Introdução ao Jornalismo Científico/Metodologia e Filosofia da Ciência/Atividade/Lais CF
Nome da atividade
[editar | editar código]Esta seção apresenta a tarefa principal do Módulo 1 do curso de "Introdução ao Jornalismo Científico". A realização da tarefa é indispensável para o reconhecimento de participação no curso. Seu trabalho estará acessível, publicado no ambiente wiki, e será anexado ao certificado de realização do curso, quando finalizar todas as atividades. Tome cuidado de estar logado na Wikiversidade. Se não estiver logado, não será possível verificar o trabalho.
Descrição da atividade
[editar | editar código]Atuar no jornalismo científico é às vezes comparado ao de ser um tradutor, no jargão da área da comunicação um 'tradutor intersemiótico', que passa a linguagem de um campo para o de outro campo. Nesta atividade, vamos observar e analisar como isso foi feito em uma das principais publicações acadêmicas brasileiras, a Pesquisa FAPESP.
Você deverá selecionar um artigo na revista Pesquisa FAPESP. Estão acessíveis na página principal da publicação. Escolha um artigo sobre um tema de pesquisa - ou seja, que seja baseado em uma ou mais de uma publicação científica - e leia-o com cuidado. Responda às perguntas que seguem.
As respostas deverão ser publicadas nesta página individual. Apenas altere os campos indicados.
Nome de usuário(a)
[editar | editar código]Laís Cerqueira Fernandes
Link para a matéria selecionada
[editar | editar código]Nesta seção, você deverá colocar os links da matéria selecionada. Esteja logado.
- Título de matéria: Milho chegou ao Brasil pela Amazônia ocidental e foi domesticado ao longo de ondas migratórias
- Autoria de matéria: Enrico Di Gregorio
- Link de matéria: https://revistapesquisa.fapesp.br/milho-chegou-ao-brasil-pela-amazonia-ocidental-e-foi-domesticado-ao-longo-de-ondas-migratorias/
Resumo da matéria
[editar | editar código]Para esta etapa, resuma a matéria em até 300 caracteres. Esteja logado.
A análise de 282 espigas datadas de até 1.010 anos indicam que o milho chegou ao Brasil parcialmente domesticado. A persistência de traços primitivos aponta para uma domesticação local e migrações via Amazônia que, se comprovadas, revisam a história do cultivo nas Américas.
Análise da matéria
[editar | editar código]Para esta etapa, identifique e analise com base na matéria: o objeto e a metodologia (observação, hipótese, experimentação, análise e publicação) da pesquisa. Esteja logado.
OBJETO: o milho brasileiro. A pesquisa se dedica a investigar a origem, a dispersão e os processos de domesticação do milho no Brasil. Os cientistas buscavam entender como e quando o cereal chegou ao território brasileiro, se ele veio já completamente domesticado ou se passou por domesticação local, e quais rotas migratórias seguiu pelo continente.
METODOLOGIA: A pesquisa parte de material arqueológico coletado nos anos 1990 no vale do Peruaçu, em Minas Gerais. A matéria descreve: “Os pesquisadores analisaram a morfologia e o DNA de 282 espigas fragmentadas, duas inteiras e 12 grãos de milho antigos encontrados nos anos 1990”. A observação incluiu características físicas específicas. “As amostras arqueológicas são espigas cônicas com quatro a 40 grãos em cada uma de quatro a 18 fileiras”. Os pesquisadores também notaram que “todos os exemplares tinham o que os biólogos chamam de endosperma farináceo: uma grande parte do corpo do grão, onde os nutrientes ficam armazenados, era opaca”.
A hipótese não aparece formulada explicitamente, mas fica implícita na questão de pesquisa. Os cientistas investigavam se o milho chegou ao Brasil já completamente domesticado ou se passou por domesticação local. A geneticista Flaviane Costa afirma: “O artigo é disruptivo porque, até 2018, se pensava que toda a domesticação do milho havia ocorrido no México”.
Não há experimentos controlados típicos, porque a pesquisa é arqueológica. Este campo trabalha com observações e análises de material existente, não com manipulação experimental. O conteúdo teórico destaca que “nem toda ciência é experimental. Campos como astronomia ou paleontologia se baseiam em observações e simulações, mais do que em experimentos controlados”.
No caso da pesquisa abordada na matéria, as análises laboratoriais substituem a experimentação: análise de DNA e comparações morfológicas sistemáticas. “As amostras arqueológicas foram comparadas às variantes de milho com endosperma farináceo, cultivadas atualmente por povos indígenas e agricultores tradicionais brasileiros, e com o teosinto, uma planta silvestre aparentada ao milho.”
Os pesquisadores estabeleceram parâmetros quantitativos: “Eles definiram, com base nesses números, que um bom parâmetro para classificar as variantes primitivas de milho seria um número de fileiras inferior a oito, porque nenhuma raça moderna do cereal nas chamadas terras baixas da América do Sul se enquadra nesse critério”.
A descoberta principal veio desta análise, como descrito: “Os geneticistas encontraram, em meio às 282 amostras do vale do Peruaçu, 14 exemplares arqueológicos com quatro ou seis fileiras, apesar de a domesticação do cereal ter se iniciado há 9 mil anos no México e há 5 mil anos na Amazônia ocidental”.
Para traçar rotas migratórias, o grupo “identificou similaridades entre os grupos existentes e os exemplares comparados às amostras arqueológicas de milho das raças Entrelaçado, Caingang, Avati Moroti e Lenha”.
Sobre publicação, é mencionada formalmente: “Novas interpretações publicadas na quarta-feira (4/9) na revista Science Advances (...)”. A referência completa aparece ao final: “COSTA, M. F. et al. Archaeological findings show the extent of primitive characteristics of maize in South America. Science Advances. v. 10. 4 set. 2024”.
A publicação também gerou debate científico. O arqueólogo Tiago Hermenegildo, que não participou do estudo, comenta: “Isso é algo completamente novo”. E há divergências de interpretação, como indica o texto: “Ainda não há consenso”. A fala de Hermenegildo explica: “O que os estudos genéticos afirmam é que no início da domesticação, no México, o milho tinha uma troca de genes muito mais intensa com as variantes silvestres (...). Quando chega ao Brasil, essa troca já não ocorre, apesar de ainda haver fluxo gênico com outras variedades, em um processo de domesticação secundária, e isso é reforçado pelo novo trabalho.”
Análise da pesquisa
[editar | editar código]Para esta etapa, acesse a(s) pesquisa(s) de origem, de base para o artigo na Pesquisa FAPESP, identifique e analise a seção metodológica. Em especial, explique em que medida o processo de pesquisa foi bem documentado no artigo que você selecionou. Esteja logado.
A matéria contextualiza com clareza a origem e a preservação das amostras arqueológicas: 282 espigas fragmentadas, duas inteiras e 12 grãos encontrados nos anos 1990 no vale do Peruaçu, conservados porque estavam enterrados em cestos dentro de cavernas. O critério para identificar características primitivas (espigas com menos de oito fileiras) também é bem explicado, e o texto descreve corretamente a comparação com teosinto de Harvard e com variedades modernas cultivadas por povos indígenas e agricultores tradicionais. A datação por radiocarbono, que será relevante mais à frente, é mencionada com a faixa de idades (570 a 1010 anos antes do presente).
Posto isso, como esperado no processo de “tradução” do conteúdo científico para o jornalístico (ou seja, para a apreensão de um público em sua maioria leigo a respeito da área científica da pesquisa), a matéria também omite detalhes técnicos.
Na seção de metodologia (“Methods”) do artigo são descritas as análises estatísticas específicas (coordenadas principais, clusters pelo método de Ward, índice de Gower) e todo o processamento em R com pacotes como ape, vegan e cluster.
A caracterização molecular, também detalhada, envolveu genotipagem DarTseq com marcadores SNP, sequenciamento em Illumina e critérios de filtragem que não aparecem na reportagem. Dos 14 descritores morfológicos usados na classificação de raças, o texto jornalístico focou no número de fileiras.
Uma distinção relevante é que o artigo científico esclarece que a análise molecular foi realizada nas raças nativas modernas, não nas amostras arqueológicas, cuja análise genômica é sugerida para “estudo futuro”. A reportagem afirma que os pesquisadores analisaram “morfologia e DNA” das espigas antigas, o que simplifica essa distinção.
A ausência de informações sobre análises estatísticas e softwares utilizados é compreensível do ponto de vista editorial. A maior parte dos leitores não domina esses conceitos, e a explicação detalhada exigiria espaço considerável (um “luxo” muitas vezes escasso no jornalismo) sem agregar substancialmente à narrativa central da descoberta. No geral, penso que a matéria consegue transmitir que houve comparação sistemática entre amostras arqueológicas e modernas sem entrar em tecnicismos.
Um ponto que poderia ter sido explorado é a estratégia de datação, aqui retomada. Os pesquisadores optaram por datar carvão e cocos de Guariroba (materiais presentes nos cestos onde os milhos foram encontrados) em vez do próprio milho, já que o método destrói o material analisado. Depois validaram os resultados com datação direta de duas amostras. Essa informação, que pode ser explicada de um jeito intuitivo e acessível, ilustraria como cientistas fazem escolhas práticas para equilibrar rigor e preservação de materiais raros.
Pesquisa de origem: COSTA, M. F. et al. Archaeological findings show the extent of primitive characteristics of maize in South America. Science Advances. v. 10. 4 set. 2024. Disponível em https://www.science.org/doi/full/10.1126/sciadv.adn1466
Metáfora científica
[editar | editar código]Para esta etapa, reveja o conteúdo da aula sobre "A metáfora científica". No artigo da Pesquisa FAPESP selecionado, identifique quais foram as metáforas científicas ou cientificamente inspiradas utilizadas e justifique esse uso a partir das indicações da aula. Analise em que medida contribuem ou dificultam o entendimento da ciência. Esteja logado.
A matéria utiliza poucas metáforas científicas explícitas, mas traz uma logo no título: “ondas migratórias”. No texto, a linguagem é predominantemente literal e descritiva.
No caso de “ondas migratórias” e “rota de migração”, também presente na matéria, tratam-se de metáforas já existentes no cotidiano e até mesmo na sociologia. São usadas para simplificar os processos históricos complexos de dispersão. Destaca-se uma diferença que é que, na maior parte das vezes, são relacionadas ao movimento focado em humanos, não em cultivos, o que, ao meu ver, é um ponto positivo (e interessante) para a matéria. Outras pessoas, porém, poderiam argumentar que essa metáfora “antropomorfiza” o milho, como se a planta “viajasse” autonomamente, quando na verdade são humanos que a carregam, cultivam e selecionam.
Há de ser considerado que explicar que o milho se dispersou através de múltiplos movimentos de pessoas ao longo de milênios, com trocas genéticas, adaptações locais e processos não lineares, seria muito mais complexo do que falar em “ondas” que “transportaram o grão”. As metáforas respondem à necessidade de criar uma narrativa espacial e temporal compreensível.
E, ao meu ver, tanto “onda migratória” quanto “rota de migração” ajudam a compreender que houve múltiplos movimentos ao longo do tempo, não um único evento. No caso da última, também auxilia que o leitor visualize espacialmente o movimento do cultivo. Pode atrapalhar, ainda que pouco, ao evocar a ideia de uma jornada linear, quando o movimento de cultivos é mais difuso e multidirecional.
No caso dessa matéria específica, o risco de distorção é baixo porque o texto complementa as metáforas com informações concretas sobre regiões e cronologia. Mas a metáfora ainda simplifica a complexidade dos processos de dispersão agrícola.
Retomando outras partes do módulo sobre metáforas, considero que a matéria evita bem o uso de “provar” ou “confirmar” de forma absoluta. Mesmo quando apresenta resultados, usa construções como “defendem que” ou “indica que”, mantendo abertura epistêmica.
Há uso de jargão técnico, mas o jornalista geralmente os explica e/ou contextualiza, como no caso de “endosperma farináceo”, explicado como “uma grande parte do corpo do grão, onde os nutrientes ficam armazenados”. “Teosinto” é detalhado “uma planta silvestre aparentada ao milho e considerada semelhante à sua forma ancestral”.
Filosofia da ciência
[editar | editar código]Para esta etapa, reveja o conteúdo da aula sobre "Ciência e Filosofia". Discorra sobre em que medida o artigo da Pesquisa FAPESP que você selecionou coloca questões filosóficas e apresente exemplos extraídos do texto. Esteja logado.
A matéria toca em mais de uma das dimensões filosóficas discutidas no nosso módulo, ainda que de forma implícita. O maior exemplo, ao meu ver, é o registro da ruptura com o entendimento anterior, retomando a questão da mudança de paradigma trabalhada por Kuhn. A geneticista Flaviane Costa afirma: “O artigo é disruptivo porque, até 2018, se pensava que toda a domesticação do milho havia ocorrido no México.” A frase marca a passagem de um paradigma (domesticação única no México) para outro (domesticação estratificada, com etapas secundárias na América do Sul). O texto mostra que o conhecimento científico não é cumulativo e linear, ideias consolidadas podem ser revisadas quando surgem evidências novas.
Arriscarei comparações com os outros autores. Karl Popper defende que nenhuma teoria pode ser provada de forma absoluta, ela apenas sobrevive enquanto não for refutada. Na matéria, inclui-se a voz de Tiago Hermenegildo, que apresenta uma perspectiva diferente: “Ainda não há consenso. O que os estudos genéticos afirmam é que no início da domesticação, no México, o milho tinha uma troca de genes muito mais intensa com as variantes silvestres.” A inclusão dessa ressalva mostra que os resultados não encerram o debate; corroboram hipóteses anteriores, mas não as provam de forma definitiva.
Já Latour fala da ciência como uma “rede sociotécnica”. Ignorar quem financiou a pesquisa ou quais interesses estão em jogo reforça a ilusão de neutralidade. A matéria analisada identifica os atores e instituições envolvidos na produção do conhecimento, menciona a equipe do Museu de História Natural da UFMG que coletou as amostras nos anos 1990, a curadoria atual na Embrapa, as coleções de teosinto do Museu Peabody de Harvard, as variedades modernas da USP e da Universidade da República do Uruguai.
O financiamento aparece ao final, como é de costume em materiais sobre pesquisas da Fapesp, com o número do projeto. Esses elementos situam a pesquisa dentro de uma rede de pessoas, instituições e recursos.
Por último, a noção de cultura científica de Carlos Vogt. O jornalismo é ator central porque ajuda a definir como a sociedade percebe a ciência. A matéria conecta os achados científicos a questões de conservação e política pública. Costa afirma que “a presença ao longo de milênios de variedades exclusivamente sul-americanas reforça a necessidade de políticas públicas e acordos internacionais para a conservação dessas raças nativas.”
Hermenegildo complementa: “Foi uma verdadeira erosão cultural e genética, desde os tempos da colonização.” A ciência aparece entrelaçada com história, especialmente com a cultura indígena e originária, além de entrelaçada à decisões políticas sobre patrimônio genético.
Próximos passos
[editar | editar código]Após concluir a atividade, clique no botão abaixo para incluí-la na listagem do módulo.