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Cela, Raimundo Brandão

De Wikiversidade

Raimundo Brandão Cela nasceu em Sobral, Ceará, a 19 de julho de 1890, e faleceu a 6 de novembro de 1954. Era filho do mecânico espanhol José Maria Mosquera Cela (1857–1923) e da professora sobralense Maria Carolina Brandão Cela (1854–1927).

Aos quatro anos, Cela mudou-se para a cidade litorânea de Camocim, onde teve os seus estudos iniciais; o seu pai assumiu a função nas oficinas de ferro e a sua mãe lecionava na escola de primeiras letras. Em 1906, foi para Fortaleza, onde estudou Ciências e Letras, formando-se bacharel no Liceu Cearense.

Quatro anos depois, em 1910, Raimundo chegou ao Rio de Janeiro com grande afinidade pelas artes. Matriculou-se na Escola de Belas Artes como aluno livre, tendo aprendido com mestres renomados, como Zeferino da Costa (em modelo vivo), e Eliseu Visconti e Batista da Costa (em pintura). Contudo, em simultâneo, inscreveu-se na Escola Politécnica para satisfazer o desejo do seu pai de que se tornasse engenheiro, recebendo o grau de Engenheiro-geógrafo.

Trajetória Artística e Período Europeu

A arte de Cela iniciou-se de modo completamente académico. Em 1917, ele recebeu uma viagem para Paris, concedida pelo Salão Nacional de Belas Artes pela obra "Último Diálogo de Sócrates".

A viagem para Paris ocorreu apenas em 1920, devido à guerra. Cela permaneceu na Europa por mais dois anos, onde se aprofundou nos estudos de gravura em metal com Frank Brangwyn (mencionado também como Frane Brangwyn), um pintor, gravador e litógrafo inglês. A sua habilidade técnica é evidente nas suas obras, que demonstram qualidade gráfica excecional, tanto pela originalidade quanto pela precisão.

Após o regresso, Raimundo Cela foi um dos pioneiros a fomentar o ensino de gravura de metal na Escola Nacional de Belas Artes, no Rio de Janeiro, lecionando durante nove anos.

O Afastamento e a Reinserção na Arte (1922–1940)

Após voltar da Europa (entre 1920 e 1922), Cela enfrentou problemas de saúde devido a uma hemorragia meníngea (AVC). A sua recuperação deu-se após o retorno ao Brasil. Com o falecimento do pai em 1924, Cela optou por fixar residência em Camocim, a cidade litorânea onde cresceu.

Durante cerca de dez anos, o artista exerceu a profissão de engenheiro, atuando como gerente da Companhia Auxiliar de Luz e Força de Camocim (CFLC) em parceria com o seu irmão, Fernando Cela. Embora tenha ocorrido um afastamento do circuito artístico da capital durante essa fase, a sua sobrinha, Yvanny Militão Menescal, nega a versão de que ele se tenha mantido inteiramente afastado da atividade artística.

Nesse período, entre 1923 e 1938, Cela continuou a pintar "quadros excelentes" a óleo, guache e aquarela, com temas regionais, incluindo retratos e representações de rendeiras e trabalhadores na arte.

A reinserção de Cela no cenário artístico oficial ocorreu em 1938, impulsionada pela pintura de um painel para o governo do Estado que representava a libertação dos escravizados do Ceará. Esta obra é notável, pois o Ceará antecipou-se em quatro anos à Lei Áurea, sendo considerado a "Terra da Luz". Pouco depois, em 1940, Cela estabeleceu-se em Fortaleza.

Nessa década, tornou-se professor de desenho no Colégio Militar e na Escola de Agronomia, e manteve um ateliê no foyer do Teatro José de Alencar, cedido pelo Governo do Estado. Cela serviu como inspiração para os novos pintores de Fortaleza na década de 1940, recebendo-os no seu ateliê para aulas e avaliando as suas telas.

Legado Artístico e Posicionamento Historiográfico

A arte de Raimundo Cela revela uma busca por unir a tradição académica e a identidade cultural brasileira, transformando o quotidiano nordestino em pintura de grande força poética e visual. As suas composições, minuciosamente construídas, são repletas de ritmo e emoção.

Ele é conhecido pelas suas famosas pinturas litorâneas e representações do quotidiano de jangadeiros, vaqueiros e pescadores. Cela é considerado um dos criadores da visualidade cearense, pintando a energia e luminosidade das praias, as nuvens rosadas e as ondas movimentadas, que se tornam elementos focais e rítmicos.

O seu legado é marcado pelo título de “Pintor do Nordeste”. Apesar de ser um homem moderno, as suas obras não tiveram influências do modernismo, embora tenha aparecido próximo ao momento da história cultural que culminou no radicalismo da Semana de Arte Moderna de 1922.

A produção de Cela é complexa e exige uma leitura crítica, sendo ele considerado um artista moderno, mas nunca um modernista. O valor da sua arte deve-se ao facto de ter sido concebida à margem das escolas e de não ter sido contaminada pelos modismos passageiros. A sua produção artística permaneceu isolada e à margem dos movimentos transformadores da arte brasileira.

A historiografia recente tem-se dedicado a revisitar as "verdades cristalizadas" sobre a sua trajetória, como a alcunha de "artista académico". O trabalho académico sobre Cela é considerado recente e escasso. O sociólogo Delano Pessoa Barbosa foi um dos principais responsáveis por essa inserção académica a partir de 2007, com investigações que incluíram monografia, dissertação de mestrado e tese de doutorado focadas na sua obra e na circulação das suas pinturas.

O livro/catálogo Raimundo Cela (1890-1954), organizado por Max Perlingeiro em 2005, é considerado a fonte de pesquisa mais completa e indispensável sobre a vida e obra do artista.

A Casa Raimundo Cela: Polo de Formação e Fomento

A Casa Raimundo Cela, fundada formalmente em 1967 como Centro de Artes Visuais (e posteriormente Casa de Cultura Raimundo Cela), é a manifestação institucional do seu legado.

A instituição foi idealizada por Heloísa Juaçaba para fomentar e dar continuidade ao trabalho da extinta Sociedade Cearense de Artes Plásticas (SCAP). Nos seus anos iniciais, a Casa localizava-se de frente para a Praça do Cristo Redentor; mais tarde, entre meados dos anos 1970 e o final dos anos 1980, funcionou no antigo Palácio da Luz, que hoje abriga a Academia Cearense de Letras.

A Casa Raimundo Cela desempenhou um papel crucial na história do ensino de artes plásticas em Fortaleza, funcionando como um espaço de formação num período em que a cidade carecia de uma escola formal de arte. Oferecia cursos (como Pintura, Escultura e Desenho) e programas de formação, aproveitando a presença de jurados do seu Salão, como Jean Pierre Chabloz, para ministrar conferências.

A instituição foi fundamental para a Geração Raimundo Cela. A sua atuação também impulsionou o crescimento do mercado de arte local, possibilitando a abertura de diversas galerias em Fortaleza.

Um projeto de grande destaque foi o Salão Nacional de Artes Plásticas do Ceará (SNAPC), que ocorreu de 1967 a 1984. A realização do Salão contribuiu para a inserção da produção cearense no panorama nacional, atraindo artistas e jurados de renome, o que legitimava a mostra.

Em meados da década de 1970, o nome foi alterado para Casa de Cultura Raimundo Cela como uma estratégia para angariar recursos do Conselho Federal de Cultura, seguindo um modelo de André Malraux, conferindo à cultura um lugar estratégico de ação.

Ao longo dos anos 1980, a Casa enfrentou lutas pela sua permanência e chegou a ser considerada "desativada", perdendo prestígio para outros locais que ofereciam melhores condições aos artistas. No entanto, a Casa Raimundo Cela é lembrada como um marco de articulação do campo das artes visuais, promovendo debates, a profissionalização de novos talentos e fomentando o jornalismo cultural cearense.

Referências

SILVA, Anderson de Sousa. Título da tese. 2021. Dissertação (Tese de Doutorado / Mestrado) – Universidade Federal de Pernambuco, Recife, 2021. Disponível em: https://repositorio.ufpe.br/bitstream/123456789/39809/1/TESE%20Anderson%20de%20Sousa%20Silva.pdf Acesso em: 01 dez. 2025.

„Raimundo Cela” — página de artista. Catálogo das Artes. Disponível em: https://www.catalogodasartes.com.br/cotacao/obrasdearte/artista/Raimundo%20Cela/ordem/inclusao_mais_recente/pagina/1/ Acesso em: 01 dez. 2025.

„Raimundo Cela (1890)” — perfil de artista. Arremate Arte. Disponível em: https://www.arrematearte.com.br/artistas/raimundo-cela-1890 Acesso em: 01 dez. 2025.

Acervo “Coleção Raimundo Cela”. Museu de Arte da Universidade Federal do Ceará (MAUC). Disponível em: https://mauc.ufc.br/pt/acervo-colecoes/colecao-raimundo-cela/ Acesso em: 01 dez. 2025.


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