Botero, Fernado

Fernando Botero Angulo (1932–2023) foi um dos artistas latino-americanos de maior prestígio e reconhecimento global. Consagrado mundialmente pelo seu estilo figurativo, ele é frequentemente chamado de "pintor e escultor de gordinhos". Sua identidade estética, conhecida como "Boterismo", é inconfundível, marcada por figuras roliças, volumosas e personagens com contornos avantajados. Para entender a singularidade de sua arte, é crucial examinar tanto o ambiente social e político em que viveu quanto a trajetória de descoberta de seu estilo.
O Turbulento Contexto Social e a Crítica Política
[editar | editar código]Nascido em Medellín, Colômbia, em 19 de abril de 1932, a infância de Botero foi marcada por uma perda precoce—seu pai faleceu de ataque cardíaco quando ele tinha apenas quatro anos—e pela criação pela mãe, uma costureira, e um tio.
O ambiente social e histórico em que Botero desenvolveu sua arte estava repleto de complexidades e violência. Ele viveu o período de turbulências políticas na Colômbia, que incluíram conflitos armados e polarização social, especialmente a partir de episódios como o assassinato de Gaitán, que abriram caminho para a era de "La Violencia", o autoritarismo e a repressão.
Botero utilizou sua arte como uma ferramenta de crítica social e denúncia. Embora sua postura fosse humanista e crítica, ele optou por não se filiar a partidos ou ideologias fechadas, concentrando sua crítica visual no abuso de poder, na desigualdade, na hipocrisia social e na violência institucional, temas que ressoavam na Colômbia e no cenário global. Ele denunciou a violência colombiana em séries de pinturas, relembrando conflitos armados da segunda metade do século XX. Um exemplo contundente dessa temática é A morte de Pablo Escobar (1999), que retrata o antigo chefe do tráfico, em grande parte responsável pela brutalidade que vigorava no país sul-americano. Seu objetivo, ao retratar o narcotraficante, era manter a memória das pessoas viva para que esses episódios violentos não se repetissem.
A denúncia de Botero transcendeu as fronteiras colombianas. No início dos anos 2000, ele produziu uma das séries mais fortes de sua carreira sobre o escândalo de Abu Ghraib, dedicada às torturas cometidas por soldados norte-americanos contra prisioneiros na prisão iraquiana. O artista criou uma intensa coleção de 47 pinturas e desenhos sobre o tema, evidenciando o sofrimento da guerra. Botero esperava que sua arte servisse como uma denúncia permanente, manifestando indignação contra a violação dos direitos humanos. Em algumas dessas representações, ele tentou fazer com que os prisioneiros, frequentemente homens idosos com barbas longas, se parecessem com profetas bíblicos, buscando restaurar a dignidade violada pela ignorância.
O Desenvolvimento Artístico e a Busca pelo Volume
[editar | editar código]Botero iniciou sua jornada artística de forma precoce, vendendo seus primeiros desenhos aos 15 anos e começando a trabalhar como ilustrador no jornal El Colombiano em 1948, aos 16 anos. Seus primeiros trabalhos exibiam um caráter expressionista e ele foi inicialmente influenciado por artistas como Paul Gauguin e os muralistas mexicanos, Diego Rivera e José Clemente Orozco, cujas obras conheceu através de reproduções.
Um ponto de virada crucial em sua formação se deu por meio de concursos e viagens. Em 1951, ele ganhou o segundo prêmio do Salón Nacional aos 19 anos. Em 1952, Botero utilizou o dinheiro do prêmio para viajar à Europa. Em Madrid, ele buscou aprimorar sua técnica e educação como artesão, copiando mestres no Museu do Prado, incluindo Velázquez, Tiziano e Tintoretto. Ele vendia essas cópias para turistas como copista do Prado para sustentar-se. Naquele momento, seu objetivo era aprender a técnica de pintura acadêmica para expressar suas ideias.
A passagem mais transformadora, no entanto, ocorreu em Florença, Itália, onde Botero viveu por dois anos e meio. Lá, ele se aprofundou no estudo do Renascimento. Foi a observação de uma reprodução de Piero della Francesca que o impactou profundamente, levando-o a decidir que Florença era o lugar onde queria estar. Botero passou a estudar a pintura de Ucello e Piero della Francesca. Ele se deu conta de que os muralistas mexicanos haviam, em grande parte, copiado os afrescos italianos, e uma vez que viu a grande pintura italiana, a mexicana o interessou muito menos.
A Consolidação do Boterismo
[editar | editar código]O estilo que se tornaria o boterismo começou a ganhar forma e coerência entre 1956 e 1960. Sua visão formal foi profundamente racionalizada após ler o teórico Bernard Berenson, que falava sobre a capacidade da arte de produzir "valores do tato". Berenson utilizava Giotto como principal exemplo para explicar como a pintura, um arte de duas dimensões, deve fazer o observador sentir que pode tocar as coisas, construindo a ilusão da tridimensionalidade e do espaço.
Essa teoria serviu como uma "racionalização das coisas" que já o atraíam instintivamente, reforçando a importância dos valores plásticos. Botero começou a explorar a exageração volumétrica em naturezas-mortas e objetos antes de aplicá-la à figura humana. Esse volume expandido, que transcende a mera representação da "gordura", passou a ser a sua marca inconfundível, conferindo às figuras presença e força. Em 1957, críticos em Washington descreveram seus temas como tendo "tamanho e peso Brobdingnaguianos" (em referência a personagens gigantes de As Viagens de Gulliver), indicando a precoce consolidação de sua anatomia característica.
O reconhecimento formal veio quando ele conquistou o primeiro prêmio no XI Salón Nacional de Artistas Colombianos em 1958, com a obra Homenaje a Mantegna. O episódio foi marcado por um grande escândalo: o quadro foi inicialmente rejeitado pelo júri de admissão, mas a polêmica na imprensa levou à sua reconsideração e, finalmente, à vitória.
Obras-Primas e Legado
[editar | editar código]A arte de Botero é vasta e diversificada, abrangendo pintura, desenho, e escultura. Ele pintou de tudo um pouco, incluindo natureza morta, cavalos, músicos, e cenas como Os dançarinos (1987), que retrata a sensualidade de uma dança em um salão provavelmente colombiano. Em Dançarinas no Bar (2001), ele brinca com a quebra de expectativas, apresentando uma bailarina arredondada em uma custosa posição de balé, desafiando a imagem tradicional da atleta esguia.
Botero frequentemente se dedicou à reinterpretação de obras-primas da arte ocidental, um interesse que vinha desde seus tempos de copista no Prado. A famosa série das Mona Lisas começou a ser apresentada em 1959. Em sua releitura, como a Mona Lisa de 1978 (ou 1963), a protagonista ganha contornos muito mais generosos, ocupando um espaço muito maior da tela e conferindo-lhe ainda mais protagonismo, além do toque bem-humorado. Outras releituras incluem a Fornarina de Rafael e a Princesa Margarita Maria Teresa de Áustria de Velázquez, além de Depois de Arnolfini Van Eyck (1978), onde os elementos-chave do original de Jan van Eyck se mantêm, mas os protagonistas esguios são substituídos pelas formas volumosas características de Botero, em um contexto moderno (como a troca do candelabro por uma lâmpada elétrica).
Botero também se notabilizou como escultor, iniciando a produção de sua primeira escultura em 1973. Suas obras tridimensionais, que reforçaram a monumentalidade do boterismo, estão instaladas em praças e museus ao redor do mundo. A cidade de Medellín, sua terra natal, possui a Plaza Botero, inaugurada em 2000 com dezenas de suas esculturas, simbolizando a revitalização cultural do local.
O artista viveu em várias metrópoles—México, Nova York, Paris e Pietrasanta (Itália)—o que contribuiu para seu refinamento técnico e inserção global. Contudo, ele manteve um vínculo intenso com a cultura colombiana, evocando cores e costumes latino-americanos em suas obras. Ele foi tido como o artista vivo mais caro da América Latina.
Em um ato de generosidade e legado, Botero doou um vasto acervo ao governo colombiano, composto por 123 obras de sua autoria, incluindo pinturas, desenhos e esculturas de bronze e mármore, e mais 85 obras de importantes artistas internacionais que ele colecionou durante quatro décadas. Essas 208 peças formam a exposição permanente do Museu Botero em Bogotá.
Sua obra, que concilia pintura, escultura e desenho, é vasta e coerente. O legado de Botero reside em sua capacidade de transformar um estilo pessoal em um idioma universal e profundamente expressivo, onde crítica social, humor, memória e exuberância coexistem. Suas obras estão presentes em 46 museus ao redor do mundo.
Galeria
[editar | editar código]-
"Maternity" 1995 exhibition in Medellín
-
Exhibition in Berlin
-
Cat, 1990, Barcelona
-
Motherhood, Oviedo
-
Woman with Mirror, 1987
-
Woman with cigarette, Yerevan
-
Bird, 1990, in front of UOB Plaza, Singapore
-
Roman Warrior, Cafesjian Museum of Art, Yerevan
-
Man on Horse, bronze, 1992, at the Israel Museum, Jerusalem
-
The Cat, Yerevan
-
The Hand, Madrid
-
Smoking woman, Cafesjian Museum of Art, Yerevan
-
Caballo con bridas, Bilbao
-
Adam and Eve, near Crockfords Tower at Resorts World Sentosa, Singapore
-
Lady, Medellín
-
Sculpture by Fernando Botero in Goslar
-
Sculpture by Fernando Botero in front of the Kunstmuseum Liechtenstein, Vaduz
-
Broadgate Venus, 1989, London
-
Cat, Cafesjian Museum of Art, Yerevan
-
Adam, Seattle
-
Sala do museu com pinturas de Botero. Museu virtualhttps://artsandculture.google.com/partner/museo-botero-bogota
Referências
[editar | editar código]https://dasartes.com.br/de-arte-a-z/morre-o-artista-colombiano-fernando-botero/
https://www.bbc.com/portuguese/reporterbbc/story/2005/06/050620_valquiriaboteromtc
https://www.britannica.com/biography/Fernando-Botero
https://www.banrepcultural.org/bogota/museo-botero