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INFÂNCIA E MEMÓRIA: A INFLUÊNCIA DA INTERNET NA FORMAÇÃO DE MEMÓRIAS NA GERAÇÃO ALPHA VERSUS A GERAÇÃO Z (Catherine Navarro, Maria Clara Carneiro, Mykaelle Recco, Sofia Mayumi, Stefany Bispo)

De Wikiversidade

INTRODUÇÃO

Historicamente, a humanidade sempre foi impactada significativamente pelas transformações tecnológicas de seu tempo. Entretanto, nas últimas décadas, o desenvolvimento estratosférico da tecnologia fez com que as relações humanas e, principalmente a forma com que os indivíduos preservam suas memórias, se alterasse drasticamente. Diante deste fenômeno, é notável que o grupo social mais impactante foi o das crianças e adolescentes; a Geração Z, nascida entre 1995 e meados de 2009, foi a primeira a crescer com a internet como algo cotidiano mas não hegemonicamente difundido, o que tornava o acesso mais restrito (Dimock 2019). Por outro lado, a Geração Alpha, nascida a partir de 2010, veio ao mundo com a era digital em seu auge, extremamente sólida e praticamente universal. Nesse cenário, faz-se necessário analisar como este ambiente tecnológico impacta a formação da memória individual e coletiva na infância ao alterar a forma como as lembranças são registradas, lembradas e compartilhadas.

A memória, segundo Gondar (2012), pode ser compreendida em diversas dimensões: a memória individual representa o conjunto de experiências, lembranças e significados que cada pessoa armazena de modo único e subjetivo; enquanto a memória coletiva é construída e compartilhada em grupos sociais, moldando uma visão comum sobre o passado. Assim, a memória individual representa a dimensão pessoal da lembrança, marcada por emoções e significados internos, e, a memória coletiva é composta por rituais, tradições e narrativas que ajudam a estabelecer a identidade de uma comunidade ou sociedade. Sob esta ótica, tem-se o conceito de memória na infância, que é baseado na construção de identidades individuais, no fortalecimento de laços afetivos e na percepção e relação das crianças com o mundo e consigo mesmas. Para Salgado (2017), a memória está intrinsecamente ligada às faculdades da mimese e da imaginação, aptidões essenciais para que a criança consiga construir narrativas sobre si e sobre os outros. Entretanto, na era digital, estes processos são atravessados e influenciados por dispositivos eletrônicos e plataformas online, que influenciam e até alteram a forma com que essas memórias são formadas e lembradas.

Para Gondar (2012), a memória digital faz com que a memória individual e a memória coletiva coexistam de forma difusa, dado que, as memórias pessoais são externalizadas e também, vulnerabilizadas, pois, muitas vezes são controladas por plataformas de terceiros. A memória coletiva, que tradicionalmente era transmitida em espaços físicos como escolas, igrejas e comunidades locais, agora se expande para ambientes digitais, onde as redes sociais e outras plataformas promovem uma constante troca de informações e lembranças. Isso cria um cenário onde a memória individual é constantemente influenciada, fragmentada e reorganizada pela memória coletiva virtual, moldada por conteúdos em escala global. Bagatini (2019) observa que essa nova forma de memória digital é vulnerável e suscetível a manipulações, já que o acesso e o controle dessas memórias dependem de plataformas externas. Nesse contexto, compreende-se como as gerações Z e Alpha são impactadas com a desordem da distinção entre o que é memória coletiva, individual e digital.

No estudo das memórias, Pollak (1989) discute como o avanço tecnológico amplifica a complexidade entre memória e esquecimento. A internet proporciona um espaço onde memórias são constantemente registradas, porém, muitas vezes, desconectadas de contextos afetivos e individuais, tornando tudo instável e fragmentado. Essa instabilidade, como enfatiza Bagatini (2019), cria uma vulnerabilidade para a memória digital e, consequentemente, para as crianças da Geração Alpha que estão imersas nesta realidade desde o seu nascimento.

Como observa Carneiro dos Santos (2021), as redes digitais não apenas transformam a forma como as crianças acessam e produzem conhecimento, mas também como vivenciam e interpretam suas próprias histórias. No contexto da Geração Alpha, o conceito de memória em rede (Patela, 2020) desafia a noção tradicional de lembrança pessoal, onde o passado é registrado e acessado por meio de suportes externos, como redes sociais e aplicativos. Desse modo, surge a questão central que motiva esta pesquisa: compreender de que maneira a internet e as redes digitais influenciam a formação de memórias na infância. Em que medida a digitalização das experiências e a exposição precoce a essas plataformas impactam o desenvolvimento das lembranças e a construção da identidade das novas gerações?

JUSTIFICATIVA

O presente trabalho, que aborda a comparação da influência da tecnologia na criação de memórias entre crianças, adolescentes e adultos na atualidade, mostra-se extremamente relevante, visto as mudanças nas formas de hábitos e comportamentos devido à ascensão das mídias digitais e os impactos sociais que foram causados em razão do aumento da tecnologia. Diante disso, é imprescindível levar em consideração a realidade tecnológica em que ambas as gerações: Z e Alpha, respectivamente, nasceram, e compreender os fenômenos que levaram ao aumento do uso constante dos aparelhos eletrônicos e da internet em si. Dessa forma, considerando todos estes aspectos, este estudo visa, a partir de uma análise comparativa, estudar e entender o papel da influência da internet na criação de memórias individuais e coletivas da geração atual, a geração Alpha.

O estudo de comparação do tema "Infância e Memória: A Influência da Internet na Formação de Memórias na Geração Alpha versus a Geração Z" é pertinente no contexto atual, dado que a tecnologia está cada vez mais presente na vida cotidiana, principalmente para as gerações mais jovens, como a Alpha, que já nasce inserida num ambiente de conectividade e acaba tendo suas primeiras experiências e interações mediadas por dispositivos digitais. Tanto a Geração Z quanto a Geração Alpha vivenciam uma infância e adolescência marcadas pelo constante contato com os aparelhos eletrônicos e a internet, moldando seus modos de recordar e até mesmo de esquecer. Como ressalta Silveira (2019), “mais do que nunca, lembramos (e esquecemos) com e através dos nossos aparelhos técnicos”, o que evidencia o papel central desse dispositivos na construção e também na fragilidade das memórias.

Logo, a análise desses fenômenos é essencial para entender como as tecnologias digitais impactam no funcionamento da memória, tanto individual quanto coletiva, e quais são os potenciais impactos disso na construção da identidade, nos hábitos, e na percepção de tempo e história dessas gerações. Ao comparar a Geração Z e a Geração Alpha, é possível observar não apenas a continuidade, mas também a intensificação desse processo de digitalização da memória. Este estudo, portanto, busca contribuir para o entendimento das consequências psicológicas e socioculturais da dependência tecnológica para a formação das memórias e das próprias identidades juvenis, permitindo ainda reflexões sobre os possíveis impactos a longo prazo do uso constante da tecnologia no desenvolvimento dessa juventude.

METODOLOGIA

A análise comparativa foi o ponto central da metodologia do trabalho, permitindo investigar como diferentes gerações - representadas pela geração Z e pela geração Alpha - experienciam e constroem memórias em contextos marcados por diferentes níveis de acesso à tecnologia. Para isso, as respostas obtidas nas entrevistas foram sistematicamente analisadas, com foco em categorias como brincadeiras favoritas, acesso a telas, registros de memórias e a relação entre interações físicas e digitais; essa abordagem possibilitou identificar tendências geracionais e compreender os impactos das transformações tecnológicas e sociais na infância.

As entrevistas semiestruturadas desempenharam um papel fundamental na coleta de dados, permitindo ao pesquisador explorar temas previamente definidos e, ao mesmo tempo, captar as nuances e percepções espontâneas dos participantes. Os entrevistados, distribuídos entre crianças e jovens, responderam às questões relacionadas a seus hábitos, memórias marcantes e o papel da tecnologia em suas rotinas. Esse formato garantiu a riqueza das narrativas individuais, que foram posteriormente agrupadas para análise temática.

O estudo de caso complementou a metodologia, aprofundando a análise em perfis específicos de participantes. Essa abordagem foi essencial para ilustrar, de forma detalhada, como determinados contextos sociais, econômicos ou culturais influenciam as experiências com tecnologias e a criação de memórias. Por exemplo, um estudo de caso pode detalhar a experiência de uma criança da geração Alpha, comparando-a com outra cuja interação com tecnologias é mais limitada por regras familiares. Essa perspectiva microanalítica forneceu uma visão mais aprofundada sobre os fatores que moldam a relação entre infância, memória e tecnologia.

As entrevistas realizadas com representantes das gerações Z e Alpha revelam importantes diferenças e semelhanças na forma como memórias e tecnologias digitais moldam suas experiências de infância. As respostas mostram que, enquanto a geração Z viveu uma transição do analógico para o digital, a geração Alpha já nasceu completamente imersa no ambiente tecnológico, o que influencia diretamente suas práticas cotidianas e formas de criar memórias.

Entre os entrevistados da geração Z, observa-se um vínculo mais forte com atividades ao ar livre e brincadeiras físicas durante a infância, como jogos de rua, interação com amigos e práticas manuais como tricô e crochê. Apesar de terem tido algum acesso a telas, como televisão e tablets, elas não ocupavam um papel central no entretenimento. As memórias marcantes dessa geração frequentemente envolvem registros analógicos, como fotos impressas e objetos físicos, além de lembranças vinculadas a experiências interativas, como aprender a tocar instrumentos ou cozinhar com os familiares.

Por outro lado, na geração Alpha, as telas têm uma presença mais marcante e cotidiana, sendo o celular e o videogame amplamente acessados. Esses dispositivos não apenas substituem brinquedos tradicionais mas também configuram o espaço onde muitas interações sociais e memórias são criadas. Há uma maior tendência em registrar experiências em formato digital, como fotos e vídeos para redes sociais, mesmo que de maneira espontânea e sem grande preocupação com edição. No entanto, também há relatos de crianças que preferem atividades ao ar livre, como jogar bola ou andar de bicicleta, mostrando que a interação com o mundo exterior ainda é valorizada em certa medida.

Uma diferença notável está no papel das telas na construção de memórias. Enquanto a geração Z associa suas lembranças e vivências no mundo físico, mesmo que influenciadas por meios digitais, a geração Alpha já apresenta uma relação híbrida, onde memórias digitais e físicas coexistem. Isso reflete uma adaptação às novas formas de socialização e expressão, moldadas pelo acesso quase ilimitado às tecnologias desde cedo.

Por fim, o contexto social e cultural de cada geração exerce grande influência sobre como as crianças experimentam e lembram suas infâncias. A geração Z viveu um período de maior liberdade nas interações externas, enquanto a geração Alpha é frequentemente supervisionada, com limitações impostas por seus pais em atividades externas, o que pode explicar o maior tempo gasto em dispositivos digitais. Essa diferença destaca o impacto das mudanças tecnológicas e sociais sobre as infâncias contemporâneas, reforçando a importância de compreender como essas gerações lidam com a memória e a identidade em um mundo cada vez mais digital.

ANÁLISE E DISCUSSÃO

         A partir das entrevistas realizadas com participantes das gerações Alpha e Z, é possível identificar diferenças significativas nas formas como as memórias de infância foram ou estão sendo construídas, bem como no impacto da digitalização em suas vidas. A análise das respostas mostra contrastes marcantes entre uma geração que viveu uma infância parcialmente digital e outra que cresceu em um ambiente totalmente conectado.

      A geração Z, que experimentou uma infância em meio à transição tecnológica, vivenciou um período em que predominavam brincadeiras ao ar livre e interações sociais presenciais. Um entrevistado dessa geração afirmou: “Jogava futebol com os amigos na rua ou em alguma praça perto de casa, batíamos figurinha e empinávamos pipa”. Esse relato evidencia a construção de memórias a partir de experiências diretas e coletivas, nas quais o ambiente físico tinha um papel central. Apesar de terem acesso a telas, como celulares e videogames, essas atividades digitais não ocupavam um espaço predominante na infância e tampouco ofuscavam as vivências presenciais. Como explicou o mesmo entrevistado: “Sempre tive um equilíbrio” entre essas duas esferas.

      Em contrapartida, a geração Alpha cresceu em um ambiente totalmente conectado às tecnologias digitais, onde dispositivos como celulares e videogames são bastante acessíveis. Ainda assim, suas experiências apresentam algumas particularidades. Uma entrevistada, por exemplo, mencionou que gosta de “jogar vôlei” quando não está na escola, indicando que as atividades físicas continuam desempenhando um papel importante em sua rotina. Entretanto, a influência das telas é inegável, como evidenciado por outro entrevistado que afirmou não ter restrições quanto ao tempo de uso de dispositivos eletrônicos. Esse cenário reforça a presença cada vez mais significativa da tecnologia no dia a dia e na formação de memórias dessa geração.

        Outro aspecto relevante é a relação de ambas as gerações com o registro de memórias. Enquanto os representantes da geração Z relataram não ter o hábito de registrar momentos de sua infância, a geração Alpha demonstra maior proximidade com registros digitais. A maioria dos entrevistados desta geração mencionou que suas memórias marcantes possuem registro digital, o que aponta para uma transformação considerável na maneira como as lembranças são armazenadas. Esse comportamento reflete a influência crescente das redes sociais e o uso constante de dispositivos com câmeras, que tornam mais fácil criar e preservar registros visuais.

        Em conclusão, é notável como essas dinâmicas impactam a construção da identidade e a conexão com o passado. Para a geração Z a falta de registros formais favorece uma memória mais subjetiva, baseada em reconstruções pessoais e afetivas. Já para a geração Alpha, a dependência de registros digitais pode alterar a forma como essas memórias serão revisitadas no futuro, tornando-as possivelmente menos espontâneas e mais influenciadas por imagens e vídeos. Esses contrastes destacam como o avanço tecnológico influencia não apenas o cotidiano, mas também a maneira como cada geração se relaciona com sua história e vivências.

CONCLUSÃO

Como anteriormente destacado, há grandes diferenças entre os comportamentos e a composição de memórias das gerações Z e Alpha; os entrevistados da Geração Z, mesmo tendo acesso às telas, davam maior importância a brincadeiras ao ar livre, atividades criativas como tricô, pintura, brincar de boneca e até mesmo desempenhavam maior interação com outros membros da família e amigos, valorizando relações sociais diretas, construindo suas memórias sem grandes preocupações em registrá-las ou compartilhá-las de forma digital, assim constituindo suas lembranças e identidades baseadas em experiências individuais e diretas. Tal qual o relato de uma entrevistada, suas memórias são majoritariamente subjetivas e afetivas. Ela compartilha “minhas memórias foram criadas com minha tia me contando algo do passado, inventando histórias e brincadeiras”. Relato que demonstra a importância das interações sociais diretas e da vivência no ambiente externo às telas, como fatores fundamentais na construção de suas memórias.

No entanto, a Geração Alpha está inserida em um contexto de constante contato com a tecnologia e o digital desde os primeiros anos de vida. O acesso a celulares, tablets, videogames e a presença constante da internet contribuem para que as memórias sejam muitas vezes registradas por meio de fotos, vídeos e postagens em redes sociais, como mencionado por um entrevistado de 10 anos, que guarda registros digitais de suas viagens e compartilha essas memórias em seu perfil do Instagram, fato que revela uma grande diferença no modo como as memórias são não apenas compostas, mas também compartilhadas. Além disso, muitos dos entrevistados da Geração Alpha ainda valorizam atividades físicas, tais quais jogar bola, andar de bicicleta, brincar com seus brinquedos e interagir com amigos e familiares, porém, essas experiências estão quase sempre associadas a registros digitais, criando uma sobreposição entre o "real" e "virtual".

Nesse contexto, a construção de memória e identidade tem grandes implicações para o futuro, principalmente em relação à memória coletiva e individual, dado que a dependência da Geração Alpha de dispositivos para registrar e acessar suas memórias pode resultar na padronização das lembranças compartilhadas online, fato que pode causar uma perda da individualidade e subjetividade da memória pessoal.

Além de que, a memória, ao ser administrada de modo digital e online, se torna mais suscetível a influências externas, como algoritmos e manipulação de conteúdo. Nesse sentido, a citação de Pollak (1989) sobre a memória digital, que "ao mesmo tempo, em que registra, também fragmenta e descontextualiza", ressalta que a digitalização das memórias pode enfraquecer a conexão emocional com o passado, tornando as lembranças mais vulneráveis à manipulação e menos genuínas.

Ademais, como apontado por Gondar (2012), a dependência das plataformas digitais pode levar a uma fragmentação da memória, no sentido que o recordar se torna cada vez mais dependente de registros armazenados em ambientes virtuais, ao invés de vivências presenciais e pessoais. Já a memória coletiva, que antes era constituída por meio das interações diretas e compartilhadas entre os indivíduos, passa a ser mediada por imagens e vídeos digitais, homogeneizando as experiências e, possivelmente, enfraquecendo o valor emocional dessas lembranças.

Portanto, a reflexão sobre o impacto da tecnologia na construção das memórias e da identidade é de extrema importância. Se a Geração Alpha está cada vez mais inserida e dependente de um ambiente digital, cabe questionar como esse processo afetará sua percepção do passado e sua capacidade de se conectar emocionalmente com suas próprias histórias. Será que estamos perdendo, na era digital, a essência das memórias afetivas e das experiências vividas no presente? Logo, essas que são justamente aquelas que nos conectam verdadeiramente ao nosso passado e à nossa identidade.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BAGATINI, J. A. (2019). Quando a Memória Encontra a Internet: Reflexões sobre Vulnerabilidade da Memória Digital.

DIMOCK, M. (2019). Defining Generations: Where Millennials End and Generation Z Begins. Pew Research Center.

GONDAR, J. (2012). Memória Individual, Memória Coletiva, Memória Social.

MCCRINDLE, M. (2020). Understanding Generation Alpha. McCrindle Research.

PATELA, N. (2020). O Perfil Geracional dos Alunos de Hoje – Repto à Emergência de Novas Teorias Educativas.

POLLAK, M. (1989). Memória, Esquecimento, Silêncio.

SALGADO, M. (2017). As Faculdades da Mimese, Imaginação e Memória na Infância: O Entrelaçar do Amor e do Pensamento.

SANTOS, R. E. C. (2021). Redes Digitais e Ensino de História: Produção, Recepção e Aprendizagem por Meio da Internet na Perspectiva da História Pública entre Alunos da Geração Z e Alpha.

SILVEIRA, P. T. DA. (2021). Lembrar e esquecer na internet: Memória, mídias digitais e a temporalidade do perdão na esfera pública contemporânea. Varia Historia, v. 37, n. 73.