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Análise do filme "Cafundó"- Júlia Gomes do Nascimento

De Wikiversidade

ROTEIRO PARA ANÁLISE DE FILME

Aluno/a: Júlia Gomes do Nascimento

Ciências Sociais – 2025 – Turma Matutino (   ) Turma Noturno ( x  )

TÍTULO DO FILME

FICHA TÉCNICA

Título do Filme: Cafundó

Ano:    2005               País: Brasil

Gênero: Drama histórico

Duração: 1h 42m

Direção: Clóvis Bueno e Paulo Betti

Roteiro: Clóvis Bueno e Paulo Betti

Fotografia: José Roberto Eliezer

Trilha sonora: Naná Vasconcelos e André Abujamra

Elenco original: Lázaro Ramos, Leona Cavalli, Leandro Firmino, Alexandre Rodrigues, Ernani Moraes, Luís Melo, Valéria Monã e Flávio Bauraqui.

Produção: Paulo Betti, Virginia W. Moraes, R.A. Gennaro

Idioma original: Português – BR

DINÂMICA DA NARRATIVA

• Ideia Inicial – História

O filme conta uma história. Sobre quem?

O filme Cafundó (2005), dirigido por Paulo Betti e Clóvis Bueno, conta a história de João de Camargo, um ex-escravizado que se torna milagreiro e líder religioso em Sorocaba, no final do século XIX e início do século XX. Considerado um dos primeiros "Pretos Velhos" do Brasil, João de Camargo (interpretado por Lázaro Ramos) construiu uma trajetória marcada pela fé e pelo sincretismo religioso. Após a abolição da escravatura, ele se tornou curandeiro e, por volta de 1906, fundou a Capela Bom Jesus do Bonfim das Águas Vermelhas, recebendo o título popular de "Papa Negro de Sorocaba". A obra cinematográfica foi baseada no livro João de Camargo de Sorocaba: O Nascimento de uma Religião, de Carlos de Campos e Adolfo Frioli. Tanto o livro quanto o filme foram inspirados em uma história real.

1. Quais são as personagens principais?

• João de Camargo – por Lázaro Ramos

• Rosário – por Leona Cavalli

• Natalino – por Alexandre Rodrigues

• Levindá – por Valéria Monã

• Nhá Chica – por Chica Lopes

• Cirino – por Leandro Firmino

• Coronel João Justino – por Ernani Moraes

• Monsignor João Soares – por Luís Melo

• Sacerdote – por Renato Consorte

• Exu – Flávio Bauraqui

2. Qual delas mereceu a sua atenção?

O personagem principal João de Camargo foi quem me chamou atenção, e me instigou a saber mais sobre a vida do homem que inspirou o personagem que representa a resistência afro-brasileira no período pós-escravidão.

3. Como termina o filme? O que você achou sobre ele e porquê?

O filme termina com as preces deixadas pelos fiéis na capela fundada por João de Camargo após ele se consolidar como uma personalidade digna de fé por parte da população, e retorna,  em looping, à cena inicial. Há, no entanto, um corte temporal, já que a obra se inicia com uma pregação de rua ocorrida por volta dos anos 2000, protagonizada por Lázaro Ramos com a participação de Leona Cavalli. Acredito que os diretores optaram por deixar o desfecho em aberto, a cargo da interpretação do telespectador, pois não é especificado quem são os novos personagens interpretados pelos atores, dando a impressão de que seriam reencarnações de João de Camargo e Rosário. Particularmente gostei do final, pois ele faz alusão à figura de Exu, símbolo de fim e começo, reafirmando tanto o misticismo de João de Camargo quanto sua ligação com a espiritualidade.

• Tema de Fundo – Tese

1- Quais são os temas tratados no filme?

O filme se passa no Brasil pós-abolicionista e início da Primeira República, e é contado sob a ótica das pessoas negras ex-escravizadas, abordando temáticas como: racismo, intolerância religiosa, objetificação das mulheres negras, sincretismo religioso, e a perpetuação da desigualdade racial mesmo após o fim do sistema escravista.

2- Em que cena compreendeu o tema de fundo do filme?

A cena que considero representar o tema de fundo do filme é a visita de João de Camargo a sua mãe no quilombo Cafundó, que dá nome à obra. Nesse momento, ela lhe conta uma lenda local que mistura elementos das religiões de matriz africana com a fé cristã, evidenciando o sincretismo religioso presente naquela cultura. Logo em seguida, são retratadas as práticas religiosas afro-brasileiras realizadas no quilombo.

3- Qual o problema ou questão que foi tratada mais demoradamente?

           A questão central a ser tratada no filme é a intolerância religiosa e o preconceito estrutural fomentado pela igreja católica, pelo Estado e sociedade, e sofrida pelas pessoas que lutam para praticar suas crenças. Essa temática se torna evidente ao final do filme, quando João de Camargo é levado para a prisão, após os sacerdotes da igreja católica e o juiz desaprovaram suas práticas religiosas afro-brasileiras.

4- Os realizadores descreveram bem os protagonistas?

            Sim, eles conseguiram êxito em desenvolver os personagens, principalmente o João de Camargo. Ao retratar os conflitos por ele vivenciado e sua trajetória de vida até se tornar o líder religioso de Sorocaba, os realizadores conseguem facilmente capturar a atenção do telespectador fazendo-o se solidarizar pelas lutas do personagem e o reconhecer como símbolo da resistência afro-brasileira.

• Ritmo e Montagem – Edição

1- Qual a cena ou sequência que mais chamou sua atenção ou lhe impactou? Porquê?

    As cenas das visões espirituais de João são mais atrativas porque geram expectativa no telespectador a respeito do que virá a seguir, além de terem essa perspectiva mística e lúdica por conta dos vários ritmos e enigmas representando a mensagem dos guias espirituais.

2- Houve algo no filme que te aborreceu? Em que parte do filme? Eram cenas de diálogo ou de ação?

     A cena mais aborrecedora é quando os sacerdotes da igreja católica e os juízes estão tramando contra João de Camargo, e o denominando herege. O diálogo chocante que exemplifica essa cena é a frase dita pelo juiz que diz: “ aos hereges, o inferno, aos bandidos, a lei”. Essa fala choca quem quer que estiver ouvindo, pois esse preconceito está enraizado na sociedade brasileira e nos deparamos com esse pensamento todos os dias, ainda mais quando o conservadorismo se faz tão presente. Falas como essa são capazes de  condenar muitos inocentes a prisão, como foi o caso de João de Camargo e tantos outros.

3- Qual a cena/sequência que não foi bem compreendida por você? Porquê?

     As cenas do quilombo Cafundó não foram muito exploradas, e antes de conhecer o motivo que inspirou a criação do filme, não havia entendido o motivo da obra carregar esse nome, já que no filme o quilombo não possui peso significativo para o desenrolar da trama.

• Mensagem

1- O que é proposto pelo filme é aceitável ou não? Porquê?

          O propósito do filme é aceitável porque promove o resgate da memória, abrindo espaço para debate e reflexão sobre o sincretismo religioso, resistência cultural e a exclusão social dos descendentes africanos no Brasil pós-abolição, dando visibilidade a esses temas. No entanto, exige um olhar crítico para não tomar a representação cinematográfica como história real.

2- A quem se dirige, em sua opinião, o filme?

         O filme se dirige a sociedade brasileira em geral, mas principalmente a  quem busca conhecimento reflexivo e que deseja conhecer história a invisibilizada de personagens negros no Brasil.

• Relação com a disciplina de História do Brasil

1- Qual a contribuição do filme para sua compreensão da disciplina e do período estudado?

O filme Cafundó contribui de forma significativa para a compreensão do período pós-abolição no Brasil, pois evidencia que a assinatura da Lei Áurea em 1888 não significou a integração imediata da população negra na sociedade. Pelo contrário, revela como persistiram a marginalização social, o racismo estrutural, a falta de acesso à terra e ao trabalho digno, além da repressão às expressões culturais e religiosas de matriz africana. A trajetória de João de Camargo mostra como as populações negras buscaram alternativas de sobrevivência material e espiritual, muitas vezes criando espaços próprios de resistência, como quilombos, irmandades e templos religiosos. Assim, o filme permite entender a complexidade do Brasil da Primeira República, onde a exclusão social se mantinha apesar da liberdade legal.

2- Relacione as contribuições desse trabalho para sua formação.

A análise do filme contribuiu para minha formação ao ampliar a percepção sobre o papel da memória e da cultura afro-brasileira na construção da história nacional. Além disso, reforçou a importância de olhar criticamente para as fontes culturais, como o cinema, como meios de representar e reinterpretar o passado. Este exercício possibilitou compreender a história não apenas como fatos cronológicos, mas como experiências vividas e narradas por sujeitos historicamente invisibilizados. Também fortaleceu minha capacidade de relacionar conteúdos da disciplina com manifestações artísticas, estimulando um aprendizado mais reflexivo e interdisciplinar.