Análise de Filme "O que é isso, Companheiro?"
Unesp - Universidade Estadual Paulista
[editar | editar código]Disciplina: História do Brasil II
Prof. Paulo Eduardo Teixeira
Aluno/a: Eduardo de Luca Pires Candido
Ciências Sociais – 2025 – Turma Matutino ( x ) Turma Noturno ( )
Título do Filme
[editar | editar código]Ficha Técnica
[editar | editar código]Título do Filme: O Que É Isso, Companheiro?
Ano: 1997 País: Brasil
Gênero: Drama
Duração: 110 minutos
Direção: Bruno Barreto
Roteiro: Leopoldo Serran / Fernando Gabeira
Fotografia: Félix Monti
Trilha sonora: Stewart Copeland
Elenco original: Alan Arkin, Caio Junqueira, Fernanda Torres, Cláudia Abreu, Luiz Fernando Magalhães, Marco Ricca, Matheus Nachtergaele, Pedro Cardoso
Produção: Luiz Carlos Barreto Produções Cinematográficas
Idioma original: Português (Brasil)
Dinâmica da narrativa
[editar | editar código]O filme conta uma história. Sobre quem?
[editar | editar código]R:A narrativa central do filme é baseada em um evento histórico crucial: o sequestro do embaixador norte-americano Charles Burke Elbrick, ocorrido em 4 de setembro de 1969, no Rio de Janeiro. Através de uma perspectiva focada no grupo revolucionário MR-8 (Movimento Revolucionário 8 de Outubro), a trama detalha minuciosamente as etapas de planejamento, a execução da operação e suas profundas e imediatas consequências, tudo isso inserido no contexto opressivo da ditadura militar brasileira.
Quais são as personagens principais?
[editar | editar código]R: O elenco principal é composto pelos integrantes do MR-8 e figuras-chave do conflito:
· Paulo / Fernando Gabeira: Um jovem jornalista e militante de movimentos estudantis que se integra ao grupo revolucionário em busca de um meio de resistir e combater o regime. Ele é a figura que, posteriormente, escreveria o livro de memórias "O Que É Isso, Companheiro?" (1979), que serve de base para o filme. · Maria: Uma das líderes originais do grupo no Rio, com forte trajetória em movimentos estudantis, que vê sua liderança questionada com a chegada de Jonas. · Jonas: Um revolucionário profissional, experiente e mais radical, que é enviado de São Paulo para assumir o comando operacional da missão de sequestro. · Renée: A integrante mais nova do grupo, retratada com uma aparência delicada que esconde sua determinação. Possui relações familiares conturbadas e é designada para uma tarefa arriscada: seduzir um funcionário da embaixada para obter informações cruciais. · Charles Burke Elbrick: O embaixador dos Estados Unidos sequestrado. O filme o constrói não como uma caricatura, mas como uma figura ponderada, que em certos momentos demonstra compreensão (ainda que relutante) dos motivos dos seus captores. · Henrique: Um policial do regime encarregado da investigação e da tortura de presos políticos, como Oswaldo. Sua personagem apresenta uma complexidade moral, mostrando-se atormentado e incapaz de dormir devido às suas ações, mas, paradoxalmente, sem recuar em cometê-las.
Qual delas mereceu a sua atenção?
[editar | editar código]R: Três personagens se destacam por sua complexidade narrativa. Paulo, por ser o protagonista que oferece a perspectiva central e seu arco de transformação. O embaixador Elbrick, por sua caracterização surpreendentemente tranquila e moderada, o que levanta questões sobre a veracidade histórica de se colocar um diplomata com tal perfil no Brasil da época. Por fim, o policial Henrique, que representa um vilão diferente: sua suposta crise de consciência, que não se traduz em mudança de ação, cria uma ambiguidade perturbadora sobre a natureza da violência de Estado.
Como termina o filme? O que você achou sobre ele e porquê?
[editar | editar código]R: O desfecho mostra o governo cedendo às exigências dos sequestradores, libertando e exilando 15 presos políticos para o México. O embaixador é libertado são e salvo em frente ao Maracanã, após um clássico de futebol. No entanto, a vitória é momentânea. Os membros do MR-8 são subsequentemente capturados após a polícia rastrear os endereços que usavam como esconderijo, encontrados a partir de recortes de jornal. Dois integrantes são mortos e os demais são brutalmente torturados. Eles só são libertados da prisão devido a um outro sequestro, o do embaixador da Alemanha, e mostrados, por fim, física e psicologicamente devastados, no exílio na Argélia.
Tema de Fundo – Tese
[editar | editar código]Quais são os temas tratados no filme?
[editar | editar código]R: O filme aborda como tema central a resistência à ditadura militar brasileira (1964-1985), focando especificamente no ano de 1969. Ele explora as táticas da luta armada como uma resposta à repressão estatal, mergulhando nos dilemas, motivações e consequências enfrentadas pela juventude e pelos movimentos estudantis que optaram por esse caminho de oposição ao regime.
Em que cena compreendeu o tema de fundo do filme?
[editar | editar código]R: A compreensão do tema é estabelecida logo na sequência de abertura, que retrata a "Passeata dos Cem Mil", um marco histórico real de protesto contra o Ato Institucional Nº 5 (AI-5) e a escalada da violência do governo militar. Essa cena contextualiza imediatamente o clima de insatisfação popular e repressão brutal que serve de pano de fundo para toda a ação radical que se segue.
Qual o problema ou questão que foi tratada mais demoradamente?
[editar | editar código]R: A questão desenvolvida com maior profundidade ao longo da trama é a dinâmica opressiva do contexto ditatorial. O filme dedica tempo significativo para mostrar o aparato de vigilância e controle policial, a atmosfera de medo que leva cidadãos comuns a delatar comportamentos suspeitos e as imensas dificuldades e riscos enfrentados pelo grupo revolucionário ao operar dentro desse ambiente hostil.
Os realizadores descreveram bem os protagonistas?
[editar | editar código]R: Sim, os protagonistas são descritos de forma eficaz e bem definida. Por se tratar de uma adaptação de eventos e personagens reais, o filme consegue capturar as nuances e motivações de cada indivíduo, caracterizando-os de maneira crível e alinhada com os acontecimentos históricos que inspiram a narrativa.
Ritmo e Montagem – Edição
[editar | editar código]Qual a cena ou seqüência que mais chamou sua atenção ou lhe impactou? Porquê?
[editar | editar código]R: A cena de maior impacto é a de uma senhora anônima, observando da janela de seu apartamento, que telefona para a polícia para reportar "atividades suspeitas" no prédio frente. Essa breve sequência é poderosa por sintetizar o clima de paranoia e vigilância mútua da época, mostrando como setores da sociedade normalizavam e colaboravam com o regime de exceção, enquanto a autoridade policial, ironicamente, falhava em agir sobre a pista que poderia ter evitado o sequestro.
Houve algo no filme que te aborreceu? Em que parte do filme? Eram cenas de diálogo ou de ação?
[editar | editar código]R: Certas escolhas narrativas e estilísticas geram estranhamento. A qualidade da gravação e a direção divergem de outras referências do cinema nacional da época, criando uma sensação de artificialidade. Alguns diálogos soam forçados, com expressões e gírias que soam anacrônicas ou pouco naturais, quebrando a imersão na realidade histórica. Além disso, a caracterização excessivamente filosófica e conivente do embaixador e a tentativa de humanizar o torturador Henrique com uma suposta culpa não redentora foram elementos que pareceram simplistas ou contraditórios.
Qual a cena/seqüência que não foi bem compreendida por você? Porquê?
[editar | editar código]R: A transição que omite as negociações diretas entre o governo e os sequestradores gera uma lacuna na compreensão. No dia do prazo final, o filme não mostra como se deu a decisão governamental de aceitar as exigências, cortando abruptamente para o horário combinado para a libertação (22:00). Essa elipse deixa uma interrogação sobre um momento crucial de tensão e barganha política.
Mensagem
[editar | editar código]O que é proposto pelo filme é aceitável ou não? Porquê?
[editar | editar código]R: A proposta do filme é mais do que aceitável; é necessária. Ele cumpre um papel importante ao retratar a tensão e o horror do período ditatorial com a linguagem de um thriller político, tornando o evento histórico acessível e envolvente para o público. Além disso, joga luz sobre um episódio específico e pouco conhecido – o sequestro de Elbrick –, contribuindo para a memória e para a discussão crítica sobre esse capítulo sombrio da história do Brasil.
A quem se dirige, em sua opinião, o filme?
[editar | editar código]R: O filme, lançado em 1997, se dirige a um público que, passados apenas doze anos da redemocratização, estava revendo e reavaliando o período da ditadura. Ele dialoga com uma sociedade em processo de amadurecimento democrático, disposta a revisitar os horrores do passado recente para compreendê-lo e evitar sua repetição.
Relação com a disciplina de História do Brasil
[editar | editar código]Qual a contribuição do filme para sua compreensão da disciplina e do período estudado?
[editar | editar código]R:"O Que É Isso, Companheiro?" é um filme fundamental para se pensar o processo de construção da memória sobre a ditadura no Brasil. Lançado em 1997, ainda durante o período de abertura e redemocratização "lenta e gradual", ele contribuiu para popularizar um debate que até então estava restrito a círculos acadêmicos e militantes. Ao humanizar os envolvidos e complexificar a narrativa, ele evita tanto a demonização quanto a glorificação cega, convidando o público a um exercício crítico e desconfortável.
O filme é mais do que um relato sobre um evento histórico específico, "O Que É Isso, Companheiro?" é uma ferramenta pedagógica valiosa para discutir os mecanismos de opressão estatal, os impasses da resistência e os complexos processos de memória e justiça transitional. Para o estudante de Ciências Sociais, o filme não fornece respostas, mas sim as perguntas certas: Como se combate uma ditadura? Qual o preço da liberdade? Até onde podemos ir em nome de um ideal? É na incômoda reflexão sobre essas questões que reside o seu maior valor.
Relacione as contribuições desse trabalho para sua formação.
[editar | editar código]R: Este tipo de trabalho é fundamental para a formação acadêmica e cidadã, pois desenvolve a capacidade de analisar fontes diversas, confrontar narrativas e exercitar a criatividade necessária para interpretar e articular conhecimentos históricos de forma crítica e profunda, habilidades indispensáveis para qualquer trabalho intelectual sério.