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DAS OCUPAÇÕES POR MORADIA AOS ATOS OFICIAIS: MEMÓRIAS E MATERIALIDADES DO MOVIMENTO ESTUDANTIL DA FFC/UNESP (1987–2024) - RODRIGO LOPES VIUDES

De Wikiversidade

INTRODUÇÃO

 Inaugurado em 6 de março de 1975, o campus da Faculdade de Filosofia e Ciências (FFC) da Universidade Estadual Paulista (Unesp), em Marília (SP), expandiu o espaço destinado às atividades acadêmicas, em contraste com as acanhadas dependências da antiga sede, onde a instituição havia iniciado suas atividades, em 1957, como Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Marília (Fafi).

 Em que pese a ampliação dos ambientes de estudo, o corpo discente da instituição – à época, composto pelos cursos de Biblioteconomia, Ciências Sociais, Filosofia e Pedagogia – passou a demandar, por meio do movimento estudantil, antiga reivindicação referente à instalação de moradias universitárias.

 Sem que houvesse avanço no diálogo com a diretoria da FFC e com a Reitoria da Unesp, um grupo de alunos deliberou, em 1987, pela utilização de salas de aula como moradia, naquela que ficaria marcada como a primeira das ocupações do movimento estudantil – iniciativa que se repetiria em 1996, 1999, 2009 e, por último, em 2013.

 A primeira mobilização atingiria seu intento principal com a inauguração da moradia estudantil em 1990. É desse feito – e de seu processo histórico – que se ocupa este trabalho, produzido para a disciplina História do Brasil II, ministrada pelo professor doutor Paulo Eduardo Teixeira, do curso de Ciências Sociais.

 Das ocupações aos atos oficiais que se sucederam – ou se intercalaram, a cada mobilização estudantil –, propõe-se demonstrar, por meio das publicações de contratos, serviços e obras, a característica notadamente reativa do governo paulista às demandas do corpo discente, legítimo protagonista da memória material do campus da Unesp de Marília.

ANTES DA MORADIA

 Há escassos registros históricos sobre o movimento estudantil da FFC/Unesp. À medida que se recua no tempo e na abordagem, o acesso às informações torna-se cada vez mais rarefeito, restando como imprescindíveis quaisquer fontes de memória disponíveis, ainda que sujeitas às devidas contextualizações e análises.

 Nesse sentido, cumpre papel significativo no preenchimento dessa lacuna da memória universitária do campus de Marília o documentário Paredes que Falam – Memórias da Moradia Estudantil da Unesp Marília, produzido pela aluna de Pedagogia Fernanda Lima Peixoto e lançado em março de 2025.

 Durante a exibição do vídeo, ex-alunos que participaram da ocupação de 1987 relataram os motivos que os levaram à drástica necessidade de compartilharem o mesmo espaço de estudos como quarto e cozinha improvisados, inicialmente por apenas dois alunos, apesar da resistência institucional.

 A superlotação da Casa do Estudante – um imóvel alugado que servia como moradia aos estudantes unespianos no centro de Marília – acabaria por represar a demanda excedente na própria FFC/Unesp, encorpando a presença de alunos na sala ocupada ao longo de quase três anos e meio.

 Nesse ínterim, ainda na segunda metade da década de 1980, enquanto o movimento se replicava nos campi da Unesp em Araraquara, Assis e Franca, o governo paulista reagiu, enfim, à demanda e deu início aos processos licitatórios para a construção de novas moradias estudantis no interior do Estado.

 Em Marília, a implantação foi precedida pela sanção da Lei Municipal nº 3.361, de 1º de novembro de 1988, que desincorporou da classe de bens de uso comum do município uma área de cinco mil metros quadrados, localizada no Jardim Morumbi, na zona oeste da cidade, e a doou à Unesp.

 Em julho de 1989, o governo do Estado lançou o edital para a construção de dois blocos horizontais, com área total de 820 metros quadrados. O contrato, publicado no Diário Oficial do Estado (DOE) em 20 de setembro daquele ano, foi firmado com a empresa Sremag Engenharia e Construções Ltda., vencedora da licitação, pelo valor de NCz$ 422.171,81.

APÓS A MORADIA

 Inaugurada em 18 de outubro de 1990, a moradia estudantil passou a atender alunos remanescentes da ocupação, além de outros que acabaram beneficiados pelo movimento iniciado por colegas que, agora egressos, haviam legado ao movimento estudantil um modelo de resistência e de proposição de soluções às novas demandas dos discentes.

 Apesar da construção da moradia estudantil, a pauta da permanência estudantil continuou a mobilizar novas reivindicações, uma vez que o espaço não contemplava toda a demanda – o que prevalece até os dias de hoje. Uma das soluções provisórias, instituída ainda nos anos 1990, foi a chamada moradia sarcófago.

 Trata-se da inclusão de mais um colchão no chão, entre as camas de alvenaria, em uma adaptação que remete às antigas sepulturas faraônicas – daí o nome atribuído. Essa alternativa “criativa” tem permitido, há décadas, que a moradia estudantil da FFC/Unesp acolha uma quantidade de alunos superior à sua capacidade original.

NOVAS OCUPAÇÕES E OBRAS

 Em 1996, após nova ocupação no campus, a Unesp firmou a locação de três residências no Jardim Universitário, para acolher mais alunos. Os aluguéis seriam prorrogados até o ano 2000, segundo extratos publicados no Diário Oficial.

 A primeira década do novo milênio foi marcada, na FFC/Unesp, pela entrega de melhorias, inaugurações e contratações que integraram tanto a pauta do movimento estudantil quanto a do governo paulista.

 A construção da terceira unidade predial da moradia estudantil entrou no cronograma de obras do Estado em 2003, e uma nova reforma em todas as dependências foi incluída no orçamento de 2006, segundo publicações no DOE.

 Em 2007, após recorrentes reclamações dos alunos, foi inaugurado o Restaurante Universitário (RU) – cuja terceirização do serviço o mantém, até hoje, na pauta estudantil, por não prover quantidade suficiente de refeições para todos os alunos.

 Naquele mesmo ano, a Unesp firmou contrato para reforma do Bloco II da moradia estudantil, que se somava a outras demandas do movimento, culminando na ocupação de 2009.

 Em 2012, o Estado investiu R$ 29,7 mil na reforma e adequação de banheiros e dormitórios para pessoas com deficiência na moradia estudantil e entregou um conjunto de obras no valor de R$ 4,8 milhões, cinco anos após sua contratação.

 Entre elas, destacam-se o Centro de Apoio ao Desenvolvimento e Pesquisa na Área de Humanidades, a Central de Salas de Aula – Bloco I, o Centro de Vivência Estudantil, a Quadra Esportiva, a Pista Ecológica de Saúde, a Academia ao Ar Livre e as obras da Seção Técnica de Saúde e das Calçadas de Acessibilidade, que, juntas, somam um investimento superior a R$ 4,8 milhões.

ÚLTIMAS MOBILIZAÇÕES

 Em 2013, uma nova ocupação ficou marcada pela interdição da rodovia Comandante João Ribeiro de Barros (SP-294) em uma manhã de domingo. Os alunos dispersaram o movimento após a chegada do pelotão de choque da Polícia Militar (PM).

 Os estudantes permaneceram mobilizados até 2014, deflagrando greves em solidariedade aos movimentos sindicais de servidores e professores, também em 2016 e, por último, em 2019, antes da pandemia da Covid-19, em 2020.

 Desde a retomada das atividades acadêmicas presenciais na Unesp, em março de 2020, o movimento estudantil fragmentou-se no campus de Marília. Ainda assim, as últimas obras providenciadas pelo Estado atendem a demandas que permanecem na pauta discente.

 Em outubro de 2024, a FFC/Unesp contratou mais uma reforma na moradia estudantil, com a construção de um novo ambiente de uso comum dos alunos, ao custo de R$ 1,3 milhão. Os moradores foram remanejados mediante o pagamento de aluguéis.