Análise do filme "Eternamente Pagu" - Marina Bueno Otoboni (Noturno)
ROTEIRO PARA ANÁLISE DE FILME
[editar | editar código]Aluno/a: Marina Bueno Otoboni
Ciências Sociais – 2025 – Turma Matutino ( ) Turma Noturno ( X )
TÍTULO DO FILME - FICHA TÉCNICA
[editar | editar código]Título do Filme: Eternamente Pagu
Ano: 1987 País: Brasil
Gênero: Drama / Cinebiografia
Duração: 110 min.
Direção: Norma Bengell
Roteiro: Márcia de Almeida, Geraldo Carneiro, Norma Bengell
Fotografia: Antônio Luís Mendes
Trilha sonora: Turíbio Santos e Roberto Gnatalli
Elenco original: Carla Camurati (Pagu), Antônio Fagundes (Oswald de Andrade), Esther Góes (Tarsila do Amaral), Nina de Pádua (Sideria), Otávio Augusto (Geraldo Ferraz), Norma Benguell (Elsie Houston), entre outros.
Produção: Embrafilme, Flai Cinematográfica, Sky Light e Maksoud Plaza
Idioma original: português
DINÂMICA DA NARRATIVA
[editar | editar código]Ideia Inicial – História
[editar | editar código]O filme conta uma história. Sobre quem?
[editar | editar código]O filme narra a trajetória de Patrícia Galvão, mais conhecida como Pagu, que foi uma escritora, jornalista, militante comunista e ícone modernista. Além disso, também ativista política, literária e artística, que escandalizou a sociedade burguesa brasileira na primeira metade do século, sendo uma mulher que não apenas participou de movimentos políticos e artísticos, mas ela própria foi um movimento feminista em sua época, rompendo padrões de comportamento.
A narrativa percorre sua juventude rebelde, marcada por um desejo intenso de liberdade e autenticidade, até sua maturidade como escritora e militante de esquerda. Nesse percurso, destaca-se também sua inserção no movimento modernista, em que convive com Oswald de Andrade e Tarsila do Amaral, e sua paixão tanto pela arte quanto pela política.
Dessa forma, ela se torna musa da poesia modernista, vive um romance com Oswald de Andrade, filia-se ao Partido Comunista e quase é deportada para a Alemanha nazista. Após uma viagem ao exterior, retorna ao Brasil, é presa e, ao sair, rompe com o partido e passa a se dedicar ao teatro de vanguarda, mais uma forma de intervenção artística e política.
Quais são as personagens principais?
[editar | editar código]As personagens principais são Pagu, Oswald de Andrade e Tarsila do Amaral.
Qual delas mereceu a sua atenção?
[editar | editar código]A figura que mais chama a atenção é com certeza a protagonista, Patrícia Galvão ou Pagu (interpretada brilhantemente por Carla Camurati), não só por sua inteligência e determinação, mas por ser retratada em suas contradições: desde sua juventude rebelde, até mãe, militante, prisioneira política, escritora e, acima de tudo, resistente.
Como termina o filme? O que você achou sobre ele e porquê?
[editar | editar código]O filme termina mostrando Pagu já mais envelhecida e adoecida, depois de enfrentar prisões, perseguições políticas, rupturas amorosas e desilusões pessoais. Ela descobre que por causa do cigarro e das prisões sua saúde não estava boa, e é forçada a parar de viajar, que era uma de suas maiores realizações, que acredito que foi trabalhado desde cedo na personagem com seu amor pela liberdade.
Desse modo, ao final ela aparece fragilizada, mas sem nunca ter aberto mão de suas convicções, mantendo até o fim a marca de resistência e ousadia que definiram sua vida.
Sendo assim, achei o final forte e coerente, porque não romantiza a trajetória dela, mostrando o preço alto pago por suas escolhas, mas também ressalta a grandeza de sua luta. É um desfecho que emociona justamente por evidenciar que, mesmo com tantas derrotas pessoais, Pagu se transformou em um ícone atemporal da coragem e da liberdade.
Tema de Fundo – Tese
[editar | editar código]Quais são os temas tratados no filme?
[editar | editar código]Muitos temas importantes são abordados. O primeiro deles é a repressão política e a perseguição aos comunistas no período conturbado da ditadura Vargas, durante o qual Pagu enfrenta perseguições políticas devido às suas convicções e ativismo. Porém, sua coragem e determinação diante da repressão do regime são retratadas transformando ela em uma figura ainda mais inspiradora, o que leva ao segundo tema retratado que é a condição da mulher, em especial, sua ousadia em desafiar papéis sociais pré-estabelecidos. Além disso, o terceiro deles é a relação entre arte, política e resistência, com destaque para o modernismo e seus embates ideológicos. E por fim, também acredito que o filme aborda o custo das escolhas ideológicas, que se traduz em certos sacrifícios pessoais.
Em que cena compreendeu o tema de fundo do filme?
[editar | editar código]Uma cena emblemática é a prisão de Pagu, onde sofre agressões físicas e psicológicas, esse impacto da repressão acaba revelando o preço da resistência em uma sociedade autoritária. Além de que me fez refletir muito sobre como ela sendo uma mãe, a dor de ficar longe de seus filhos, tanto pela luta, nas viagens que ela realizava para participar de manifestações, mas principalmente quando ela foi presa. Assim, essa contradição entre o engajamento político e o sofrimento íntimo revela a profundidade do sacrifício que sua militância exigiu.
Qual o problema ou questão que foi tratada mais demoradamente?
[editar | editar código]O problema tratado mais demoradamente no filme é a repressão política e social vivida por Pagu ao longo de sua trajetória. A narrativa dedica bastante tempo a mostrar como ela enfrentou perseguições, prisões e torturas em razão de sua militância, evidenciando não apenas o autoritarismo do Estado, mas também as dificuldades de uma mulher em se afirmar em um espaço predominantemente masculino como o Partido Comunista. Essa questão é explorada em diferentes momentos da obra, revelando como a resistência de Pagu teve consequências profundas em sua vida pessoal, profissional e familiar.
Os realizadores descreveram bem os protagonistas?
[editar | editar código]Sim, os realizadores descreveram bem os protagonistas, especialmente Pagu. Norma Bengell conseguiu mostrar a complexidade da personagem, não apenas como musa modernista ou militante política, mas como uma mulher cheia de contradições, paixões e sofrimentos. O filme retrata suas escolhas, seus amores, seu engajamento político e também suas dores pessoais. Em relação a figuras como Oswald de Andrade e outros intelectuais da época, embora apareçam de forma menos aprofundada, suas presenças ajudam a contextualizar o cenário cultural e político no qual Pagu estava inserida, reforçando ainda mais a força e originalidade de sua trajetória.
Ritmo e Montagem – Edição
[editar | editar código]Qual a cena ou sequência que mais chamou sua atenção ou lhe impactou? Porquê?
[editar | editar código]A sequência que mais me impactou foi a da prisão de Pagu, quando ela sofre agressões físicas e psicológicas. Esse momento sintetiza não apenas a violência de um regime autoritário, mas sobretudo a força de sua resistência. E nisso, o que mais me marcou foi perceber que, apesar de tudo que ela enfrentou, como a morte de um companheiro na sua frente, a censura de seus poemas, a batida na testa e as inúmeras prisões, nada fez com que ela desistisse. Ela mesma fala no filme: “às vezes eu tenho dor de viver, mas milito todos os dias”, e isso mostra como a militância estava entranhada em sua própria existência. Ela não desiste, mesmo encarcerada, ela se recusa a apertar a mão de um interventor, sabendo que isso aumentaria seu tempo de prisão. Essa postura firme revela que sua luta ia além da política, era uma questão de identidade, de não abrir mão de si mesma diante da opressão.
Houve algo no filme que te aborreceu? Em que parte do filme? Eram cenas de diálogo ou de ação?
[editar | editar código]O que me aborreceu foi a forma como algumas passagens políticas foram narradas de maneira rápida, quase apressada, em contraste com outras mais densas. Em especial, os diálogos em torno da relação de Pagu com o Partido Comunista poderiam ter sido mais desenvolvidos, pois eram momentos de conflito ideológico fundamentais para sua trajetória, já que em algumas falas, o impacto de sua ruptura com o partido não foi tão explorado quanto merecia.
Qual a cena/sequência que não foi bem compreendida por você? Porquê?
[editar | editar código]A parte em que Pagu, já em Paris, atua como militante clandestina no Partido Comunista francês não ficou tão clara. Embora seja importante para mostrar sua dimensão internacional, a cena acabou tornando a transição um pouco confusa, sem aprofundar no impacto dessas experiências para sua militância posterior. Ficou a sensação de um salto narrativo, que dificultou compreender melhor como essas vivências no exterior influenciaram sua volta ao Brasil e seu afastamento definitivo do partido, apesar de que entendo que por ser um filme não tem como abranger tudo mais aprofundado, mas sinto que isso deveria ter tido mais destaque.
Mensagem
[editar | editar código]O que é proposto pelo filme é aceitável ou não? Porquê?
[editar | editar código]O filme propõe de maneira clara a valorização da luta e da resistência frente à opressão, mostrando que essas batalhas não podem ser esquecidas ou desvalorizadas, mesmo diante de sacrifícios pessoais profundos. Para mim, ele foi particularmente impactante tanto por envolver arte, que é uma área de estudo que sempre tive muito interesse, e sobre como movimentos artísticos carregam os pensamentos de seu tempo. E também por Pagu ser mulher, mãe e filha, evidenciando como suas escolhas políticas implicaram renúncias dolorosas no âmbito familiar, até com seus pais preocupados durante o filme.
Apesar de que, na minha visão, o significado da obra não se restringe ao gênero feminino, também destaca o impacto da repressão sobre a família de forma mais ampla, ilustrando o custo humano da intolerância política. Essa reflexão que tive pelo filme, me remete, inclusive, a reflexão que tive com outro filme mais recente “Ainda Estou Aqui”, que me tocou muito porque é uma família que perdeu o pai, da noite para o dia, sem explicações, reforçando a gravidade das injustiças impostas por regimes opressores e a importância de manter viva a memória da luta.
A quem se dirige, em sua opinião, o filme?
[editar | editar código]Na minha opinião, o filme é destinado a estudantes, pesquisadores e pessoas interessadas em história, política e movimentos sociais, bem como ao público em geral que valoriza a dimensão humana das lutas políticas. A obra oferece reflexões sobre o impacto da repressão não apenas sobre indivíduos, mas também sobre suas famílias, demonstrando que a resistência implica custos profundos. Tal abordagem torna o filme relevante para a compreensão do contexto histórico brasileiro, ao mesmo tempo em que promove uma reflexão sobre a ética, a coragem e a resiliência diante de regimes autoritários.
Relação com a disciplina de História do Brasil
[editar | editar código]Qual a contribuição do filme para sua compreensão da disciplina e do período estudado?
[editar | editar código]Relacione as contribuições desse trabalho para sua formação.
[editar | editar código]O filme Eternamente Pagu contribuiu significativamente para a compreensão da disciplina e do período estudado ao retratar a vida de Patrícia Galvão em um contexto histórico marcado pelo modernismo, pela ascensão do autoritarismo e pela repressão política às décadas de 1930 e 1940. A obra evidencia a atuação de Pagu como escritora, militante política e mulher que desafiou os padrões sociais e enfrentou censuras, como a suspensão da circulação do jornal de Oswald de Andrade e a censura de 60 de seus poemas, que exemplificam a repressão à expressão intelectual e artística da época. Essa censura enfrentada pelos jornais, e o jornalismo junto à história, foram temas muito tratados nas aulas, mas principalmente na ministrada pela mestranda Camila Prado Mina, o que relaciona totalmente o conteúdo do filme com o que foi aprendido em sala de aula.
Além disso, a partir da perspectiva da memória coletiva, conforme discutido em aula com base em Halbwachs, o filme demonstra como memórias “subterrâneas” podem emergir e reivindicar espaço na memória oficial. Nesse sentido, Pagu, ao contestar as hierarquias internas do Partido Comunista (um partido masculino) e resistir à opressão estatal, simboliza essas memórias reprimidas que permanecem ocultas até serem resgatadas, como ocorre na produção cinematográfica. O filme, portanto, funciona como um instrumento de preservação e resgate histórico, permitindo compreender não apenas a trajetória individual de Pagu, mas também os mecanismos de censura, repressão e resistência no Brasil.
Para minha formação, Eternamente Pagu reforça a importância de analisar a história por meio de múltiplas fontes e perspectivas, mostrando que a memória coletiva não é neutra e que o silêncio sobre o passado pode preservar lembranças até que haja espaço político e social para sua expressão. Além disso, o filme evidencia o preço humano da militância, a tensão entre vida pessoal e engajamento político e a importância da participação feminina e familiar na construção da memória social. Dessa forma, a obra aproxima o estudo histórico da realidade vivida pelos indivíduos e da forma como essa memória se transforma em conhecimento.