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Análise de filme "Corações Sujos" - Rodrigo Lopes Viudes

De Wikiversidade

Disciplina: História do Brasil II

Professor Paulo Eduardo Teixeira

ROTEIRO PARA ANÁLISE DE FILME

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Aluno: Rodrigo Lopes Viudes

Ciências Sociais – 2025 – Turma Matutino ( X  ) Turma Noturno (   )

CORAÇÕES SUJOS

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FICHA TÉCNICA

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Título do Filme: Corações Sujos

Ano: 2011 | País: Brasil

Gênero: Drama, suspense, ficção, histórico

Duração: 1h30min

Direção: Vicente Amorim

Roteiro: David França Mendes

Fotografia: Rodrigo Monte

Trilha sonora: Akihito Matsumoto

Elenco original: Tsuyoshi Ihara, Takako Tokiwa, Eiji Okuda, Shun Sugata, Kimiko Yo, Celine Fukumoto, Ken Kaneko, Issamu Yazaki, Eduardo Moscovis e André Frateschi.

Produção: Anne Pinheiro Guimarães, Ariane Félix, Bernardo da Fonseca, Caíque Martins Ferreira, Carlos Eduardo Rodrigues, Diana Almeida, Eliane Ferreira, Gil Ribeiro, João Daniel Tikhomiroff, Luísa Spindola, Michel Tikhomiroff , Oliver Kwon e Vicente Amorim.

Idioma original: Português | Japonês

DINÂMICA DA NARRATIVA

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A) Ideia Inicial – História

O filme retrata os dias seguintes dos moradores de uma pequena colônia de japoneses radicados no interior do Brasil após o fim da Segunda Guerra Mundial, consumada pela rendição do Japão aos países aliados.

Submetidos às proibições de acesso à informação no próprio idioma, nacionalistas comandados por um ex-oficial do Exército Imperial Japonês (Eiji Okuda) negam a derrota japonesa e reagem promovendo assassinatos entre os próprios imigrantes nipônicos.

Os makegumi (derrotistas), assim denominados pelos kachigumi (vitoristas), passam a ser chamados de kegareta kokoro (corações sujos), tais como fossem “traidores” da pátria por aceitarem os fatos históricos.

O velho comandante confere a um jovem fotógrafo (Tsuyoshi Ihara) a missão de vingar a honra da memória vitoriosa do Japão contra os japoneses “inimigos”, com peculiar uso de uma espada de samurai.

A trama acompanha a saga de assassinatos, praticadas por outros japoneses, intercalada pelas atuações coadjuvantes da esposa do fotógrafo, a professora Miyuki (Takako Tokiwa) e da pequena Akemi (Celine Fukumoto).

Ao final, o filme retrata a retomada da vida, décadas depois, de alguns daqueles que resistiram ao tempo da carnificina, e tiveram a oportunidade de reencontrar-se pelos acasos das rotinas e das memórias.

Corações Sujos’ retrata, portanto, em sua abordagem fictícia a fatos históricos, o quanto o esgarçamento de aspectos morais notadamente acentuados na cultura japonesa – a honra, sobretudo – pode induzir ao crime cidadãos comuns sob a égide da defesa da pátria.

B) Tema de Fundo – Tese

Além da eventual pretensão de incitar o debate sobre as consequências dos transbordos morais no culto ao nacionalismo, em voga na análise contemporânea das ciências sociais, ‘Corações Sujos’ tem seu fulcro em um fenômeno particular ocorrido na colônia japonesa no pós-Segunda Guerra Mundial.

No Brasil, ultranacionalistas inconformados com as últimas notícias que chegaram do front – a saber, da Baía de Tóquio, sobre a rendição japonesa, assinada no navio americano USS Missouri, em 2 de setembro de 1945 – aglutinaram-se para formar uma organização criminosa a que se deu o nome de Shindo Renmei.

Criada em Marília em 1942, ainda em tempos de guerra, após embates violentos entre japoneses e brasileiros, a ‘Liga do Caminho dos Súditos’ assumiria seus contornos exclusivamente fratricidas somente após o fim do confronto entre países aliados e do eixo, espalhando dezenas de suas bases pelo interior paulista e paranaense.

Oficialmente, as ações da Shindo Renmei mataram 24 japoneses, além de ferir outros 147. O espírito de vingança é vigorosamente retratado nas personagens do ex-oficial do Exército Imperial Japonês, em sua verniz ideológica e na do fotógrafo, pela execução impiedosa dos “traidores”.    

C) Ritmo e Montagem – Edição

A saga da Shindo Renmei é retratada em ‘Corações Sujos’ em suas articulações e ações, contrapondo cenas de diálogos de forte apelo ideológico com as de assassinatos a sangue frio, seja ao fio da espada ou à bala.

Nos entremeios, sucedem-se aprofundamentos nas relações familiares de assassinos e vítimas, as intervenções da polícia vigilante às proibições à colônia japonesa na época e, por alto, de práticas e ritos religiosos.

Exceto por uma análise mais acurada das técnicas cinematográficas, não se observa em ‘Corações Sujos’ descontinuidades no roteiro capazes de provocar dispersões do espectador ao giro da trama principal.

O interesse pelo enredo, que se desenrola tais quais os algodões confinados na cooperativa retratada no filme, e destinados à fiação, tecem a atenção linear, de modo a encaminhar o argumento, do início ao fim.

D) Mensagem

Pelos motivos expostos acima, ‘Corações Sujos’ cumpre com sua proposta, ainda que por contornos fictícios, de retratar fatos acerca da reação da comunidade japonesa à derrota na Segunda Guerra Mundial em solo brasileiro.

No caso, de certa parcela de imigrantes nipônicos, contados entre os ultranacionalistas, dos quais centenas foram identificados, segundo os registros das autoridades policiais de época.

Pelo menos 14 teriam cumprido pena por assassinato.

Os dados históricos fornecidos ao final do filme – mais de 30 mil japoneses presos e 381 condenados – representam menos de uma sexta parte dos japoneses entre os 190 mil que haviam imigrado ao Brasil até 1945.

E) A relação com a disciplina de História do Brasil

Corações Sujos’ contribui, ainda que em sua versão cinematográfica, na preservação da memória de fato relevante da história da imigração japonesa no Brasil, de modo particular no debate do ultranacionalismo negacionista, repressivo e armado.

O filme é inspirado em livro homônimo do jornalista Fernando Morais, publicado em 2000, pela Companhia das Letras. A obra foi concluída após anos de pesquisas e entrevistas sobre a Shindo Renmei.

Condecorado com o Prêmio Jabuti, em 2001, o livro receberia pontuais atualizações anos depois no Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) de Jornalismo “Os últimos Tokkotai”, do jornalista Roberto Cezar Pereira, na Universidade de Marília.

Entre as contribuições do trabalho estão relatos de uma viúva e as confidências de um executor da Shindo Renmei, que afirmou ter matado dez japoneses – e, no início dos anos 2000, levava vida pacata à frente de seu comércio em Marília.

Entre as pesquisas de campo desenvolvidas pelo colega jornalista, tive a oportunidade de acompanhar a visita a uma área rural de Tupã, onde pelo menos seis japoneses foram assassinados em uma emboscada de tokkotai.

Na região de Marília, onde se encontra uma das maiores concentrações da população japonesa no interior paulista, a Shindo Renmei é um tabu nas rodas de conversas da colônia, relegada às catacumbas da memória coletiva.