Introdução ao Jornalismo Científico/Metodologia e Filosofia da Ciência/Atividade/Gustavo Alves Machado
Nome da atividade
[editar | editar código]Esta seção apresenta a tarefa principal do Módulo 1 do curso de "Introdução ao Jornalismo Científico". A realização da tarefa é indispensável para o reconhecimento de participação no curso. Seu trabalho estará acessível, publicado no ambiente wiki, e será anexado ao certificado de realização do curso, quando finalizar todas as atividades. Tome cuidado de estar logado na Wikiversidade. Se não estiver logado, não será possível verificar o trabalho.
Descrição da atividade
[editar | editar código]Atuar no jornalismo científico é às vezes comparado ao de ser um tradutor, no jargão da área da comunicação um 'tradutor intersemiótico', que passa a linguagem de um campo para o de outro campo. Nesta atividade, vamos observar e analisar como isso foi feito em uma das principais publicações acadêmicas brasileiras, a Pesquisa FAPESP.
Você deverá selecionar um artigo na revista Pesquisa FAPESP. Estão acessíveis na página principal da publicação. Escolha um artigo sobre um tema de pesquisa - ou seja, que seja baseado em uma ou mais de uma publicação científica - e leia-o com cuidado. Responda às perguntas que seguem.
As respostas deverão ser publicadas nesta página individual. Apenas altere os campos indicados.
Nome de usuário(a)
[editar | editar código]Gustavo Alves Machado
Link para a matéria selecionada
[editar | editar código]Nesta seção, você deverá colocar os links da matéria selecionada. Esteja logado.
- Título de matéria: Quantos filhotes tem uma onça?
- Autoria de matéria: Letícia Naísa
- Link de matéria: https://revistapesquisa.fapesp.br/quantos-filhotes-tem-uma-onca/
Resumo da matéria
[editar | editar código]Para esta etapa, resuma a matéria em até 300 caracteres. Esteja logado.
A pesquisa realizada no Pantanal estuda os hábitos reprodutivos das onças-pintadas. Através do uso de tecnologias avançadas, descobriu-se que as onças costumam ter uma média de 8 filhotes ao longo da vida, e a maioria dos nascimentos são de apenas um filhote, os quais já ficam independentes com 1,5 anos.
Análise da matéria
[editar | editar código]Para esta etapa, identifique e analise com base na matéria: o objeto e a metodologia (observação, hipótese, experimentação, análise e publicação) da pesquisa. Esteja logado.
Objeto de estudo: Os hábitos reprodutivos das onças no Pantanal.
A metodologia da pesquisa pode ser descrita, divida em etapas, da seguinte forma:
- Observação: Observou-se a região pesquisada, o Pantanal, como uma região de grande oportunidade para o crescimento da população de onças-pintadas, dada a existência de uma biodiversidade com poucas ameaças às onças e grande disponibilidade de presas. Nesse sentido, embora não escrito no texto, na entrevista anexada, o pesquisador afirma que observou-se a oportunidade do projeto, Onçafari (realizado na fazenda Caiman) antes somente turístico, de se tornar uma grande fonte de coleta de dados de pesquisa sobre as onças.
- Hipótese: A notícia não apresenta explicitamente a hipótese desenvolvida pelos pesquisadores, não havendo como estabelecer com precisão qual foi. Pode-se inferir, porém, que seja algo como "Pode-se identificar a taxa reprodutiva das onças e seus hábitos através de monitoramento constante das onças na fazenda Caiman, no Pantanal".
- Experimentação: Foram acompanhadas mais de 180 onças no local da pesquisa. Utilizou-se uma série de métodos: foram colocados laços com transmissores nos caminhos usuais das onças. Ao serem detectadas, os pesquisadores utilizavam dados anestésicos nas onças, permitindo que, enquanto dormiam, coletassem suas medidas e material para análise em laboratório. Também era colocado um colar com GPS, permitindo monitorar o movimento das onças adultas. Os colares não só permitem coletar dados gerais como também permitem identificar facilmente as onças grávidas, na medida que elas se movimentam mais lento. Através de armadilhas fotográficas, são identificados os hábitos das onças, especialmente os momentos em que as mães estão longes dos filhotes, permitindo os pesquisadores irem até a ninhada para coletar informações sobre quantos filhotes nasceram.
- Análise: Descobriu-se que as onças costumem ter por volta de 8 filhotes ao longo da vida. A onças tendem a ter 1 a 3 filhotes de cada vez, com a seguinte taxa de nascimentos por número de filhotes: 65,7% de apenas um filhote; 25,5% de gêmeos;E 8,5% de trigêmeos. A gestação dura em média 3 meses, e a idade reprodutiva das fêmeas começa aproximadamente aos 2 anos. Os filhotes tendem a ficar independentes com 1 ano e meio de idade
- Publicação: A pesquisa é creditada ao final da página, colocando a referência bibliográfica da seguinte forma: "FRAGOSO, C. E. et al. Unveiling demographic and mating strategies of Panthera onca in the Pantanal, Brazil. Journal of Mammalogy. On-line. 12 jan. 2023.". Também é apontado no decorrer do texto que a notícia é baseada em artigo publicado na revista Journal of Mammalogy.
Análise da pesquisa
[editar | editar código]Para esta etapa, acesse a(s) pesquisa(s) de origem, de base para o artigo na Pesquisa FAPESP, identifique e analise a seção metodológica. Em especial, explique em que medida o processo de pesquisa foi bem documentado no artigo que você selecionou. Esteja logado.
A seção metodológica é dividia em subseções, as quais são:
- Ambiente de estudo: São apresentados dados do Pantanal sobre: tipo de clima (tropical húmido com invernos secos), quantidade de vegetação ainda intacta, quantidade de precipitação de chuva, biodiversidade, tipo de vegetação, área onde se encontra o rancho estudado no Pantanal, quantidade de pessoas que vivem lá e data de quando se iniciou a coleta de informações.
- Coleta de dados: Descrição dos métodos de coleta de dado e critérios para identificação das onças estudadas. O primeiro método são os das armadilhas fotográfica, caraterizada por câmeras que capturavam vídeos das onças, os quais eram posteriormente visitados pelos pesquisadores para que os vídeos fossem baixados e para que houvesse a manutenção das armadilhas. O segundo método foi o da monitoração através de radiotelemetria e o uso de GPS. As onças eram capturadas em armadilhas de laço, na qual prendiam suas patas, possibilitando que os pesquisadores as anestesiassem, permitindo que tirassem medidas para identificação da onça e, posteriormente, colocando coleiras com capacidade GPS, permitindo rastreamento do movimento dos animais. O terceiro método foi o de pesquisadores se deslocando por rotas usuais das onças em diversos horários no decorrer do dia, possibilitado pelo processo de habituação à presença humana que as onças passaram. O quarto método pode ser descrito a partir dos "encontros de oportunidade", quando pesquisadores e trabalhadores do rancho entravam em contato inusitado com as onças da região. As descrições dos encontros eram convertidas em dados binários alertando a presença ou ausência de variáveis. Também é descrito os casos onde foi considerado que as onças copularam, através de uma série de indicadores.
- Data de nascimento, tamanho da ninhada e determinação de gênero: Através do uso dos colares, os pesquisadores são capazes de prever a data de nascimento dos filhotes a partir dos hábitos associados. Quando as mães são detectadas longe dos filhotes, equipes de pesquisadores vão até as ninhadas para coletar dados sobre os filhotes, como o sexo, tamanho da ninhada, se houve mortes de filhotes. Nessa sessão também há a referência à tabela de dados coletados.
- Dados de chuvas: é descrita a coleta de dados de chuva diariamente, durante a manhã, para estabelecer correlações entre datas de procriação e nascimento e estações chuvosas.
- Data de independência e separação: Descreve-se a observação mensal da data de separação entre filhotes e mães, e o tipo de filhote considerado (só filhotes que já foram observados anteriormente com menos de seis meses). Foi estudado se os filhotes, agora crescidos, se mantinham em áreas próximas as mães, ou se eles se dispersavam.
- Intervalo entre nascimentos: Foi coletada informações sobre o tempo entre ninhadas, e qual critério utilizado para considerar a ninhada bem sucedida ou não.
- Primeiro nascimento e sucesso reprodutivo ao longo da vida: Foi estabelecido um cálculo matemático sobre o sucesso da taxa reprodutiva, utilizando como variáveis o intervalo entre os nascimentos, o tamanho da ninhada, a idade da primeira vez que a onça teve filhotes, e a idade na última vez que tem filhotes.
- Interações entre fêmeas e machos e acasalamento: Foi estabelecido que os dados foram obtidos através de câmeras e observações, sendo que o primeiro método foi mais raro. Cada acasalamento da mesma fêmea só era contabilizado a partir do distanciamento de uma semana entre os ocorridos.
- Agressão intraespecífica: interações agressivas entre indivíduos do mesmo sexo foram compiladas e descritas a partir de informações adicionais.
O artigo selecionado cumpre com o seu dever na apresentação das metodologias empregas pelos pesquisadores. É dado grande destaque principalmente para a seção "coleta de dados", já que é a partir dela que a maior parte das outras seções da metodologia podem vir a existir. Naturalmente, o nível de detalhes no artigo não é tão aprofundado quanto a pesquisa original: o cálculo para o sucesso reprodutivo, por exemplo, não é apresentado. Dados não diretamente relacionados aos resultados também são ignorados, como os dados relacionados as chuvas e as agressões intraespecíficas. No geral, a notícia estabelece um bom panorama, já que apresenta os dados essenciais coletados e os métodos para coleta que permitem o leitor leigo compreender os resultados encontrados. O destaque às tecnologias são interessantes na medida que funcionam de forma educativa ao leitor, na medida que encoraja curiosidade acerca das ferramentas que os pesquisadores utilizam no dia a dia. Além disso, o enfoque em certas partes não essenciais para o entendimento, como a nomeação das onças, se justificam mediante a aproximação emocional do leitor com o contexto científico. Assim como as pessoas nomeiam seus "pets", saber que os cientistas também se utilizam do artifício da nomeação permite o leitor captar o valor individual de cada onça para além dos dados numéricos que elas providenciam. Aliado à isso, o artifício das entrevistas, recorrentes na matéria, permite que a metodologia objetiva seja entrecortada por notas subjetivas dos pesquisadores, os quais explicam mais didaticamente as motivações e, junto com isso, revelam sua paixão pela pesquisa. Exemplo disso surge quando Eduardo Fragoso, um dos pesquisadores da equipe, descreve: “Na hora, fazemos o que é estritamente necessário com o animal, mas ter o bicho ali nas mãos é algo indescritível”. Citações como essa são ricas no processo de divulgação científica, na medida que, a notícia, para além de informar o leitor sobre os procedimentos e resultados, passa a instigar também a paixão pelo processo científico.
Em sua, o artigo faz um ótimo trabalho de apresentação dos métodos e da pesquisa como um todo. São respondidas perguntas centrais - como, o que, por que, onde - e, mais do que isso, incentivam no leitor um sentimento de conexão emocional com o assunto. Os pontos centrais da metodologia da pesquisa podem ser descritos somente a partir da leitura do artigo.
Metáfora científica
[editar | editar código]Para esta etapa, reveja o conteúdo da aula sobre "A metáfora científica". No artigo da Pesquisa FAPESP selecionado, identifique quais foram as metáforas científicas ou cientificamente inspiradas utilizadas e justifique esse uso a partir das indicações da aula. Analise em que medida contribuem ou dificultam o entendimento da ciência. Esteja logado.
Não foram identificadas no texto muitas metáforas científicas/cientificamente inspiradas. Isso pode ser justificado dada a aproximação do leitor com o tempo: considerando que a natureza da pesquisa e seus resultados são entendíveis por um público leigo que possua somente formação básica em biologia, há menos necessidade desse tipo de metáfora. As que aparecem são as chamadas "metáforas invisíveis", na medida que passam despercebido pelo leitor, não gerando choque cognitivo. Exemplo dessa ocorrência é na frase "O potencial é positivo se for feito da maneira correta” dita no texto pelo pesquisador Alan Eduardo de Barros. A palavra "potencial", surgida no contexto da física, é utilizada para designar as positivas possibilidades futuras. Como a palavra potencial é utilizada fora do contexto da física a muito texto na linguagem coloquial, trata-se de uma metáfora invisível. Outro exemplo está no trecho "O avanço dos computadores também permite que os pesquisadores analisem o grande volume de dados coletados". A palavra volume, nesse caso, ao em vez de se referir ao seu significado da física que envolve a ocupação de um espaço físico tridimensional, aqui se refere ao significado de quantidades abstratas. No geral confirma-se o que foi ensinado na aula: boa parte das metáforas cientificas já agregadas ao vocabulário coloquial possuem sua origem na física mecânica.
Filosofia da ciência
[editar | editar código]Para esta etapa, reveja o conteúdo da aula sobre "Ciência e Filosofia". Discorra sobre em que medida o artigo da Pesquisa FAPESP que você selecionou coloca questões filosóficas e apresente exemplos extraídos do texto. Esteja logado.
O artigo da FAPESP selecionado coloca interessantes questões filosóficas, em especial com relação a ideia de ciência normal proposta por Thomas Kuhn e, mesmo que brevemente, ao conceito de falseabilidade de Karl Popper.
Como abordado no decorrer do curso, a normalidade se define a partir do avanço da ciência sem a quebra de paradigmas centrais. O artigo em questão, nesse sentido, interessa na medida que apresenta a importância da evolução tecnológica para esse tipo de avanço. Depois de descrever as tecnologias utilizados para permitir que o estudo em questão fosse realizado - vide as armadilhas fotográficas e as coleiras com GPS -, a autora da notícia reserva um parágrafo da matéria para apontar o processo da evolução tecnológica. Ela comenta:
"O avanço da tecnologia foi mais um fator que permitiu uma observação tão intensa do comportamento desses animais. Nos anos 1970, pesquisadores utilizavam colares que emitiam sinais de rádio em frequência muito alta (VHF) – e não com GPS. Para captar os sinais, Peter Crawshaw (1952-2021), brasileiro pioneiro no estudo de onças-pintadas, sobrevoava o Pantanal em ultraleves. “Antigamente, um estudo muito bom conseguia cerca de 60 pontos de localização em dois, três anos”, lembra Morato, um dos primeiros a usar GPS para monitorar onças-pintadas. “Hoje, coletamos 60 localizações em três dias, então a informação aumentou muito em quantidade e tornou-se mais precisa.”
Esse trecho apresenta ao leitor que a ideia de que os métodos utilizados pelos cientistas estão sempre em constante evolução, de maneira que os resultados de pesquisa encontrados devem ser sempre analisados mediante o contexto histórico e tecnológico que se encontram. A pesquisa descrita no artigo dificilmente teria sido realizada com tanta precisão anos atrás, e, muito provavelmente, haverá no futuro novas ferramentas que permitirão coletas de mais dados, ainda mais precisos.
Por fim, com relação a questão de falseabilidade, o último paragrafo do artigo reconhece uma problemática possível:
"Reproduzir o estudo da equipe de Fragoso em outros biomas brasileiros pode ser um desafio, principalmente naqueles onde as onças estão ameaçadas de extinção, como a Mata Atlântica e o Cerrado, ou fora do país. A expectativa é de que os dados coletados no Pantanal possam ajudar em avaliações da viabilidade de populações e no planejamento para reintrodução da espécie."
Como abordado também durante o curso, a falseabilidade é considerada por Karl Popper como uma das bases para definição do conhecimento científico. Porém, dadas as condições materiais dos outros locais onde habitam onças, essa pesquisa seria dificilmente reproduzível nas mesmas condições. Dessa forma, o critério de reprodutibilidade acaba por ser afetado de certa forma, já que esse padrão de comportamento das onças não pode ser facilmente verificado em outras regiões.
Além das questões vistas em aula, o último paragrafo também revela outra reflexão importante do fazer científico: a passagem do teórico ao aplicado. Para além de estudar as onças, os pesquisadores observam a pesquisa como uma possível base para construção de medidas concretas para a reintrodução da espécie em regiões onde ela está ameaçada de extinção. Revela-se aqui a importância da interpretação da ciência não como um conhecimento isolado da sociedade, mas sim como um potencial catalisador de mudanças no mundo.
Próximos passos
[editar | editar código]Após concluir a atividade, clique no botão abaixo para ir para o próximo módulo do curso.