de tragédia inescapável. Na praia imaculada e onírica de brancas nuvem, o poeta Paulo Martins vive seus instantes finais. Sua figura, capturada em um plano longo e estático, é diminuída pela imensidão do cenário, enquanto ergue, como um totem de sua falida resistência, um fuzil que se mantém mais como símbolo do que como ferramenta. Sua morte é antilírica por excelência: a ausência de sangue, a melodia que se deixa engolir pelo estrondo das rajadas e sirenes, tudo conspira para negar qualquer noção de heroísmo. Esta é a consumação de um destino anunciado, a agonia vertical do intelectual que, incapaz de se dobrar à violência horizontal da política, encontra na morte sua última forma de afirmação. No clímax dessa tensão, Glauber Rocha interrompe a cena com corte brusco, deixando o poeta eternamente suspenso em seu último instante de tensão. Não há queda, apenas cristalização: a imagem definitiva do intelectual condenado à agonia perpétua, encapsulando o impasse de uma geração entre o sonho e a ação.

Eu acho que a trajetória de Paulo Martins me parece um retrato fiel — e doloroso — dos dilemas de uma esquerda de classe média intelectualizada: armada de teoria e boas intenções, enxerga os problemas com clareza quase profética, mas se mostra incapaz de converter essa consciência em ação eficaz e coletiva.

É interessante notar como Glauber trabalha as "massas" ao longo do filme. Essa homogeneização não é por acaso. Ele constrói uma chave hiperbólica, quase de caricatura, para criticar os poderosos — como na cena em que o Padre Gil fala em "civilizar os indígenas" ao lado de um homem de negócios que representa a marcha positivista do capitalismo. É uma escolha inteligente, um exagero proposital para escancarar as ideologias em jogo.

Ainda assim, vale a crítica: há certa superficialidade nesses tipos, e o povo acaba ficando como pano de fundo, sem rosto ou voz própria.

Mas, pra ser sincero, acho que o Glauber sabia muito bem o que estava fazendo. Sob a pressão da ditadura e com o duplo objetivo de criticar a esquerda e a direita, ele optou por delimitar bem os campos. Criou protagonistas mais "puros" — Paulo como o intelectual atormentado, Díaz como o político corrupto — e deslocou as nuances para os personagens secundários, onde havia mais margem para ambiguidade. Foi uma solução inteligente, ainda que incompleta — e talvez a única possível naquele contexto.

Tema de Fundo – Tese

[editar | editar código]
Quais são os temas tratados no filme?
[editar | editar código]

Terra em Transe é fundamentalmente um filme sobre política que constrói um diagnóstico implacável da máquina política através do duelo entre populismos. A obra expõe como o poder opera na prática por meio de quatro eixos - as massas manipuladas, os intelectuais divididos, a imprensa instrumentalizada e a igreja como aliada do status quo -, desvendando os subterrâneos do sistema onde reinam a corrupção e os acordos espúrios.

Em que cena compreendeu o tema de fundo do filme?
[editar | editar código]

Na primeira aparição de Porfírio Diaz, cercado de alegorias visuais que enfatizam seu poder e populismo, ocorre estrategicamente após a cena inicial da resistência frustrada e da decepção transtornada de Paulo Martins, criando um contraste imediato entre a autenticidade crítica do intelectual e a encenação triunfalista da política tradicional.

Qual o problema ou questão que foi tratada mais demoradamente?
[editar | editar código]

A questão tratada com maior profundidade e demora foi a paralisia do intelectual diante da ação política. O filme dedica sua narrativa inteira a explorar a contradição de Paulo Martins: ele possui plena consciência dos mecanismos de poder e da corrupção, mas hesita constantemente em agir. Sua indecisão é minuciosamente detalhada enquanto ele oscila entre os diferentes grupos de poder (Díaz, Vieira, Fuentes). Quando finalmente decide pela ação direta, já é tarde demais – a traição de Júlio Fuentes consolida o poder de Díaz, e sua tentativa desesperada de luta armada resulta em sua morte. O filme, portanto, estende-se sobre o drama da impotência e do timing político falho, usando a jornada de Martins para fazer uma autocrítica sobre a ineficiência e as divisões da esquerda intelectual da época

Os realizadores descreveram bem os protagonistas?
[editar | editar código]

Sim. Glauber Rocha construiu protagonistas que funcionam como arquétipos políticos precisos e intencionais. Paulo Martins personifica de forma aguda a contradição do intelectual que compreende teoricamente os mecanismos do poder, mas vacila na ação prática. Já Porfírio Díaz é a encarnação eficaz do populismo autoritário e da política como espetáculo. A descrição pode ser estereotipada, mas serve deliberadamente ao propósito alegórico e de crítica social do filme, representando forças políticas em conflito em vez de indivíduos psicologicamente complexos, ainda que possuam seu nível próprio de complexidade dentro dessa estrutura simbólica.

Ritmo e Montagem – Edição

[editar | editar código]
Qual a cena ou seqüência que mais chamou sua atenção ou lhe impactou? Porquê?
[editar | editar código]

A sequência que mais impactou foi o jantar privado entre Felipe Vieira, Sara e Paulo Martins, seguido imediatamente pelo comício político, pois essa transição revela com maestria a duplicidade da prática política. Enquanto no jantar os personagens discutem revolução, realpolitik, suas paixões em ambiente fechado, o corte para o comício mostra Vieira performando para as massas, evidenciando o abismo entre o discurso intelectual e a realidade popular.

Houve algo no filme que te aborreceu? Em que parte do filme? Eram cenas de diálogo ou de ação?
[editar | editar código]

Não. A narrativa do filme, embora intensa e carregada de simbolismo, mantém uma coerência interna que sustenta o interesse ao longo de toda sua duração. As escolhas estéticas de Glauber Rocha, incluindo os diálogos densos e as cenas de ação mais alegóricas, servem consistentemente ao propósito de sua crítica política e social, não gerando momentos de tédio ou desinteresse significativos.

Qual a cena/seqüência que não foi bem compreendida por você? Porquê?
[editar | editar código]

Não houve uma cena ou sequência específica que não tenha sido compreendida. No entanto, reconheço que as cenas mais alegóricas e surrealistas – características do estilo de Glauber Rocha – podem demandar uma segunda observação ou um maior contexto sobre o Cinema Novo para sua plena decifração. Essas passagens, embora potencialmente herméticas em um primeiro momento, não comprometem a compreensão global da narrativa ou de sua crítica política central, integrando-se coerentemente à linguagem estilística e ao propósito contestatório do filme.

O que é proposto pelo filme é aceitável ou não? Porquê?
[editar | editar código]

Mais do que aceitável, a proposta se mostra profética. O filme antecipou questões que permanecem urgentes: a manipulação popular, a fragilidade das instituições democráticas e a complexa relação entre intelectuais e poder. Sua crítica às estruturas políticas corruptas e à inação diante de crises mantém assustadora atualidade.

A quem se dirige, em sua opinião, o filme?
[editar | editar código]

Dirige-se primordialmente aos artistas, intelectuais e a todo um setor da esquerda marcado por um assintomático fatalismo, desafiando-os a assumir seu papel na transformação social. Através da figura de Paulo Martins, Glauber Rocha não apenas questiona, mas disseca o lugar do criador oscilando entre a contemplação e a ação, entre o discurso crítico e o engajamento efetivo nas lutas políticas de seu tempo. O filme expõe a contradição íntima de quem compreende teoricamente os mecanismos de opressão, mas permanece paralisado por um cinismo que mascara o medo de agir. É, portanto, um espelho doloroso e necessário para aqueles que, mesmo conscientes, falham em transformar consciência em prática revolucionária

Relação com a disciplina de História do Brasil

[editar | editar código]
Qual a contribuição do filme para sua compreensão da disciplina e do período estudado?
[editar | editar código]

Acredito que "Terra em Transe" funciona como um testemunho visceral do impasse político e intelectual pós-1964. Através de sua linguagem alegórica, Glauber Rocha capturou o clima de desilusão, paralisia e radicalização que marcou a esquerda brasileira durante os anos mais sombrios da ditadura. A obra expõe não apenas a repressão do regime, mas as contradições internas dos que lhe faziam oposição - a verbosidade sem ação, os purismos sectários e as facilidades do populismo.

Relacione as contribuições desse trabalho para sua formação.
[editar | editar código]

O trabalho desenvolve o que poderíamos chamar de "alfabetização midiática crítica". Em uma era de excesso de informações, a capacidade de ler produções audiovisuais com rigor analítico - identificando intencionalidades, contextos e operações narrativas - torna-se tão crucial quanto a literacia tradicional. "Terra em Transe", em particular, nos ensina a decifrar a gramática política das imagens, preparando-nos para desconstruir discursos hegemônicos em diversas esferas.