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Análise de filme: "Getúlio" - João Pedro Rondina Galego da Silva

De Wikiversidade

Aluno (a): João Pedro Rondina Galego da Silva

Ciências Sociais – 2025 – Noturno

FICHA TÉCNICA

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Título do filme: Getúlio.

Ano: 2014.

País: Brasil.

Gênero: Drama brasileiro.

Duração: 100 minutos.

Direção: João Jardim.

Roteiro: George Moura.

Fotografia: Walter Carvalho.

Trilha sonora: Frederico Jusid.

Elenco original: Tony Ramos (Getúlio Vargas), Alexandre Borges (Carlos Lacerda), Drica Moraes (Alzira Vargas), AC Costa (Alcino), Adriano Garib (General Zenóbio da Costa), Alexandre Nero (Coronel Scaffa), Clarisse Abujamra (Clarisse Vargas), Álvaro Diniz (Taxista Nelson), Cláudio Tovar (Deputado do Governo), Daniel Dantas (Deputado da Oposição), Fernando Luís (Benjamim Vargas), Gillray Coutinho (Almirante Reinaldo Guilhobel), Isaac Bernat (Novo Ministro da Aeronáutica), Jackson Antunes (Café Filho), José Raposo (Nero Moura), Leonardo Medeiros (General Caiado), Luciano Chirolli (General Tavares), Marcelo Médici (Lutero Vargas), Michel Bercovitch (Tancredo Neves), Murilo Elbas (Mordomo João Zaratimi), Murilo Grossi (Major Fitipaldi), Paulo Giardini (Brigadeiro Eduardo Gomes), Silvio Matos (General Carneiro de Menezes) e Thiago Justino (Gregório Fortunato).

Produção: Carla Camurati, Pedro Borges e Carlos Diegues.

Idioma original: Português (Brasil).

DINÂMICA DA NARRATIVA

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Ideia inicial – História

"Getúlio" é um drama brasileiro lançado em 2014 que retrata os últimos 19 dias de vida do ex-presidente Getúlio Vargas antes de cometer suicídio. O estopim para esse episódio foi o atentado contra o jornalista e candidato a deputado federal Carlos Lacerda – considerado por Vargas como seu principal inimigo. No entanto, o atentado acabou saindo pela culatra e resultou na morte do major-aviador Rubens Florentino Vaz. A partir disso, Getúlio Vargas passou a ser severamente associado ao assassinato de Rubens Florentino Vaz por seu opositor Carlos Lacerda e seus aliados, que o acusavam de ser mandante do crime, deixando-o ainda mais sem saída e cada vez mais pressionado a renunciar. Após diversas investigações conduzidas pela polícia, Gregório Fortunato, chefe da guarda pessoal de Getúlio Vargas, foi indiciado como mandante do crime; porém, até hoje, não há certeza na historiografia sobre quem realmente ordenou o atentado. O que se sabe é que, provavelmente, foi alguém ligado ao círculo íntimo do ex-presidente.

As personagens com mais relevância ao longo da trama são Getúlio Vargas, Carlos Lacerda, Alzira Vargas, Zenóbio da Costa, Gregório Fortunato e Scaffa. Dentre elas, as que merecem destaque, em minha opinião, são Gregório Fortunato e Alzira Vargas. Gregório se destaca por seu caráter enigmático e envolto em suspense: nós, espectadores, não conseguimos decifrar o que se passa em sua mente, já que, durante todo o filme, ele não colabora com as investigações. É apenas no final do longa-metragem que ele revela quem foram os responsáveis pelo crime – que, por sua vez, nunca foram condenados. Alzira, por sua vez, representa o lado mais íntimo e sentimental de Getúlio. Ela é a única mulher na cúpula mais alta da Presidência da República e também filha do presidente. Vargas demonstra constante preocupação com ela, e Alzira se mostra sempre disposta a enfrentar, ao lado do “papai”, todos os desafios do governo.  

O filme termina com a leitura da Carta Testamento escrita por Getúlio Vargas, destacando, sobretudo, sua última e mais famosa frase:

“Eu vos dei a minha vida. Agora vos ofereço a minha morte. Nada receio. Serenamente dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na História.”

Ao mesmo tempo, são exibidas imagens reais que registram a reação da sociedade civil à notícia de seu suicídio (ou possível assassinato), bem como de seu velório público. Por meio dessas imagens, é possível notar a gigantesca comoção da população com sua morte, concretizando, assim, a verdadeira intenção do ex-presidente de não se submeter ao golpe que as Forças Armadas e Carlos Lacerda estavam arquitetando contra seu governo e gerar um impacto enorme com isso: há um consenso entre os historiadores de que seu suicídio atrasou em 10 anos o golpe empresarial-militar de 1964.

Particularmente, a ambientação de todo o cenário, a escolha dos atores, a escrita do roteiro, a elaboração da fotografia e a construção da trilha sonora me agradaram muito: o filme é muito bem-produzido. João Jardim enquadrou com excelência o roteiro e me deixou completamente envolvido com a história.


Tema de fundo – Tese

O filme aborda principalmente os motivos que culminaram no suicídio de Getúlio Vargas: as tensões de seu governo, a oposição e a pressão do jornalista Carlos Lacerda e de parte das Forças Armadas, as acusações de corrupção e os momentos de angústia vividos pelo ex-presidente. Isso fica evidente logo no início da trama, quando o narrador-personagem Vargas faz uma retrospectiva histórica de seu governo e do que ele representa, seguida pelo atentado contra o candidato a deputado federal Carlos Lacerda.

Paralelamente, a questão que mais demora a ser esclarecida é justamente o percurso que levou Getúlio até 24 de agosto de 1954 – aspecto retratado com competência pelo diretor do filme. Ao longo de toda a história, vamos descobrindo os pormenores da crise no final do governo de Getúlio Vargas, acompanhados de suas angústias – representadas simbolicamente pelos pesadelos que o atormentam ao longo de todo o filme. Os idealizadores da obra caracterizaram com excelência os personagens, especialmente o protagonista, conhecido por sua sagacidade e perfil calculista. Tony Ramos interpretou brilhantemente o papel de Getúlio Vargas, transmitindo com precisão a complexidade de sua personalidade. Além disso, os demais papéis foram desempenhados por atores igualmente talentosos, o que contribuiu significativamente para a contextualização histórica da trama.


Ritmo e Montagem – Edição

A cena que mais me chamou a atenção e me impactou ocorre logo no início, quando Getúlio questiona Alzira sobre o retorno de seu irmão de Roma. Ela responde: “Tá pra voltar”, e Vargas prontamente conclui: “Ótimo. Ainda bem. Ele vai chegar a tempo do meu funeral.”

Esse diálogo pode parecer breve e insignificante, mas carrega um significado profundo: Getúlio já vinha planejando sua morte e tinha plena consciência de que, devido ao seu caráter populista, sua partida causaria grande comoção em todo o país. Seu desejo por poder – algo bastante evidente, já que ele planejou e executou dois golpes de Estado para não deixar o cargo – era enorme, e ele preferia morrer fisicamente a ser deposto ou renunciar. Para ele, morrer politicamente era muito pior.

Além disso, houve uma cena que me aborreceu muito no filme, em que Getúlio dialogava com alguns integrantes de seu governo e decidia as ações que tomaria para controlar a crise. Um dos membros sugere que ele acione as Forças Armadas para conter os opositores, e Getúlio responde que já havia rasgado a Constituição duas vezes e que não poderia fazer isso novamente. Nessa afirmação, ele se referia ao golpe que deu para assumir o Governo Constitucional em 1934 e ao golpe do Estado Novo em 1937.  

Porém, também houve momentos no filme em que me senti perdido – especialmente durante as cenas que ilustravam as reuniões entre ministros e generais das Forças Armadas. Para esclarecer essas dúvidas, é necessário compreender melhor os meandros da história do governo varguista e o papel dos militares em todo esse contexto político.


Mensagem

O filme se propõe a reconstruir os últimos dias de vida do ex-presidente Getúlio Vargas, lançando luz sobre os bastidores políticos e emocionais que culminaram em seu suicídio, em 24 de agosto de 1954. A obra também busca explorar não apenas os conflitos políticos que envolviam ministros, generais e opositores, mas também o drama íntimo vivido por Vargas diante da pressão crescente para renunciar. Nesse sentido, a proposta desse filme é muito aceitável para àqueles que gostam e querem conhecer a história política do nosso país. Apesar disso, eu sinto que o filme engrandece a figura de Getúlio Vargas de forma excessivamente exaltada, o que me incomodou um pouco.


Relação com a disciplina História do Brasil

Ao apresentar de maneira detalhada o cenário de instabilidade que caracterizou o segundo governo Vargas (1951–1954), o filme ajuda a entender a história política do Brasil. O filme retrata personagens reais, como Carlos Lacerda, Alzira Vargas e membros das Forças Armadas, além de eventos significativos, como o atentado da Rua Tonelero. Isso ajuda o público a entender os conflitos entre o governo e os setores conservadores da sociedade, incluindo a imprensa, a elite econômica e os militares. O suicídio de Vargas, visto como um ato político e simbólico, é essencial para entender os caminhos que o Brasil seguiu na década de 1950 e a continuidade de seu legado populista. Além disso, o filme me ajudou a elucidar questões que ainda eram muito nebulosas para mim sobre o governo de Getúlio Vargas, pois, ao terminar de assisti-lo, me senti instigado a conhecer melhor esse político que, de forma positiva ou negativa, continua relevante até os tempos contemporâneos.

Em minha trajetória como estudante, considero que Getúlio (2014) é um ótimo filme para refletirmos sobre questões centrais da nossa área, como o poder na política, o autoritarismo e o populismo. Além disso, ao expor os bastidores de um governo em um período de grande instabilidade e crise, o filme estimula uma reflexão aprofundada sobre como as narrativas e memórias coletivas são construídas, contribuindo para o amadurecimento do pensamento crítico no âmbito das Ciências Sociais.

Por fim, devemos compreender o cinema, a partir das Ciências Sociais, como uma linguagem intencional – portanto, não neutra – e como uma forma de representação da realidade. Assim, o filme, sob essa perspectiva, contribui significativamente para minha formação como cientista social.