Discussão:Análise de texto 2025
Adicionar tópicoCurso de Ciências Sociais Disciplina: História do Brasil II Responsável: Prof. Dr. Paulo Eduardo Teixeira
Larissa Pimentel Demendi O Governo João Goulart e o golpe de 1964:memória, história historiografia de Lucilia de Almeida Neves Delgado Análise textual:
A autora Lucilia de Almeida Neves Delgado é uma historiadora brasileira concentrada na área de História do Brasil Republicano, com um foco nas relações entre história e ciência política. Graduada em História, pela Universidade Federal de Juiz de Fora, possuí mestrado em Ciência Política, pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), doutoradoem Ciência Política, pela Universidade de São Paulo (USP).
Sua carreira é marcada pela docência e pesquisa em universidades brasileiras. Foi professora da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) de 1978 a 1996. Lecionou na Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-Minas) de 1986 a 2010. Atuou como professora e pesquisadora na Universidade de Brasília (UnB) de 2010 a 2013.
Se destacou também por sua participação em associações de pesquisa, sendo Vice-Presidente da Associação Nacional de História (ANPUH) e Presidente da Associação Brasileira de História Oral (ABHO). Apesar de não atuar diretamente na política, sua atuação acadêmica e intelectual possuí viés político. No texto *"O governo João Goulart e o golpe de 1964: memória, história e historiografia"*, Lucília de Almeida Neves Delgado analisa as diferentes interpretações historiográficas sobre o governo de Jango e o golpe de 1964, destacando como a memória e o esquecimento atuam na construção da história. A autora discute como determinadas versões foram silenciadas ou marginalizadas, evidenciando disputas em torno da narrativa oficial. Ela aborda perspectivas que explicam o golpe como resultado de fatores estruturais, conjunturais, conspirações político-militares e ações preventivas das elites contra reformas populares. Delgado também ressalta a escassez inicial de estudos acadêmicos sobre o tema e a importância do recente ciclo de pesquisas que, com novas fontes e abordagens, tem contribuído para uma compreensão mais complexa e crítica do período.
Produziu o texto em um contexto de redemocratização e revisão crítica da história do Brasil, especialmente no período pós-ditadura militar, quando se intensificaram os debates sobre memória, verdade e justiça em relação ao regime de 1964. Escrito no início dos anos 2000, o texto reflete um momento em que a historiografia brasileira buscava reavaliar narrativas consolidadas, ampliando o acesso a novas fontes documentais e reconhecendo a importância da memória social na construção histórica. Nesse sentido, o lugar de fala da autora é o da historiadora comprometida com uma abordagem crítica, reflexiva e plural, que problematiza tanto os silêncios quanto as disputas de memória em torno do governo João Goulart e do golpe civil-militar.
A autora trabalha com múltiplas temporalidades ao analisar o governo Goulart, o golpe de 1964 e suas repercussões ao longo do tempo, conectando o passado com as disputas de memória no presente. Aborda diferentes sujeitos históricos — como João Goulart, militares, elites conservadoras, movimentos populares e historiadores — destacando como suas ações e representações foram interpretadas ou esquecidas nas narrativas históricas. Delgado evidencia que a relação entre passado e presente é dinâmica e conflituosa, pois a memória coletiva, influenciada por contextos políticos e sociais, interfere na produção historiográfica e na forma como os eventos são lembrados, silenciados ou ressignificados ao longo do tempo.
Lucília adota uma perspectiva crítica e reflexiva da História, que reconhece a historicidade do conhecimento histórico e a influência dos contextos sociais, políticos e ideológicos na produção historiográfica. A autora valoriza o diálogo entre memória e história, destacando que a construção do passado é marcada por disputas de narrativas, silenciamentos e seleções intencionais. Sua abordagem rompe com a visão tradicional e linear da História, ao enfatizar a pluralidade de sujeitos, a multiplicidade de interpretações e a importância de revisitar o passado à luz de novas fontes e questionamentos do presente. Utiliza uma metodologia de caráter bibliográfico e historiográfico, com forte base interpretativa e analítica.
A autora realiza uma revisão crítica da produção acadêmica sobre o período, examinando diferentes abordagens e interpretações construídas por historiadores ao longo do tempo. Além disso, ela analisa como a memória coletiva e os discursos públicos influenciaram a escrita da história, destacando os usos do passado e os silêncios historiográficos. Trata-se, portanto, de uma pesquisa qualitativa, com foco na análise de narrativas e na relação entre história, memória e política.
Entretanto, texto é útil para entender como diferentes narrativas sobre o golpe de 1964 foram construídas e disputadas ao longo do tempo. Destaca a importância de não aceitar uma versão única da história e de sempre considerar os interesses por trás do que é lembrado ou esquecido.
Análise de texto "O Governo João Goulart e o golpe de 1964: Memória, história e historiografia" - Mariana Mascimino Belmonte
[editar código]UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA JÚLIO DE MESQUITA FILHO
CIÊNCIAS SOCIAIS - MATUTINO
MARIANA MASCIMINO BELMONTE
ANÁLISE DA AULA 7: O Governo João Goulart e o golpe de 1964: Memória, história e historiografia - Lucília de Almeida Neves Delgado
MARÍLIA
2025
ROTEIRO PARA ANÁLISE DE TEXTO
ALUNA: Mariana Mascimino Belmonte
OBRA/TEXTO: O Governo João Goulart e o golpe de 1964: memória, história e historiografia
AUTOR(A): Lucilia de Almeida Neves Delgado
EDIÇÃO: Não especificada, mas artigo aprovado para publicação em julho de 2009
ANO DE PUBLICAÇÃO: 2009
ANÁLISE DO TEXTO
1. Identificação da autora: Lucilia de Almeida Neves Delgado é Professora titular do Departamento de História da PUC/MG, professora do Departamento de História da UFMG e Pesquisadora Colaboradora Sênior da UNB.
2. Temáticas analisadas ou problematizações destacadas pelo texto do autor: Este texto oferece uma análise sobre diferentes perspectivas interpretativas e historiográficas relacionadas à trajetória política do ex-presidente João Goulart, à crise institucional do início dos anos 1960 e ao golpe de 1964. Ele destaca especialmente a relação entre memória e história, buscando mostrar como a construção do esquecimento está conectada às maneiras como as análises acadêmicas se desenvolvem. O artigo também questiona a pouca atenção dada à produção historiográfica sobre João Goulart, bem como as interpretações divergentes e as estratégias de desqualificação que envolvem sua atuação e seu governo. Além disso, aponta que Goulart tem sido, muitas vezes, colocado em segundo plano tanto na historiografia quanto na memória coletiva do país.
3. Momento histórico que foi produzido o texto do autor: O artigo foi recebido e aprovado para publicação em julho de 2009. Ele reflete o debate historiográfico e a produção acadêmica sobre o governo Goulart e o golpe de 1964 até o "primeiro decênio do século XXI", impulsionado por efemérides como os quarenta anos do golpe (2004) e os trinta anos da morte de João Goulart (2006).
4. Temporalidades/Sujeitos Abordados/Relação Passado-Presente:
Temporalidades: Aborda a conjuntura da década de 1960, com foco nos anos de 1961 a 1964. Também analisa a produção historiográfica desde a década de 1970 até o início do século XXI. A autora discute a existência de "múltiplas temporalidades", incluindo "tempos longos e médios" e "movimentos conjunturais" na análise histórica.
Sujeitos Abordados: O ex-presidente João Goulart é o sujeito central da análise. Outros sujeitos incluem os militares, partidos políticos (como a UDN), setores conservadores (forças armadas, igreja católica, proprietários rurais, empresariado nacional, investidores internacionais), o governo dos EUA (CIA, Operação Brother Sam), e movimentos sociais (ligas camponesas, movimento estudantil, organizações sindicais). O texto também aborda o trabalho de diversos historiadores, sociólogos, economistas e cientistas políticos que interpretaram o período.
Relação Passado-Presente: A relação entre memória e história e a "construção do esquecimento" é um fio condutor do artigo, mostrando como o passado é interpretado e, por vezes, silenciado no presente. A autora discute como a historiografia negligenciou a figura de Goulart por muitos anos, e como uma nova geração de historiadores, influenciada por efemérides, tem reavaliado sua importância histórica. O artigo também conecta o golpe de 1964 à "triste sina" de interrupções democráticas e ao estigma autoritário na tradição histórica brasileira.
5. Perspectiva de História expressa pelo texto: A perspectiva apresentada é tanto historiográfica quanto meta-histórica, focando na análise e classificação dos diferentes enfoques interpretativos e historiográficos sobre o período. A autora destaca a importância de considerar duas dimensões do tempo para entender melhor o conhecimento histórico e historiográfico: uma relacionada ao desenrolar dos acontecimentos e processos, e outra que diz respeito às interpretações e narrativas produzidas sobre esses mesmos eventos. Ela defende que explicações sólidas para processos históricos precisam levar em conta as relações entre variáveis estruturais e conjunturais. Além disso, a autora adota uma postura crítica em relação à historiografia que desqualificou João Goulart, assim como à construção do esquecimento de sua figura na memória coletiva.
6. Metodologia utilizada pelo autor: A metodologia envolve uma análise crítica e a classificação de textos que representam a produção historiográfica sobre o governo João Goulart e o golpe de 1964. A escolha dos autores e das obras analisadas foi feita levando em conta a relevância das orientações teóricas e metodológicas, além da contribuição para ampliar a pesquisa documental e o debate acadêmico. A autora dialoga com estudos recentes na área e também utiliza textos que ela mesma escreveu. Ela organiza as interpretações historiográficas em categorias, como visões estruturalistas, foco no caráter preventivo do golpe, a ideia de uma conspiração nas ações, uma perspectiva mais conjuntural que destaca a importância da democracia e o ciclo produtivo atual.
7. Tipo de pesquisa realizada: A pesquisa realizada é predominantemente bibliográfica e descritiva/analítica. Trata-se de uma revisão historiográfica, que analisa, descreve e classifica a produção acadêmica e interpretativa já existente sobre o Governo João Goulart e o golpe de 1964. O artigo não se baseia em pesquisa documental primária própria, mas sim na análise e síntese de obras de outros autores, embora mencione a "pesquisa original de fontes" como um dos critérios de relevância das obras analisadas.
8. Apreciação crítica sobre o texto: O artigo de Lucília Delgado é uma contribuição realmente valiosa e completa para quem quer entender a historiografia do Brasil contemporâneo. O que mais chama a atenção é a maneira clara e organizada com que ela nos guia pelas diferentes interpretações sobre o governo de João Goulart e o golpe de 1964. Delgado consegue fazer algo muito interessante: ela conecta de forma muito eficaz a complexa relação entre memória, história e como a história é escrita (historiografia). Ela mostra como a figura de "Jango" foi intencionalmente deixada de lado, quase esquecida, e como, aos poucos, novos olhares e abordagens estão finalmente surgindo para resgatar sua importância. É especialmente esclarecedor como a autora nos situa no tempo, mostrando a evolução da produção acadêmica sobre o tema. Ela nos leva desde as primeiras análises, ainda nos anos 1970 — que focavam mais em fatores estruturais e de longa duração — até o que ela chama de um "novo ciclo produtivo" já no século XXI. Esse novo ciclo é impulsionado por uma nova geração de pesquisadores e pelo acesso a documentos inéditos, que estão trazendo novas luzes sobre aquele período. Ao final, a conclusão de Delgado é firme e muito bem fundamentada. Ela aponta claramente para os militares e os grupos conservadores, apoiados por interesses internacionais, como os principais responsáveis por derrubar Goulart e interromper a experiência democrática que o Brasil vivia. Com isso, ela reforça a importância de entendermos a fundo tanto os fatores estruturais quanto os acontecimentos conjunturais que, juntos, levaram à ruptura de 1964.
Data: 15/09/2005