Cursino, Aurora
Aurora Cursino dos Santos (1917-1974) foi uma artista marginal cuja produção visual e escrita emergiu no contexto da institucionalização psiquiátrica no Brasil. Sua obra, constituída principalmente por criação de pinturas e textos, combina biografia, memória, denúncia e delírio, expressando questões de gênero, violência, marginalização social, loucura institucional e resistência simbólica. O estudo de sua trajetória e de sua arte permite vislumbrar as interfaces entre arte, gênero, psiquiatria e desigualdades sociais no Brasil do século XX.
Contexto histórico e social
Aurora viveu em um Brasil marcado por desigualdades sociais profundas, especialmente para mulheres pobres e marginalizadas. Em um contexto onde a prostituição e a pobreza podiam facilmente resultar em estigmatização e institucionalização, muitas mulheres foram internadas em hospitais psiquiátricos como forma de controle social.
A institucionalização psiquiátrica no país (como a do complexo hospitalar onde Aurora foi internada) costumava promover práticas de confinamento, invisibilização e silenciamento de corpos considerados “desviantes”.
Ao mesmo tempo, surgiam no Brasil, e no mundo, experiências de “arte outsider” ou “arte psicopatológica”, nas quais internos de hospitais psiquiátricos produziam imagens e escritos que hoje são reconhecidos por seu valor estético e documental. A redescoberta dessas produções com olhar crítico e histórico tem se intensificado nas últimas décadas.
Produção artística e literária
A obra de Aurora consiste predominantemente de pinturas em óleo sobre papel (ou papel-cartão), muitas vezes integradas a textos manuscritos, em maiúsculas e com caligrafia densa, criando uma estética híbrida entre imagem e palavra.
Temáticas recorrentes de sua produção: violência de gênero; prostituição; desigualdade; opressão social; memória urbana e de marginalidade; crítica às instituições psiquiátricas; religiosidade popular; erotismo e repressão.
Sua paleta e composição pictóricas tendem a cores saturadas, contrastes marcantes e figuras figurativas/expressivas, com forte carga emocional e simbólica.
Nos textos que acompanham suas imagens, Aurora inscreve sua vivência, seus traumas, sua subjetividade, muitas vezes com traços de delírio, mas sempre com uma voz própria, confessional e de denúncia.
Importância e significado da obra
A obra de Aurora é um testemunho singular da experiência de mulheres marginalizadas, criminalizadas ou psiquiatricamente institucionalizadas, oferecendo um “arquivo vivo” de dor, resistência e subjetividade subalterna.
Sua produção desafia as fronteiras entre arte “oficial” e “marginal”, entre “saudável” e “louco”, questionando os regimes de poder da psiquiatria e os mecanismos de estigmatização social.
Ao integrar texto e imagem, memória e delírio, autobiografia e símbolo, sua arte problematiza categorias de gênero, classe e saúde mental, contribuindo para debates contemporâneos sobre memória social, violência institucional, gênero e arte política.
O resgate de sua obra representa um esforço de reparação histórica: dar visibilidade a vozes historicamente silenciadas, construir uma narrativa alternativa à oficialidade da arte e da história da psiquiatria.
Recepção, redescoberta e inserção no circuito artístico
Por décadas, a produção de Aurora permaneceu confinada a acervos institucionais, sem reconhecimento público amplo.
Recentemente, seu nome e sua obra foram revisitados por estudiosas(es), historiadoras(es) da arte e da saúde mental, inserindo-a em debates sobre arte marginal, gênero e violência institucional.
Sua obra já tem sido incluída em iniciativas de visibilidade artística e memória histórica, como exposições contemporâneas e publicações críticas, reconfigurando seu lugar no panorama da arte brasileira.
Referências
CESAR, Osório. A expressão artística nos alienados (contribuição para o estudo dos simbolos na arte). São Paulo: Officinas Graphicas do Hospital de Juquery, 1929
CUNHA, Maria Clementina Pereira. Loucura, gênero feminino: As mulheres do Juquery na São Paulo do início do século XX. Revista Brasileira de História, v.9, nº 18, 1989.
In: ENCONTRO DE HISTÓRIA DA ARTE, 15, 2021, virtual. Atas do XV Encontro de História da Arte. Campinas: DOI: 10.20396/eha.15.2021.4707
NOCHLIN, Linda. Por que não houve grandes mulheres artistas? São Paulo: Aurora, 2016.
Sites
https://www.sjcantigamente.com.br/procura-se-aurora
https://35.bienal.org.br/participante/aurora-cursino-dos-santos
https://veneta.com.br/shop/aurora-memorias-e-delirios-de-uma-mulher-da-vida-260