Análise sobre os métodos de registro e transmissão de atos e reivindicações do Movimento Estudantil na UNESP FFC
Resumo:
A Universidade Estadual Júlio de Mesquita Filho (UNESP FFC, Marilia) sofre um
problema dialético no Movimento Estudantil (ME) em como preservar o histórico de
lutas dentro de um ambiente com personagens que, ano após ano, são substituídos
por estudantes que não tem experiência na luta por um espaço que é constantemente
atacado pela sociedade e pelas gestões governamentais.
A partir disso, serão analisados documentos históricos escritos por alunos da época,
considerando como foram publicados, divulgados e armazenados.
Por fim, iremos dialogar como a universidade é influenciada pelo registro do passado
no ano de 2025.
Objetivo:
Dessa forma, ao considerarmos que no período atual que foi realizado este trabalho o
Movimento Estudantil encontra-se desmobilizado diante do desconhecimento dos
novos estudantes, o objetivo deste trabalho é avaliar os documentos históricos
redigidos pelos discentes membros do ME nos períodos de 1990, 1996, 2002, 2004,
2005, 2007, 2009 e 2013 considerando suas formas de publicação, divulgação e
armazenamento, além de discorrer como a displicência com estes registros resultam
na desinformação e incompreensão dos novos estudantes, afetando diretamente na
luta do Movimento Estudantil.
Método do trabalho:
Pesquisar e organizar, dentro dos arquivos disponibilizados dentro do Centro
Acadêmico de Ciências Sociais (CACS), os documentos criados por estudantes da
Universidade Estadual Júlio de Mesquita Filho, campus 1 da cidade de Marilia. Em dez
contextos diferentes, analisar sua importância no período de 2025 dentro do campus,
suas problemáticas e a forma como está sendo utilizada.
Introdução
O Movimento Estudantil (ME) é caracterizado por estudantes da faculdade que,
durante o curso, se engajam ativamente para lutar de maneira organizada pela defesa
e melhoria da sua instituição. Sendo assim, essa organização é estruturada de forma
cíclica e renovada a cada período letivo.
Como objeto de estudo foram utilizados documentos como boletim, panfletos, jornais,
revistas, carta aberta e blog dos anos de 1990, 1996, 2002, 2004, 2005, 2007, 2009,
2010 e 2013, além de relatos de 2023 que divulgam e informam sobre a luta do ME em
suas respectivas épocas junto com as táticas escolhidas e resultados obtidos. Tais
documentos foram redescobertos após uma longa apuração na sala do Centro
Acadêmico de Ciências Sociais (CACS), uma vez que estavam desorganizados e
inacessíveis ao público estudantil, exceto o blog referente a 2013 que se encontrava
para acesso público via internet, porém o link para acessá-lo era de conhecimento
para poucos veteranos que acompanharam os acontecimentos do momento.
Considerando a situação atual que se encontram estes documentos, podemos
perceber a negligência que os antecessores do Movimento Estudantil tiveram em
preservar tais memórias coletivas que caracterizavam o ME do proclamado “Campus
Vermelho”, devido a identidade organizada e combativa dos discentes. No momento
presente, o ME enfrenta grande desordem e defasagem, com assembleias esvaziadas,
representantes desinteressados e pouca adesão do público discente nas pautas
críticas ao campus. Isso ocorre, pois, a memória da luta estudantil não foi repassada, a
importância do caráter combativo foi esquecida e os ingressantes, ao não conhecerem
as lutas do passado, não tem orientação suficiente para enfrentar as novas
adversidades que se assemelham a elas.
Desenvolvimento
Ao longo da história do campus incontáveis alunos participaram do ME enfrentando
inimigos políticos poderosos e suas determinações que tinham como objetivo
prejudicar a faculdade e a permanência dos universitários. Tal enfrentamento só foi
possível devido a organização dos estudantes e suas técnicas de luta coletiva como
greves, ocupações, paralizações, entre outras. Entretanto aprender a se organizar e a
utilizar dessas técnicas de maneira apropriada é trabalhoso e envolve prática, de modo
que, é inviável para um estudante descobrir sozinho a maneira correta de combater a
opressão que o Estado sujeita os estudantes das faculdades públicas brasileiras.
A solução para esse problema sempre foi a transmissão da memória viva difundidas
pelos veteranos aos calouros da faculdade, que, ao compartilharem sobre suas
experiências coletivas que tiveram ao participar dos eventos de aspecto combativo,
abre espaço aos ingressantes para aprenderem não só sobre o passado do ambiente
que agora participa, mas, também, a importância de lutar por ele e os meios para fazê-
lo. Infelizmente, a pandemia que ocorreu entre 2020 e 2023 levou a quebra dessa
transmissão e a desocupação dos espaços coletivos da faculdade resultou no
apagamento dessa memória. Apoiado nisso, investigamos os arquivos presentes na
sala do CACS com o propósito de analisar se seria possível reconstruir parte da
memória coletiva do campus com eles.
Desde o começo deste processo foram enfrentadas diversas dificuldades em acessar
estes arquivos, devido a sala do CACS permanecer trancada e a chave é de acesso a
um número muito restrito de estudantes. Ao conseguirmos a chave com um estudante
veterano o maior desafio foi localizar documentos relevantes para o nosso trabalho,
pois, além das condições precárias de armazenamento, os arquivos estavam
desorganizados e sem qualquer forma de classificação que facilitasse esta nossa
busca.
Em seguida, conseguimos, com esforço, encontrar documentos que se encaixavam no
perfil do nosso trabalho. Estes documentos precisavam estar relacionados com a luta
do Movimento Estudantil da cidade e esclarecer questões de quando ocorreram, como
ocorreram, por que foram necessárias e quais foram seus desfechos. A partir disso,
foram encontrados treze documentos históricos como: boletim, panfletos, jornais,
revistas e carta aberta referentes aos anos de 1990 (anexos 1 e 2), 1996 (anexos 3 e 4; 5
e 6; 7; e 8), 2002 (anexo 9), 2004 (anexo 10), 2005 (anexos 11 e 12), 2007 (anexos 13 e
14), 2009 (anexos 15 e 16; e 17) e 2010 (anexos 18 e 19; e 20). Além disso, tivemos
acesso ao link de um blog com documentações do ano de 2013.
Resultados
Após a análise nota-se dois tipos distintos de documentos, os com objetivo de divulgar
e os com objetivo de registrar, sendo que, o primeiro focou em explicar sobre o
contexto atual da época e anunciar as mobilizações que ainda estavam por vir,
enquanto o segundo, de maneira mais objetiva, apenas atestava detalhes das
atividades que ocorreram durante determinada manifestação.
Referente ao primeiro tipo, foram encontradas revista/jornais (anexos 1 e 2; 5 e 6; 15 e
16; e 18 e 19) que, dentre os demais documentos encontrados, explicavam melhor as
pautas da época e o posicionamento político dos estudantes, também foram
encontrados panfletos (anexos 8; e 20) que, de maneira mais superficial, explicavam o
contexto geral da luta focando em divulgar as atividades propostas, e, por fim, cartas
abertas (anexos 9; 10; 13 e 14; e 17) que focam em anunciar o posicionamento político
daqueles que a escreveram. Ademais, com relação ao segundo tipo foram
encontrados boletins (anexos 7; e 11 e 12) que, apesar de possuir caráter de registro,
também possuem de forma implícita um caráter de divulgação, e um requerimento
(anexos 3 e 4) que expressa juridicamente a opinião de figuras políticas. Em especial,
percebemos que o blog (link 1) apesar de não ser um documento físico demonstra
características do segundo tipo.
Conclusão:
Após a pesquisa e análise do objeto de estudo percebe-se como a memória do campus
é alimentada principalmente de forma oral, os textos apurados não têm como objetivo
a divulgação das pautas que eram atuais para época, e que após a conclusão esses
eventos não são registrados para gerações futuras, isso fica evidente, não só pelo
conteúdo dos textos, mas também com o descaso que elas foram armazenadas. Dos
oito períodos analisados apenas os documentos de 2025 expões a conclusão do ato, e
o motivo do registro foi apenas para denunciar as táticas sujas que a diretoria do
campus utilizou no processo, além disso o local que armazenaram esses papeis
mostra como o registro documental histórico do movimento estudantil nunca foi
pensado para transmitir e nutrir a Memória do campus.
Devido a tais condições entende-se como a pandemia de 2025 afetou o processo de
formação e luta do ME, e evidencia as problemáticas de manter-se apenas a memória
viva e não se preocupar com o registro documental para transmissão do
conhecimento.
Links: https://greve-ocupacaounespmarilia2013.blogspot.com/