Ir para o conteúdo

Análise de texto: "O Governo João Goulart e o golpe de 1964: memória, história e historiografia" - João Gaspar Ferreira

De Wikiversidade

Análise de texto: "O Governo João Goulart e o golpe de 1964: memória, história e historiografia" - João Gaspar Ferreira

Professor responsável: Paulo Eduardo Teixeira

ROTEIRO PARA ANÁLISE DE TEXTO

DISCENTE: João Gaspar Ferreira

TEXTO: O Governo João Goulart e o golpe de 1964: memória, história e historiografia

EDIÇÃO: Revista Tempo UFF Niterói, volume 14, 2010. Ano de Publicação: 2010.

Autora: Lucilia de Almeida Neves Delgado

ANÁLISE DO TEXTO

1. Identificação da Autora

Lucilia de Almeida Neves Delgado é graduada em História pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) em 1974, mestre em Ciência Política na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) em 1979, doutora em Ciências Humanas/Ciência Política pela Universidade de São Paulo (USP) em 1989.Foi professora titular da PUC-MG de 1986 e 2010 e professora da UnB de 2010 a 2013. Está aposentada definitivamente desde 2017.

Os temas que ela mais se dedicou em sua trajetória acadêmica estão relacionados à História do Brasil Republicano, com ênfase em temas como a Ditadura Militar (1964-1985) e a Democracia pós-1985, estudos sobre o Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), os governos de Getúlio Vargas e a história dos movimentos sindicalistas e História Oral, usando entrevistas como metodologia para construir uma narrativa histórica.

2. Temáticas analisadas / problematizações destacadas

As temáticas analisadas no artigo abordam a relação entre memória, história e esquecimento, pois, segundo a autora, memória e esquecimento são construções seletivas. Nesse sentido, o esquecimento de boa parte da história de João Goulart, sobretudo quando foi presidente da República no início dos anos 1960, foi uma estratégia deliberada de opositores visando desqualificá-lo a fim de legitimar os governos militares ditatoriais. O texto apresenta uma apreciação crítica sobre diversas correntes interpretativas sobre o Governo João Goulart e o Golpe de 1964.

No tocante às problematizações destacadas, a autora critica a ideia de que o golpe era "inevitável" e que também teria sido uma "contrarrevolução" para impedir o avanço socialista.

3. Momento histórico de produção (lugar do discurso)

O texto foi publicado em 2010. Nesse período, o segundo mandato do Governo Lula terminava, marcando um momento de transição política na história do Brasil em meio às eleições daquele ano, em que Dilma Rousseff foi eleita e tomou posse em 2011. O mundo passava pelos efeitos da crise econômica iniciada em 2008 nos Estados Unidos. Com isso, vários países sofreram crises em seus mercados internos e externos. A China já se destacava no BRICS e em 2009 se tornou o principal parceiro comercial do Brasil.

4. Temporalidades / sujeitos abordados / relação passado-presente

O texto aborda a historiografia sobre o governo de João Goulart e o golpe de 1964 e diferentes temporalidades, desde o período que antecedeu o golpe e a própria periodização da ditadura, bem como a produção acadêmica sobre o tema ao longo das últimas décadas, explorando a atuação de sujeitos importantes como João Goulart (Jango), os militares e os grupos conservadores que o depuseram, e os historiadores que interpretaram esse momento, para demonstrar como o golpe foi resultado tanto de fatores estruturais de “longa duração” quanto de conflitos políticos conjunturais. Desse modo, a análise estabelece uma forte conexão entre passado e presente, ao demonstrar como a produção historiográfica mais recente tem resgatado a figura de Jango e preenchido as lacunas deixadas pelo esquecimento.

5. Perspectiva de História expressa

A perspectiva histórica expressa no texto é a de que o golpe de 1964 não pode ser explicado por um único fator, pois a autora defende uma abordagem que integra tanto as variáveis estruturais de longa duração, como a incapacidade de a política brasileira lidar com a divergência, quanto os aspectos conjunturais, como a radicalização política do período e a recusa de negociação.

A autora argumenta que a análise histórica deve ser contínua e constantemente revisada, a fim de se combater o “esquecimento” de modo recorrente, assim como a desqualificação de sujeitos históricos como João Goulart. Nesse sentido, ela se posiciona enfaticamente, afirmando que os militares, apoiados por grupos conservadores, foram os grandes responsáveis pela interrupção da democracia, inaugurando um período de autoritarismo no Brasil.

6. Metodologia utilizada

A metodologia utilizada no artigo é a de revisão e análise historiográficas. A autora fez a investigações dela com base em fontes primárias, elaborando um estudo crítico sobre as diferentes interpretações e correntes de pensamento que se formaram ao longo das últimas décadas sobre o governo de João Goulart e o golpe de 1964. Para isso, Lucilia Delgado organizou e examinou as obras de outros historiadores, sociólogos e cientistas políticos, classificando suas abordagens em visões estruturalistas (focadas em causas de longa duração), preventivas (baseadas na ideia de uma “contrarrevolução”), conspiratórias (enfatizam a articulação de grupos) e conjunturais (destacam os aspectos políticos imediatos).

7. Tipo de pesquisa realizada

O tipo de pesquisa realizada no artigo foi uma pesquisa bibliográfica com ênfase na revisão historiográfica. Em vez de coletar novos dados, a autora se dedicou a analisar e sintetizar as interpretações e os debates já existentes na literatura acadêmica sobre o governo de João Goulart e o golpe de 1964. O objetivo foi mapear e classificar as diferentes correntes de pensamento, mostrando como a historiografia sobre o tema evoluiu ao longo das últimas décadas, sobretudo na questão da memória e do esquecimento na produção historiográfica.

8. Apreciação crítica sobre o texto

A análise do texto de Lucilia de Almeida Neves Delgado oferece uma crítica relevante e profunda sobre o modo de como o governo Jango e o golpe de 1964 são abordados pela historiografia. Ao enfatizar a interconexão entre memória e esquecimento, o texto revela como o silenciamento intencional da figura de João Goulart foi um mecanismo para deslegitimar sua política e justificar o regime militar autoritário. Dessa maneira, a autora expõe a complexidade desse evento histórico ao rejeitar explicações simplistas, sejam elas focadas apenas em causas estruturais ou em conspirações. Nesse sentido, a crítica principal da autora reside na incapacidade da política brasileira de tolerar a divergência, uma falha que, para ela, se manifestou na atuação dos militares e grupos conservadores que, ao tomarem o poder, não apenas encerraram a experiência democrática de 1964, mas também perpetuaram um sistema de opressão e exclusão.

Data: 15/09/2025