História Oral: Da fazenda roceira à cidade interiorana, memórias de Dona Antônia e Seu Benedito - Évelyn Bueno Pereira Santos
Introdução
Segundo Antonio Candido (2010) ao analisar os caipiras de São Paulo em seu livro “Parceiros do Rio Bonito” (2010) dirá que eles se apoiaram e se fixaram na forma de vida ecológica e social em suas fazendas e sítios, a partir desse estilo de vida estabelecido, formaram sua forma de sociabilidade e cultura. Neste presente trabalho trago as memórias de dona Antônia e ‘seu’ Benedito, meus avós maternos que cresceram num contexto de roça, vivendo como caipiras na fazenda São João, em Pardinho - SP, por parte de minha avó, e logo em diferentes idades, ambos foram para São José do Braganceiro em Areiópolis - SP, onde trabalharam desde sua menoridade, cresceram e se conheceram.
Trarei a vivência, contada por eles, de uma ‘migração’ da fazenda, da roça, do trabalho braçal no ‘mato’ à uma cidade interiorana em crescente estado de urbanização (um lento e pequeno urbanismo, porém ainda em constante vigência) mas, ao mesmo tempo, ainda muito rural. Vale ressaltar o uso da palavra migração com o sentido estabelecido puramente de sair de um lugar para o outro.
Dona Antônia Teixeira Bueno Pereira, mãe de dois, avó de três, tem seus 77 anos. Nascida em Pardinho, interior de São Paulo, passou sua infância e adolescência se mudando junto de sua mãe, pai e irmãos mais novos, e trabalhou a maior parte de sua vida na roça e com afazeres domésticos. É casada com seu Benedito, de 78 anos, aposentado, pai de dois e avô de três, trabalhou a maior parte da vida com o trabalho manual.
Metodologia
A pesquisa foi executada através do método de entrevista semi-estruturada, elaborei algumas perguntas para guiar para o tema do trabalho. A partir da história de vida deles, elaborei o texto. Seguindo a metodologia para pensar em registros escritos de conhecimentos orais enquanto prisma de compreensão de memórias, saberes e práticas (ALMADA; OLIVEIRA; SILVIA; 2019) entendendo que tal ação é de suma importância, a fim de não perder-se essa memória coletiva conforme o tempo passa.
Fazenda: vivendo a infância e adolescência.
Seu Benedito chegou à fazenda São José do Braganceiro para trabalhar aos seis anos e Dona Antônia com dezesseis. Porém Dona Antônia já trabalhava de doméstica desde antes de se mudar de Pardinho para Areiópolis, ela relata que trabalhava em uma chácara (de nome desconhecido) de uma professora e um policial, que dizia que a tratavam com muito apreço, a ponto de não quererem que ela se mudasse para a fazenda São José do Braganceiro.
Suas memórias sobre viver nessa fazenda são trazidas com muito afeto, até as mais sofridas que citarei mais a frente. Antônia diz: “Ah, era uma fazenda tão gostosa, tinha bastante gente que morava lá e bastante pessoas vinham morar. Tinha cooperativa, tinha açougue, tinha tudo na fazenda. Eu adorava morar lá. Quando eu vim para outra cidade, nossa, estranhei tanto. Gostava tanto daquela fazenda. A gente trabalhava na roça, mas era gostoso. Era gostoso morar lá.” Seu Benedito é mais sucinto e quando pergunto o que achava da fazenda apenas diz que “Era bom pra ‘nois’, gostava da fazenda lá.” Logo após minha avó complementa descrevendo a fazenda: “A fazenda era que nem uma ‘cidadinha’, porque tinha futebol para os homens. Tinha ‘bailão’ pras mulheres que iam ‘pro’ baile. A cooperativa era grande, todo mês ‘nois’ ia fazer compra. Tinha roupa, tinha calçado, tudo pra vender na cooperativa, tinha tudo, não era só comida, tinha hospitalzinho e lá era onde as mulheres ganhavam nenê.”
Ao minha avó relatar sobre compras na cooperativa, perguntei como era distribuído o dinheiro, como recebiam pelo trabalho árduo na roça? Ela me diz: “Só no final do ano.” Questiono como faziam para comer, compravam o que comiam? A terra provia? Ela diz “Ia lá no mercado, fazia compra, e pra ver quanto ficava, não, ah, sei lá, nem sei como que era. A gente não via dinheiro. Era a fazenda que pagava, a gente comprava, depois no final do ano, eles davam um pouquinho de dinheiro ‘pros’ empregados, ‘pra’ comprar um refrigerante, alguma coisa no final do ano.” Acredito que pela idade de Dona Antônia, ela não se lembrará com detalhes dessas questões mais pontuais, como dinheiro, afinal, ela não era a provedora ou administradora principal da casa, apesar de sempre estar nesse cargo de irmã mais velha e cuidar de tantos afazeres domésticos como sua mãe. Sobre o dono da fazenda, minha avó novamente fala: “Ele era rico ‘pra’ caramba. Ele morava em São Paulo [...] Eram (a família) proprietários de várias fazenda, muito gado. E a ‘turma’ falava assim “eles não paga pra gente bem, quando morrer vai levar com eles travesseiro de dinheiro no caixão. É, a turma falava isso” antes de mudarmos de assunto, falamos como o sobrenome desse dono é também nome de uma avenida da cidade.
“É ‘fia’, assim, a gente viveu, a gente viu numa época que não via dinheiro, não via cor de dinheiro. Que nem, por exemplo, a gente colhia planta, plantava arroz, plantava feijão, plantava milho, plantava bastante coisa. Daí se a gente ia na cidade, vendia, a gente ia e a mãe tocava aqueles mascates, ia na fazenda com aqueles tecido e trocava por mantimento, dava arroz, dava feijão e eles dava tecido e a mãe fazia roupa para a gente. Que não ia na cidade ir lá comprar roupa feita, sabe, a mãe mesmo costurava, ela fazia vestido, fazia calça para os meus irmãos, fazia para o meu pai.” E para meu avô “Quando era criança, usava vestido, minha mãe fazia vestido, ‘camisolão’, éramos sete ‘criança”
Quando faço essa pergunta para minha avó “Então você não foi na escola, né, vó?” Ela me responde: “Então eu já abanava café com 7 anos. A professora foi na casa do meu pai, falou para mandar eu e a Nair (uma de suas irmãs) na escola, né? Entrava com 7 anos, 8 anos na escola. Não é que nem agora que entra com 6 anos na escola. Daí a professora foi lá, né? Falou pro meu pai, por ‘nois’ na escola e ele falou assim, “ah professora, só se a senhora mandar alguém aqui pra vir ajudar a trabalhar aqui para tratar dos dos outros filhos.”” E sigo com essa pergunta “Como que você aprendeu a ler vó? Se você não foi na escola” E ela diz: “Sozinha.” A questiono como e ela: “Eu via meus irmãos e a cartilha. Iam ler a carteira, porque antigamente dava cartilha, sabe? Hum, cartilha pra ler, né? Assim, tinha aquelas histórias na cartilha, ele ‘via’ e eu depois eu ia ler e eu decorava tudo aquilo lá. Eu pegava um pedacinho de pau na terra e escrevia mesa, cadeira, armário, mas nem é isso que eu estava escrevendo, só que eu achava que era, né? E assim eu fui indo minha ‘fia’. Daí quando eu comecei eu ir na igreja, comecei ‘lê’ a bíblia, fui aprendendo.” Meu avô aprendeu a ler na escola da fazenda, apesar de ir até o terceiro ano e ter repetido três vezes e assim, desistiu.
Fomos conversando até que introduzi algumas questões que trouxeram a crescente dificuldade que eles tinham, minha avó disse: “É, ‘fia’ a vida da gente não foi fácil, não é? Nem jornal tinha. [...] Ah, se a gente está aqui? Eu vou falar para você uma coisa, viu, a gente andava descalço, andava pelado, que não tinha roupa para pôr, andava quase pelado, com roupinha velha, comia mal para caramba, que não tinha coisa para comer, não tinha uma carne, tinha uma comida boa e a gente viveu.”
Perguntei um pouco sobre suas diversões na fazenda, pois pensei que apesar do trabalho árduo da época, ainda eram crianças, e ela me contou dentre seus lazeres até histórias folclóricas que eram muito presentes na época. Ela diz: “Brincava sozinha na casa, jogava bola. Ia ‘pro’ mato. E quando a gente era criança, a gente ia brincar no meio de um mato com cobra, com um animal. Até com cobras. Aí eu tacava fogo na cobra, arrancava a cabeça da cobra.” perguntei a eles “Você falou para mim uma vez que você já viu o Saci, vó, é verdade?” e minha avó responde “Não, é que foi assim: O Jaime, meu irmão, ele desapareceu. Nós estava num cafezal. É, a gente estava tudo lá, mãe, né? Ia trabalhar, levava a ‘filharada’ todo mundo. O Jaime era pequeno ele desapareceu. Daí o fiscal da da fazenda tocou o berrante. Ele lá, eles tocavam o berrante, né? Quando era para uma corneta, para chamar os empregados, trabalhador, né? No carreador lá que falava no caminho, daí ele tocou a buzina lá todo mundo veio, né? Daí ele falou que o Jaime tinha sumido, então era para todo mundo ir procurar ele e agir. Todo mundo que foi procurar, né? Procurar eles. Nós achamos ele na beira do Rio, sentadinho lá na beira do Rio. Daí a gente perguntou para ele, falou como que ele foi parar lá? E ele falou que era um menino preto, disse que tinha uma perna só e que foi chamando ele, jogando balinha para ele. E ele foi indo, foi indo, acompanhando diz que o Saci quando chega na beira do rio ele não atravessa a água. Ah, a turma que falava isso também não sei, né? [...] Os cavalos amanhecer com as crinas trançadas. A turma falava que tinha lobisomem, ó, meu pai falava assim, ó, chegava de noite, não tinha luz, né? Não tinha nada. Era só a escuridão só na fazenda, ele e a minha mãe ficaram sentados no fogão de lenha aceso e a lamparina e já punhava tudo ‘nois’ para dormir, né? Ele falava assim: saia que não, que logo logo o Saci vem e pode passar aqui. E diz que ela, viu?, meu pai, contou que um dia ele estava sentado na porta e a minha mãe sentado na taipa do fogão. De repente chegou aquele cachorrão batendo as orelhas, sabe? Você oferecesse um prato de sal. Noutro dia se quebrava o encanto dele e devolvia o prato pra você e descobria quem era. Você sabia quem é o São José e diziam que tinha um lá. Que saia de sexta-feira, dia de lua nova, ele saía depois das nove da noite e saía para a colônia andar. A gente morava numa casa, na fazenda de tábua embaixo. Então nós andava lá e a gente escutava. Com aquele ‘pla, pla, pla’ na orelha, o meu pai falava: fica quietinha e dorme, que é lobisomem que está andando por aí. É, a turma contava cada coisa, minha ‘fia do céu.’”
Considerações finais.
“Eu falo hoje vocês têm que dar graças a Deus. Vocês têm de tudo, de tudo. Na vida a gente não teve nada, nada.” -Dona Antônia
Em 1971 eles saíram da fazenda e foram para a cidade, quando seu filho mais velho tinha dois anos. Perguntei para eles, por fim, o que achavam de se mudar assim. “Ah, a gente achou diferente, né, porque daí a gente ia pagar aluguel. Podia trabalhar. Tinha dinheiro, mas tinha que pagar aluguel.” Reconhecendo esse espaço urbano como estranho, tanto que ao fim da entrevista eles me relatam algumas dificuldades vividas por ninguém os ensinar os ofícios de se viver na cidade. Candido (2010) diz “na atual fase de expansão da economia capitalista, muito mais penetrante e de âmbito incomparavelmente mais amplo, de tal modo que as áreas segregadas se veem jungidas às necessidades agrícolas, comerciais e industriais da região, do estado, do país, que nelas repercutem a cada passo.” (p.187) onde faz a reflexão da economia capitalista em ascensão em detrimento da vida caipira, onde seu próprio meio de subsistência é a terra. De tal forma que, meus avós ao se mudarem para a cidade interiorana, mudaram drasticamente seu estilo de vida e sua estabilidade, correlacionando com o trecho acima, onde saíram do campo para “tentar uma vida melhor na cidade”, narrativa essa que estava em ascensão entre seus conhecidos da época.
Finalizo fomentando a necessidade de preservação dessas memórias coletivas que circulavam no interior, onde pessoalmente me foi rico guardar as lembranças de meus avós e difundi-las para além de mim. E também pela oportunidade de os conhecer um pouco mais e mais de suas histórias e memórias.
Referências
ALMADA, E, D. SILVIA, Y, V. OLIVEIRA, L, R. Lembrar a roça, saber a cidade: trocas simbólicas nos quintais de Ibirité, Minas Gerais, Brasil. Revista Geográfica Venezolana. Universidad de los Andes. v. 2019(1). p. 226-240, 2019. Disponível em: https://www.redalyc.org/journal/3477/347766121016/html/. Acesso em: 5 nov. 2024.
B. RODRIGUES DA SILVA, R. L. PATRIMÔNIOS GOIANOS: INTERVALOS ENTRE A ROÇA E A CIDADE - DOI 10.5216/bgg.v28i1.4902. Boletim Goiano de Geografia, Goiânia, v. 28, n. 1, p. 81–98, 2008. DOI: 10.5216/bgg.v28i1.4902. Disponível em: https://revistas.ufg.br/bgg/article/view/4902. Acesso em: 5 nov. 2024.
CÂNDIDO, Antônio. Os parceiros do Rio Bonito. Estudo sobre o caipira paulista e a transformação de seu meio de vida. Rio de Janeiro: Ouro sobre Azul, 2010.
DE SOUZA, A. J. Ruralidades em vó maria: (auto)etnografia pelos trilhos memorialísticos da infância. Revista Ouricuri, [S. l.], v. 14, n. 1, p. 38–52, 2024. DOI: 10.59360/ouricuri.vol14.i1.a18393. Disponível em: https://www.revistas.uneb.br/index.php/ouricuri/article/view/18393. Acesso em: 5 nov. 2024.