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Análise do texto: "O Governo João Goulart e o golpe de 1964: memória, história e historiografia" - Kevin Regis Lopes De Sousa

De Wikiversidade

Curso de Ciências Sociais

Disciplina: História do Brasil II

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Responsável: Prof. Dr. Paulo Eduardo Teixeira

ALUNA(O): Kevin Regis/Noturno

OBRA/TEXTO: O Governo João Goulart e o golpe de 1964: memória, história e historiografia

AUTOR: Lucília de Almeida Neves Delgado


EDIÇÃO:1946-1964: A experiência democrática no Brasil

ANO DE PUBLICAÇAO: 2010

1. Identificação do Autor(a), ou seja, qual a formação do autor, sua trajetória acadêmica e atuação política:

A autora do artigo é Lucília de Almeida Neves Delgado, historiadora com ampla trajetória acadêmica no Brasil. Ela é professora titular do Departamento de História da PUC Minas, professora do Departamento de História da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e pesquisadora colaboradora sênior da Universidade de Brasília (UnB). Sua formação e produção intelectual estão voltadas principalmente para a História do Brasil Republicano, com destaque para temas como memória, história oral, trabalhismo, o golpe de 1964 e a ditadura militar. Ao longo de sua carreira, publicou obras de referência sobre o Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), sobre a trajetória política de João Goulart e sobre os processos que levaram à ruptura democrática de 1964. Sua atuação política não ocorre no campo partidário, mas sim no âmbito acadêmico e historiográfico, marcada pelo esforço de problematizar as disputas de memória, os silencia mentos e o esquecimento em torno de João Goulart e da experiência democrática interrompida pelo golpe militar. Nesse sentido, Lucília se consolidou como uma das principais vozes críticas no debate sobre a memória e a historiografia desse período da história brasileira.

2. Temáticas analisadas ou problematizações destacadas pelo texto do autor:

O artigo analisa a trajetória de João Goulart, a crise institucional do início da década de 1960 e o golpe de 1964, destacando a relação entre memória, história e esquecimento. Lucília mostra como Jango foi desqualificado e silenciado pela memória coletiva e pela historiografia, em relação as figuras como Vargas e Juscelino. A autora faz uma análise das principais interpretações historiográficas sobre o golpe sejam eles estruturalistas, preventivas, conspiratórias e conjunturais, e aponta para um novo ciclo de estudos, marcado pelo acesso a novas fontes e pela revisão crítica do período. O texto problematiza, portanto, não só o golpe, mas também a forma como ele foi lembrado, esquecido e reinterpretado ao longo do tempo.


3. Momento histórico que foi produzido o texto (o lugar do discurso) do autor:

O artigo de Lucília de Almeida Neves Delgado foi produzido no início dos anos 2000 e aprovado para publicação em julho de 2009. Esse contexto histórico é muito significativo: tratava-se de um momento em que o Brasil já vivia mais de duas décadas de redemocratização, e em que crescia o interesse acadêmico em revisitar a ditadura militar e o golpe de 1964, especialmente por ocasião de efemérides como os 40 anos do golpe (2004) e os 30 anos da morte de João Goulart (2006). Nesse período, novas gerações de historiadores começaram a investigar o tema, surgiram coletâneas e pesquisas baseadas em documentação inédita, e havia também maior abertura para discutir os silêncios e esquecimentos construídos pela ditadura.

Assim, o lugar de discurso da autora é o da historiadora que, no início do século XXI, busca reavaliar criticamente o governo Goulart e o golpe de 1964, problematizando tanto a produção historiográfica anterior quanto as disputas de memória ainda presentes na sociedade brasileira.

4. Temporalidades/Sujeitos Abordados/Relação Passado-Presente:

No artigo, Lucília de Almeida Neves Delgado trabalha diferentes temporalidades como a conjuntura curta do governo João Goulart (1961-1964), marcada pela crise política, a mobilização social e a polarização da Guerra Fria; a longa duração das contradições estruturais do desenvolvimento brasileiro, como a dependência econômica e as desigualdades sociais; e o tempo presente, em que a memória e a historiografia disputam sentidos sobre esse passado.

Os sujeitos abordados incluem João Goulart como figura central, seus aliados trabalhistas, os movimentos sociais (ligas camponesas, sindicatos, estudantes), os setores conservadores (UDN, parte das Forças Armadas, empresários, Igreja católica conservadora), além de atores internacionais, especialmente os Estados Unidos. Também são sujeitos os historiadores e cientistas sociais que, em diferentes momentos, produziram interpretações sobre o período.

A relação passado-presente se dá na reflexão sobre memória e esquecimento: o passado de Goulart foi muitas vezes silenciado ou desqualificado, e só recentemente começou a ser revisitado pela historiografia. Lucília mostra que a produção do conhecimento histórico é marcada pelo tempo em que é feita, e que as disputas do presente influenciam as formas de narrar o passado.


5. Perspectiva de História expressa pelo texto:

A perspectiva de História expressa por Lucília de Almeida Neves Delgado no artigo é crítica e reflexiva, baseada na ideia de que a História não é apenas o estudo dos fatos do passado, mas também o resultado das disputas de memória, dos silêncios e dos esquecimentos produzidos ao longo do tempo. Ela dialoga com a noção de história como construção social, destacando que as narrativas históricas são seletivas e influenciadas por interesses políticos, conjunturas e pela posição do próprio historiador. Ao analisar o governo João Goulart e o golpe de 1964, Lucília enfatiza que a historiografia deve considerar tanto as estruturas de longa duração quanto os conflitos conjunturais, articulando o econômico, o político e o social. Sua abordagem evidencia, portanto, uma perspectiva de História que reconhece a pluralidade de interpretações, a importância das temporalidades múltiplas e a necessidade de problematizar as formas pelas quais o passado é lembrado ou esquecido no presente.

6. Metodologia utilizada pelo autor(a):

A metodologia utilizada por Lucília de Almeida Neves Delgado no artigo combina análise historiográfica e reflexão teórica sobre memória e esquecimento. Ela não faz pesquisa documental inédita, mas realiza um balanço crítico da produção acadêmica sobre João Goulart e o golpe de 1964, organizando as interpretações em diferentes correntes (estruturalistas, preventivas, conspiratórias, conjunturais e recentes). Para isso, a autora dialoga com obras de historiadores, sociólogos, economistas e cientistas políticos, articulando seus argumentos às discussões sobre temporalidade, seletividade da memória e disputas de narrativa. Trata-se, portanto, de uma metodologia de revisão bibliográfica e análise crítica, voltada para compreender como a historiografia construiu — ou silenciou — a trajetória de Goulart e os significados do golpe de 1964.

7. Tipo de pesquisa realizada – bibliográfica, documental, estatística, descritiva, etc... (Ver notas explicativas):

A pesquisa realizada por Lucília de Almeida Neves Delgado no artigo em sua origem é bibliográfica e historiográfica. Ela analisa e compara diferentes interpretações produzidas por historiadores, sociólogos, cientistas políticos e economistas sobre o governo João Goulart e o golpe de 1964. Não se trata de uma pesquisa documental inédita, nem estatística ou descritiva, mas sim de uma observação crítica da literatura existente, em que a autora organiza correntes interpretativas, discute as temporalidades dos contextos históricos mobilizadas e problematiza a relação entre memória, história e esquecimento.


8. Apreciação crítica sobre o texto

O texto de Lucília de Almeida Neves Delgado apresenta grande relevância porque não se limita a repetir interpretações tradicionais sobre o golpe de 1964. A autora evidencia como João Goulart foi, ao longo do tempo, relegado ao esquecimento, tanto pela memória coletiva quanto pela própria historiografia, em contraste com outros presidentes mais valorizados. Um dos pontos centrais é a diversidade de perspectivas teóricas reunidas: desde análises estruturalistas até leituras conspiratórias e conjunturais, o que enriquece o debate. Além disso, ao relacionar memória, história e esquecimento, a autora chama a atenção para as disputas narrativas em torno de Jango e mostra como as visões sobre ele refletem também interesses e conflitos do presente. O tema central do artigo está justamente em valorizar a figura de Goulart como sujeito histórico e em destacar a necessidade de ampliar os estudos sobre seu governo e sobre o golpe de 1964.

Data: 13/09/2025