Análise do texto "Os anos trinta nas memórias e no arquivo de Paulo Duarte: uma cultura política de oposição a Getúlio Vargas" por Estevão Josué Gimenes Pinto
Curso de Ciências Sociais
Disciplina: História do Brasil II
[editar | editar código]Responsável: Prof. Dr. Paulo Eduardo Teixeira
________ROTEIRO PARA ANÁLISE DE TEXTO______
[editar | editar código]ALUNA(O): Estevão Josué Gimenes Pinto
OBRA/TEXTO: Os anos trinta nas memórias e no arquivo de Paulo Duarte: uma cultura política de oposição a Getúlio Vargas
AUTOR(A): Carolina Soares Sousa
EDIÇÃO: Estudos Históricos (Rio de Janeiro), vol 33, nº 71, p.644-666
ANO DE PUBLICAÇÃO: 2020
ANÁLISE DO TEXTO
[editar | editar código]- Identificação do Autor(a), ou seja, qual a formação do autor, sua trajetória acadêmica e atuação política:
Possui graduação em História pela Universidade Federal de Goiás (2009), mestrado em História Social pela Universidade de Brasília (2012) e doutorado em História (Linha de Pesquisa História Cultural, Memórias e Identidades) também pela Universidade de Brasília (2016). Realizou Estágio de Pós-Doutorado na Universidade Estadual de Campinas, na Linha de Pesquisa Política, Memória e Cidade (julho de 2017- outubro de 2018). Foi pesquisadora no Programa de História Oral (PHO) da FGV CPDOC (2021). Tem experiência nas áreas de História Política, História do Brasil República, Historiografia Brasileira e História Contemporânea, atuando principalmente nos seguintes temas: projetos políticos na década de 1930, Estado Novo, exilados políticos, memória e arquivo. Atualmente desenvolve pesquisa de pós-doutorado no Instituto de História do Tempo Presente (IHTP - CNRS), sobre a atuação das Forças Armadas Brasileiras (FAB) na crise migratória da Venezuela.
- Temáticas analisadas ou problematizações destacadas pelo texto do autor:
O texto apresenta uma análise sobre a revolução de 1930 e a era Vargas pela perspectiva dos derrotados, mais especificamente dos “armandistas” de São Paulo. Ele destaca a necessidade de estudar o projeto político derrotado para entender melhor a complexidade do período, extrapolando a narrativa oficial construída pelos vitoriosos do Estado Novo.
- Momento histórico que foi produzido o texto (o lugar do discurso) do autor:
O artigo foi publicado em 2020, durante o governo Bolsonaro, enquanto o Brasil enfrentava a crise sanitária causada pela pandemia de Covid-19. Porém este artigo teve como base a tese de doutorado defendida em 2016 por Carolina Soares Souza, portanto o texto foi produzido durante o governo Dilma 2, e publicado pouco antes do golpe parlamentar que derrubou a presidenta.
- Temporalidades/Sujeitos Abordados/Relação Passado-Presente:
A autora se refere a década de 1930, período no qual Getúlio Vargas governou o Brasil. Armando de Salles Oliveira e Paulo Alfeu Junqueira Duarte são os principais sujeitos abordados. Ela analisa o “arquivo político” de Paulo Duarte e os 9 volumes de Memórias que este publicou na década de 1970 mas que começou a escrever nos anos 60, motivado pela nova onde ditatorial do golpe de 1964.
- Perspectiva de História expressa pelo texto:
O texto faz uma leitura das experiências políticas a partir de uma perspectiva dos vencidos, analisando a formação de uma política de oposição, com base nas memórias e arquivos construídos por essa oposição, personificada na figura de Paulo Duarte.
- Metodologia utilizada pelo autor(a):
Carolina Soares Sousa utiliza o grupo de Armando de Salles Oliveira como estudo de caso para analisar o projeto político vencido.
- Tipo de pesquisa realizada – bibliográfica, documental, estatística, descritiva, etc... (ver notas explicativas):
Análise documental do arquivo político e das memórias publicadas por Paulo Duarte.
- Apreciação crítica sobre o texto:
Com o propósito de dar luz à perspectiva do projeto político derrotado no período do Estado Novo brasileiro, a autora inicia o texto explicando a origem das fontes utilizadas e o contexto político vigente durante a produção das fontes. A autora explicita a importância de identificar as ações políticas do memorialista Paulo Duarte para melhor compreender a dimensão do esforço que ele empreendeu para construir seu arquivo político. É destacado o envolvimento de Paulo Duarte com o grupo político de Armando de Salles Oliveira, que foi interventor de São Paulo indicado por Getúlio, mas que, posteriormente, formou oposição contra o regime varguista.
O arquivo político de Paulo Duarte é central para suas Memórias. Ele é composto por documentos pessoais, de seu grupo político, documentos públicos e registros políticos. Este arquivo foi uma ferramenta importante para construir uma memória específica, politicamente posicionada, que contestava a narrativa oficial dos vencedores, no caso, os getulistas. Nas suas Memórias, Duarte intercala sua narrativa com documentos de seu arquivo, principalmente correspondências, com o objetivo tanto de justificar sua trajetória como de assegurar um lugar na história para seu grupo, cujo projeto foi interrompido com o golpe de 1937.
Duarte sabia que a preservação de documentos era crucial para contestar o poder estabelecido. Portanto o arquivo era um ato de resistência, uma arma política. Ele utiliza correspondências e diários de seu grupo para contrapor os “documentos oficiais” do Estado, isso o permite construir uma contra narrativa com pretensões de autenticidade e “cientificidade”. Incorporando ao seu arquivo documentos de outros membros do seu grupo, ele transforma sua memória individual em uma memória coletiva.
Paulo Duarte utiliza a memória como autodefesa e legitimação justificando suas ações e as de seu grupo perante o presente e o futuro. A venda de seu arquivo para Unicamp é uma etapa importante desse seu projeto pois institucionaliza seu “legado” para garantir que sua interpretação da história intervenha no que será lembrado. Ele usa o arquivo para fundamentar suas memórias, e suas memórias dão sentido e narrativa ao arquivo.
A pesquisadora deixa claro que seu objetivo não é verificar a veracidade dos relatos de Duarte, o que lhe interessa é como ele usa o discurso da memória para construir uma versão aceitável do passado. Portanto sua analise foca na perspectiva e nos propósitos de Paulo Duarte. As memórias e o arquivo não contam apenas sua história, mas a história do projeto político armandista, seus ideais, suas conquistas e suas frustrações com o golpe de 1937.
O golpe frustrou a campanha presidencial de Armando de Salles Oliveira e a visão de Brasil que seu grupo defendia. Toda a obra de Paulo Duarte pode ser lida como um desdobramento desse trauma político, um compromisso ideológico antivarguista e uma defesa dos ideais constitucionalistas do grupo paulista. Duarte retrata seu grupo como “estadistas” enquanto os apoiadores de Vargas são “covardes”, “desavergonhados” ou “submissos”.
A autora, em suma, apresenta Paulo Duarte como um memorialista, arquivista militante e guardião da memória de seu grupo e seu projeto é um caso emblemático de como a história é construída, disputada e preservada como um ato político. Duarte buscou garantir que a derrota política de seu grupo não se traduzisse em uma derrota na narrativa histórica. Carolina Soares Sousa estimula o leitor a compreender as memórias como uma construção complexa, deliberada e intensamente engajada na luta pela narrativa histórica.
Data: 13/ 10/2025