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Análise de texto: "Oh! Gegê! vem nos salvar”: propaganda política popular (1945-1953) - João Pedro Rondina Galego da Silva

De Wikiversidade

Aluno (a): João Pedro Rondina Galego da Silva

Ciências Sociais – 2025 – Noturno

INFORMAÇÕES BÁSICAS

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OBRA/TEXTO: “Oh! Gegê! vem nos salvar”: propaganda política popular (1945-1953).

AUTOR (A): Jefferson José Queler.

EDIÇÃO: Revista Tempo, Vol. 21 n. 38.

ANO DE PUBLICAÇÃO: 2015.

ANÁLISE DO TEXTO

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Identificação do autor(a)

Possui graduação em História pela Universidade de São Paulo (2001), graduação em Licenciatura em História pela Universidade de São Paulo (2004), mestrado em História pela Universidade Estadual de Campinas (2004) e doutorado em História pela Universidade Estadual de Campinas (2008). Atualmente é professor associado da Universidade Federal de Ouro Preto. Tem experiência na área de História, atuando principalmente nos seguintes temas: política, imprensa, História do Brasil República e História Contemporânea.


Temáticas analisadas ou problematizações destacadas pelo texto do autor

A pesquisa discute temas como a propaganda política como uma prática popular espontânea, demonstrando que trabalhadores e setores populares produziram e disseminaram sua própria propaganda em favor de Getúlio Vargas de forma autônoma e criativa; o movimento popular do queremismo, que reivindicava a permanência ou a volta de Getúlio Vargas ao poder, no qual os participantes se tornaram agentes ativos na produção de versos, músicas, panfletos e narrativas orais; o uso da literatura de cordel, canções, paródias de orações e anedotas para veicular mensagens políticas, o que permitia a politização de pessoas analfabetas; o uso do imaginário religioso para perpetuar sua imagem como o “pai dos pobres”; o populismo e, por fim, a criação de uma esfera pública que debatia política fora dos canais oficiais – e que ocorria até mesmo depois da eleição de Getúlio Vargas.


Momento histórico que foi produzido o texto

Queler escreve em um momento em que, no Brasil, o segundo mandato de Dilma Rousseff era questionado em razão de uma crise econômica – cujas raízes remetem à crise de hipotecas de 2008 nos EUA e que foi marcada por recessão, descontrole da inflação, desemprego e políticas de austeridade fiscal – e de um grande crescimento de protestos anticorrupção e antipetismo, impulsionados pela ascensão da extrema direita. Paralelamente, teve início o processo de impeachment contra seu governo. Além disso, no âmbito do debate público, ganhava força uma discussão sobre o legado de Getúlio Vargas, visto que o governo do PT era considerado por alguns como uma continuação de seu projeto nacional-desenvolvimentista. Por fim, Donald Trump iniciava sua campanha presidencial nos EUA com um discurso populista de direita.


Temporalidades, sujeitos abordados e relação passado-presente

O autor examina o período de 1945 a 1953, que abrange desde o fim do Estado Novo até o segundo governo Vargas. Além disso, ele conecta esse período histórico a outras épocas e locais, evidenciando que o uso da poesia e da oralidade como meio de expressão política é uma prática antiga e presente em diversas regiões do mundo. Ademais, ele utiliza o tempo presente da escrita para reinterpretar o passado por meio de uma perspectiva historiográfica contemporânea.

Os sujeitos tratados são, sobretudo, os trabalhadores das áreas urbana e rural que apoiavam Vargas. Eles se apresentam não como uma massa manipulada, mas como indivíduos engajados e criativos, que manifestavam seus próprios interesses políticos ao retratar Vargas como um defensor dos pobres e idealizador das leis trabalhistas. Além de Getúlio Vargas, o texto faz referência a outros personagens, como os líderes do movimento queremista, setores religiosos que utilizavam orações e símbolos cristãos para manifestar apoio político e membros de partidos políticos.


Perspectiva de História expressa pelo texto

Jefferson José Queler utiliza de uma abordagem historiográfica que integra a História Social e a História Cultural, proporcionando uma revisão significativa da História Política convencional. Seu foco principal está na agência histórica das classes populares, em particular dos trabalhadores que, de 1945 a 1953, produziram e espalharam ativamente uma propaganda política espontânea em apoio a Getúlio Vargas. Esta perspectiva realiza uma clara inversão analítica: muda o foco da investigação do Estado e das elites para as práticas culturais e políticas dos grupos subalternos, evidenciando que estes não foram apenas receptores passivos de mensagens propagandísticas, mas sujeitos criativos que reconfiguraram discursos e produziram seus próprios conteúdos, ou seja, uma história vista debaixo.


Metodologia utilizada pelo autor(a)

Metodologicamente, o autor baseia sua análise em fontes não tradicionais, como literatura de cordel, panfletos em verso, músicas populares e orações, que possibilitam o acesso às formas de expressão política de grupos populares com acesso restrito à escrita formal, permitindo, assim, uma análise histórica e comparativa dessas fontes.


Tipo de pesquisa realizada

A pesquisa realizada por Queler é de natureza qualitativa, histórica, analítica, bibliográfica e documental. Ele realizou uma pesquisa documental aprofundada no arquivo pessoal de Getúlio Vargas, onde identificou e examinou um conjunto inexplorado de panfletos, versos e folhetos de cordel criados de forma espontânea por apoiadores comuns entre 1945 e 1953. A análise crítica e contextualizada desses documentos foi o procedimento central, considerando-os não apenas como reflexos de uma época, mas como resultados de uma cultura política popular dinâmica, autônoma e criativa.


Apreciação crítica sobre o texto

Conclui-se, então, que uma das principais contribuições do artigo está na desconstrução da ideia de populismo. O autor defende que a conexão entre Vargas e suas bases não pode ser reduzida a uma dinâmica simplista em que um líder carismático manipula as massas. Em vez disso, mostra que o apoio a Vargas se baseava em interesses materiais e simbólicos específicos: a defesa dos direitos trabalhistas, o controle da inflação, a proteção contra abusos por parte dos empregadores e a expectativa de maior dignidade social.

Além disso, o artigo mostra como o queremismo – originalmente uma expressão criada para deslegitimar os apoiadores de Vargas – foi ressignificado pelos próprios agentes históricos como uma identidade política positiva. O autor demonstra a presença de uma autêntica esfera pública popular que operava em paralelo aos canais oficiais de comunicação e propagava uma imagem positiva de Getúlio Vargas.

Sendo assim, a principal contribuição de Queler está em ter mudado a perspectiva convencional sobre a propaganda política, ao transformar os trabalhadores de objetos em sujeitos/agentes da história, além de ter mostrado como a cultura popular pode ser um espaço autêntico para ação e reflexão política – inclusive para aqueles que não têm acesso à escrita formal e culta.