Introdução ao Jornalismo Científico/Metodologia e Filosofia da Ciência/Atividade/Ababueno
Nome da atividade
[editar | editar código]Esta seção apresenta a tarefa principal do Módulo 1 do curso de "Introdução ao Jornalismo Científico". A realização da tarefa é indispensável para o reconhecimento de participação no curso. Seu trabalho estará acessível, publicado no ambiente wiki, e será anexado ao certificado de realização do curso, quando finalizar todas as atividades. Tome cuidado de estar logado na Wikiversidade. Se não estiver logado, não será possível verificar o trabalho.
Descrição da atividade
[editar | editar código]Atuar no jornalismo científico é às vezes comparado ao de ser um tradutor, no jargão da área da comunicação um 'tradutor intersemiótico', que passa a linguagem de um campo para o de outro campo. Nesta atividade, vamos observar e analisar como isso foi feito em uma das principais publicações acadêmicas brasileiras, a Pesquisa FAPESP.
Você deverá selecionar um artigo na revista Pesquisa FAPESP. Estão acessíveis na página principal da publicação. Escolha um artigo sobre um tema de pesquisa - ou seja, que seja baseado em uma ou mais de uma publicação científica - e leia-o com cuidado. Responda às perguntas que seguem.
As respostas deverão ser publicadas nesta página individual. Apenas altere os campos indicados.
Nome de usuário(a)
[editar | editar código]Ababueno
Link para a matéria selecionada
[editar | editar código]Nesta seção, você deverá colocar os links da matéria selecionada. Esteja logado.
- Título de matéria: O que os jeitos de falar dizem sobre nós e os outros
- Autoria de matéria: Arthur Marchetto
- Link de matéria: https://revistapesquisa.fapesp.br/o-que-os-jeitos-de-falar-dizem-sobre-nos-e-os-outros/
Resumo da matéria
[editar | editar código]Para esta etapa, resuma a matéria em até 300 caracteres. Esteja logado.
Pesquisadores investigam como migrantes adaptam sua fala, e como os julgamentos baseados na língua, desde tempos antigos, podem gerar estereótipos e preconceito. Ampliar o repertório linguístico é uma estratégia eficaz para mitigar esses efeitos negativos.
Análise da matéria
[editar | editar código]Para esta etapa, identifique e analise com base na matéria: o objeto e a metodologia (observação, hipótese, experimentação, análise e publicação) da pesquisa. Esteja logado.
O tema central da matéria é a relação complexa entre variação linguística, percepção social e a construção de identidades. Em linhas gerais, o que se busca entender é de que maneira os diferentes modos de falar – sotaques, pronúncias, vocabulário ou até certas escolhas gramaticais – acabam sendo avaliados, julgados e associados a determinados grupos sociais.
Os estudos apresentados seguem os princípios básicos da investigação científica, adaptados ao campo da linguagem:
Observação: o primeiro passo é olhar de perto para os fenômenos linguísticos e sociais. Não se trata apenas de notar diferenças de fala no dia a dia, mas de observar com um olhar sistemático, capaz de enxergar além da percepção comum e identificar os mecanismos em jogo.
Hipótese: a partir daí, formulam-se hipóteses sobre as causas e os efeitos da variação linguística. Por exemplo, a ideia de que alguém ajusta seu modo de falar ao mudar de cidade, ou a de que certos traços da linguagem carregam interpretações sociais especificas.
Experimentação: essas hipóteses não ficam no campo da suposição, mas são testadas por meio da coleta de dados – gravações de fala, entrevistas, estudos de percepção em que participantes avaliam diferentes variedades linguísticas. O objetivo é ter material comparável e confiável.
Análise: com os dados em mãos, os pesquisadores buscam padrões, relações e significados mais amplos. É nesse ponto que a pesquisa revela como a língua se transforma em contato com fatores sociais e cognitivos, e como a partir dela se consolidam estereótipos e identidades.
Publicação: por fim, os resultados são compartilhados, tanto no meio acadêmico, em artigos e livros, quanto em reportagens, palestras e outras formas de divulgação voltadas ao público em geral.
Análise da pesquisa
[editar | editar código]Para esta etapa, acesse a(s) pesquisa(s) de origem, de base para o artigo na Pesquisa FAPESP, identifique e analise a seção metodológica. Em especial, explique em que medida o processo de pesquisa foi bem documentado no artigo que você selecionou. Esteja logado.
Pesquisa de Livia Oushiro (Unicamp)
[editar | editar código]Objeto: A pesquisadora se dedicou a investigar se migrantes nordestinos – em especial vindos de Alagoas e da Paraíba – que vivem nas regiões metropolitanas de Campinas e São Paulo incorporam traço linguísticos da nova localidade. O grupo estudado era formado, em sua maioria, por pessoas adultas (entre 20 e 60 anos), oriundas da zona rural e com nível de escolaridade básico.
Metodologia:
Observação: Oushiro examinou tanto o vocabulário usado pelos migrantes quanto fenômenos fonológicos e gramaticais específicos, como a pronúncia do R em posição final de sílaba (o chamado R caipira), o som de T e D antes do I, a concordância nominal e diferentes formas de estruturar frases negativas (ex.: “Não vi”, “Não vi, não”, “Vi não”). O foco foi extrapolar a mera percepção comum, buscando identificar padrões que revelassem tendências de variação e mudança linguística.
Analise: Os dados mostraram que aspectos ligados à pronúncia tendem a mudar com mais facilidade, enquanto estruturas morfossintáticas como a dupla negação permanecem mais resistentes. Uma exceção foi justamente a pronúncia do R, que variou de forma mais significativa. Outra descoberta importante foi que o tempo de residência ou a idade que ocorreu a migração não se relacionam diretamente com a intensidade das mudanças observadas. As redes de sociabilidade – convivência com vizinhos, colegas de trabalho e outros contatos cotidianos – apareceram como fatores decisivos na trajetória linguística dos participantes.
Publicação: Os resultados foram apresentados em artigos científicos e capítulos de livros.
Pesquisa de Emerson Santos de Souza (UFBA)
[editar | editar código]Objeto: O estudo buscou compreender como migrantes baianos se comportam linguisticamente na Região Metropolitana de São Paulo e até que ponto adotam elementos fonológicos, sintáticos e lexicais característicos dos paulistas.
Metodologia:
Hipótese: Souza propôs o conceito de plasticidade dialetal. Inspirado em noções da biologia e da física, o termo descreve a capacidade que indivíduos têm de se adaptar linguisticamente ao novo ambiente social, funcionando como uma explicação preliminar para as mudanças observadas na fala.
Experimentação: A análise foi feita a partir da fala de 50 baianos, selecionados por meio um método de amostragem em rede social: partindo de três pessoas de referência (âncoras), o pesquisador mapeou seus contatos. Seis fenômenos linguísticos foram examinados, entre eles a pronúncia do R em coda silábica (inexistente na variedade baiana), o uso da dupla negação e a substituição lexical em termos do cotidiano (como “tangerina” por “mexerica”, “trabalho” por “serviço”, “mandioca” por “aipim”).
Análise: Os resultados mostraram que a adaptação linguística se dá tanto por meio de fenômenos regulares – estruturas presentes em ambas as variedades, mas em proporções distintas – quanto por fenômenos irregulares, como a incorporação de traços novos, a exemplo do R retroflexo. Também foram observados processos de ampliação de contexto e de sentido, além de reduções de uso em determinados casos.
Publicação: O trabalho resultou em sua tese de doutorado.
Pesquisa de Leila Tesch (Ufes)
[editar | editar código]Objeto: A pesquisadora investigou como o sotaque capixaba é percebido tanto dentro do Espírito Santo quanto fora do estado, partindo da crença bastante difundida de que capixabas “não têm sotaque”.
Metodologia:
Experimentação: Em 2021, Tesch conduziu um estudo de percepção com quase 1500 participantes de diferentes estados brasileiros e 23 brasileiros que moravam no exterior. O questionário avaliava duas dimensões: a capacidade de reconhecer o sotaque capixaba e o julgamento dos sotaques das quatro capitais do Sudeste (Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte e Vitória) a partir de critérios como prestígio, beleza, correção e agradabilidade.
Análise: Os dados revelaram que 56% dos entrevistados reconheciam um sotaque característico nos capixabas, frequentemente associado a expressões típicas como “pocar”. As avaliações também apontaram diferenças marcantes: os sotaques cariocas e paulista foram vinculados ao prestígio, o belo-horizontino foi classificado como o mais bonito e agradável, enquanto o de Vitória foi considerado o mais próximo da norma gramatical. A interpretação da pesquisadora destacou que esses julgamentos são menos linguísticos em si e mais um reflexo da construção social de identidades.
Publicação: O estudo deu origem a um artigo científico.
Pesquisa de Raquel Freitag (UFS)
[editar | editar código]Objeto: A linguista analisa como as pessoas percebem a linguagem, seus sotaques e marcas sociais, e como essa percepção sustenta julgamentos e estereótipos.
Metodologia:
Observação: Freitag observa manifestações da fala e percepções cotidianas, sem o rigor técnico inicial, mas voltando-se para o modo como esses sinais são usados na construção de julgamentos. Um exemplo que traz é o do termo biblico “xibolete”, usado como marca de identidade automática, mostrando que esse tipo de distinção é um fenômeno antigo.
Hipótese:A pesquisadora argumenta que julgar pela fala faz parte do funcionamento da cognição humana, pois ajuda a organizar o mundo e a tomar decisões rápidas. Sua hipótese é que ampliar o repertório linguístico – por meio de migração, viagens ou exposição às mídias digitais – pode reduzir os efeitos negativos desse mecanismo, ao evidenciar a legitimidade de diferentes modos de falar.
Publicação: As reflexões da autora estão reunidas no livro Variação linguística: diversidade e cotidiano.
Pesquisa de Ronald Beline Mendes (USP)
[editar | editar código]Objeto: O pesquisador se propôs a examinar como determinados traços de fala são socialmente percebidos e associados à identidade de homens homossexuais, problematizando a ideia de uma suposta “fala gay”.
Metodologia:
Hipótese: Mendes partiu da hipótese de que a noção de “fala gay” não corresponde a um padrão linguístico obrigatório, mas ao funcionamento de estereótipos sociais construídos a partir de determinados traços percebidos.
Experimentação: Em um estudo realizado em 2017, cinco homens leram o mesmo texto e um grupo de ouvintes avaliou as gravações, apontando quais vozes pareciam “mais gays”. Em pesquisas posteriores, o foco se voltou para duas variáveis: a concordância nominal e a pronúncia do E nasal. Em um dos testes, vozes masculinas que seguiam a norma padrão da língua (com plena realização da concordância) foram de modo geral percebidas como “mais gays”.
Análise: As respostas dos ouvintes em 2017 mostraram que os estereótipos acionados não estavam ligados ao conteúdo do texto, mas a julgamentos como “fala muito certinho” ou “usa muitos diminutivos”. Outro dado relevante foi que ouvintes homens atribuíam mais frequentemente a característica “mais gay” do que as mulheres, sinalizando um estereótipo mais rigoroso dentro do próprio grupo masculino. Mendes interpreta essas evidências como uma demonstração de que aspectos linguísticos podem, de fato, contribuir para a produção de significados sociais – e alerta para o risco quando essa percepção é transformada em preconceito.
Publicação: Um dos trabalhos do autor sobre o tema foi publicado em capítulo de livro.
Metáfora científica
[editar | editar código]Para esta etapa, reveja o conteúdo da aula sobre "A metáfora científica". No artigo da Pesquisa FAPESP selecionado, identifique quais foram as metáforas científicas ou cientificamente inspiradas utilizadas e justifique esse uso a partir das indicações da aula. Analise em que medida contribuem ou dificultam o entendimento da ciência. Esteja logado.
Na matéria em questão, são utilizadas duas metáforas científicas ou cientificamente inspiradas:
"Plasticidade dialetal"
[editar | editar código]Justificativa: O termo plasticidade é tomado de empréstimo da biologia e da física, em que descreve a capacidade de organismos ou materiais de se modificarem. Na matéria, a ideia é transportada para o campo da linguagem, servindo para explicar como migrantes ajustam sua fala ao novo ambiente social. Trata-se portanto de uma metáfora cientificamente inspirada, pois utiliza um conceito consolidado em outra área do conhecimento para iluminar de forma acessível um fenômeno abstrato como a adaptação linguística.
Contribuição e dificuldade: A metáfora tem o mérito de facilitar a compreensão, pois transforma um processo complexo em algo mais concreto e visualizável, permitindo ao leitor enxergar a fala como algo maleável. Além disso, amplia o repertório da população em relação a termos científicos. O risco, por outro lado, é que a apropriação metafórica possa induzir a usos imprecisos em contextos de aprendizagem formal ou mesmo sugerir sentidos não desejados. No entanto, como a reportagem esclarece a origem do termo, parte dessa ambiguidade acaba atenuada.
“Mecanismo” (da cognição humana)
[editar | editar código]Justificativa: A palavra mecanismo, bastante difundida em diversas ciências para designar o funcionamento de sistemas físicos ou biológicos, aparece na matéria para se referir a processos cognitivos: a maneira como organizamos o mundo e emitimos julgamentos de forma rápida. Esse uso se insere em uma estratégia recorrente no jornalismo científico: recorrer a metáforas inspiradas em campos técnicos para explicar dimensões complexas e abstratas, como ocorre em áreas da psicologia, da economia ou dos estudos sobre o cérebro.
Contribuição e dificuldade: A metáfora contribui ao dar concretude a algo que, por natureza, é intangível. Falar em “mecanismo” ajuda o publico a imaginar a cognição como um sistema que opera segundo certas engrenagens, tornando o conceito mais intuitivo e “palatável”.A dificuldade, no entanto, é semelhante à metáfora anterior: caso o caráter figurado não seja percebido, o termo pode ser interpretado de forma excessivamente literal e acabar distorcendo sua compreensão em contextos mais técnicos.
Filosofia da ciência
[editar | editar código]Para esta etapa, reveja o conteúdo da aula sobre "Ciência e Filosofia". Discorra sobre em que medida o artigo da Pesquisa FAPESP que você selecionou coloca questões filosóficas e apresente exemplos extraídos do texto. Esteja logado.
A reportagem analisada abre espaço para reflexões de fundo filosófico, sobretudo no que diz respeito forma como o conhecimento científico é construído, à evolução dos paradigmas e ao caráter social tanto da linguagem quanto da ciência.
A construção social do conhecimento e da linguagem científica
[editar | editar código]A ciência pode ser entendida como uma linguagem em constante negociação social. A matéria jornalística evidencia isso ao mostrar como significados atribuídos à fala e às identidades sociais são fruto de interações cotidianas, e como os próprios cientistas procuram compreender esse processo.
Tetel Queiroz, por exemplo, relata os “pré-julgamentos” e as “expectativas” enfrentadas em São Paulo por causa de seu sotaque baiano. O caso mostra como a sociedade atribui valores e sentidos a determinada formas de falar.
A pesquisa de Leila Tesch revela que o reconhecimento do sotaque capixaba muitas vezes não depende apenas de aspectos fonéticos, mas também de expressões típicas e associações sociais, como a ideia de hospitalidade. Isso reforça que a percepção da fala é inseparável da construção de identidades sociais.
Para Raquel Freitag, o ato de “julgar pela lingua” faz parte do funcionamento da cognição: ao ouvir alguém, criamos suposições rápidas sobre quem fala, baseado em percepções sociais e não em análises técnicas.
Já o trabalho de Ronald Beline Mendes sobre a chamada “fala gay” evidencia que significados sociais podem ser atribuídos mesmo sem traços linguísticos específicos. O estudo mostra como estereótipos e preconceitos surgem justamente dessa negociação social de sentidos.
Questionamento e evolução de paradigmas
[editar | editar código]Quando teorias já estabelecidas não conseguem explicar certos fenômenos, abre-se espaço para o que Thomas Kuhn chamou de “ciência extraordinária”, o momento em que paradigmas precisam ser revistos ou substituídos. Um exemplo claro é a pesquisa de Emerson Santos de Souza. Ao perceber que os modelos existentes não explicavam adequadamente a adaptação linguística de migrantes, ele propôs o conceito de “plasticidade dialetal”. Essa inovação mostra como observações empíricas podem desafiar teorias vigentes e impulsionar a criação de novos referenciais.
A busca por consenso e o teste constante de paradigmas
[editar | editar código]Outro ponto destacado é que a ciência não se limita a propor novas ideias, mas também busca consenso, testando e retestando seus próprios modelos. A reportagem mostra esse movimento de forma clara.As pesquisas de Livia Oushiro, Emerson Santos de Souza, Leila Tesch, Raquel Freitag e Ronald Beline Mendes exploram diferentes contextos da variação e percepção linguística. Cada uma delas, ao investigar se migrantes adquirem traços da nova localidade ou como determinados modos de falar são socialmente avaliados, contribuem para o refinamento das teorias existentes. Esse esforço coletivo ilustra bem como a sociolinguística avança: pela formulação de hipóteses, pela constante verificação empírica e pela construção gradual de consensos.
Próximos passos
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