Introdução ao Jornalismo Científico/Modos de Organização e Financiamento dos Sistemas de Pesquisa, no Brasil e no Exterior/Panorama mundial dos investimentos em pesquisa e desenvolvimento
Panorama mundial dos investimentos em pesquisa e desenvolvimento
Uma das formas mais usadas para medir esse esforço é acompanhar os gastos em pesquisa e desenvolvimento (P&D). Essa categoria segue um padrão internacional chamado Manual de Frascati, adotado pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) e pela Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE). Ele serve como uma espécie de “receita” para padronizar a coleta de dados e facilitar a comparação entre os países.
No Brasil, que ainda está em processo de adesão à OCDE, esse padrão ainda não é seguido totalmente, mas a estrutura já existe. Além das atividades de P&D, também são consideradas as chamadas atividades científicas e técnicas correlatas (ACTC) — como museus, bibliotecas científicas, jardins botânicos e ações de divulgação. Elas não envolvem pesquisa direta, mas são fundamentais para que a ciência aconteça e chegue até a população.
Essas práticas todas fazem parte dos chamados sistemas nacionais de pesquisa — um conjunto de políticas públicas, instituições, pessoas e valores que sustentam a produção científica em cada país. No Brasil, o setor público é quem lidera esse processo. Universidades federais e estaduais, institutos de pesquisa e agências como o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) e as Fundações de Amparo à Pesquisa (FAPs) dos estados formam o núcleo desse sistema.
Já em países como os Estados Unidos ou a Coreia do Sul, quem puxa os investimentos é o setor privado. Isso muda muita coisa: em geral, onde o setor privado é mais ativo, os investimentos tendem a ser maiores — e também mais direcionados para áreas ligadas ao mercado.
Investimentos e desafios no Brasil
Nem sempre os países que mais investem em ciência são os que mais se esforçam, proporcionalmente falando. Por isso, quando se analisa o investimento em P&D, é comum olhar os dados por dois ângulos diferentes e complementares: o volume total investido e o percentual do Produto Interno Bruto (PIB) que cada país destina à área. Cada um desses recortes mostra um tipo de protagonismo.
Total investido: aqui entram as grandes potências econômicas, que naturalmente têm mais recursos. Estados Unidos, China, Japão, Alemanha, França, Reino Unido, Índia, Rússia, Taiwan e Coreia do Sul concentram a maior parte dos mais de 2,7 trilhões de dólares aplicados em ciência no mundo em 2023. São países que lideram o cenário global por seu peso financeiro absoluto.
Investimento proporcional ao tamanho da economia: nesse ranking, o destaque vai para países que priorizam a ciência dentro do seu orçamento. Israel e Coreia do Sul aparecem no topo, com mais de 4% do PIB voltado para pesquisa científica. Mesmo com economias menores, Suécia, Suíça, Áustria e Finlândia também chamam atenção pelo esforço proporcional.
O gráfico a seguir mostra os 10 países que mais investem em P&D proporcionalmente ao PIB, incluindo o Brasil para efeito de comparação:

Os dados foram reunidos por organismos internacionais como a Organização Mundial da Propriedade Intelectual (WIPO) e a ReportLinker. O Brasil aparece com cerca de 1,14% do PIB investido em P&D, enquanto países como Israel e Coreia do Sul ultrapassam a marca de 4%.
No caso do Brasil, os dados mostrados no gráfico são estimativas de organismos internacionais. Os números oficiais mais recentes, segundo dados divulgados pela Revista Pesquisa FAPESP, apontam que o investimento brasileiro em P&D tem girado em torno de 1,14% do PIB. O valor consolidado mais recente é de 2020, e ainda não há publicação oficial do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) com o percentual exato referente a 2023. A maior parte desse valor vem do setor público, especialmente de universidades e institutos federais. O investimento do setor privado ainda está bem abaixo do ideal, principalmente quando comparamos com países que têm sistemas de inovação mais avançados, como Israel ou Coreia do Sul.
No nível federal, o financiamento à CT&I é coordenado principalmente pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI). Mas outras pastas, como os ministérios da Educação, da Saúde, da Agricultura e da Defesa, também investem em pesquisa nas suas áreas específicas. Nos estados, esse papel fica por conta das Fundações de Amparo à Pesquisa, que variam bastante em estrutura e alcance.
Desde o início dos anos 2000, o Brasil traçou a meta de investir 2% do PIB em ciência e tecnologia. Essa meta, como mostram os dados, nunca foi atingida. Em 2023, no entanto, foi lançada uma nova Estratégia Nacional de CT&I (para o período de 2023 a 2030), a partir da publicação da Portaria MCTI nº 6.998. O foco é ampliar o uso do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT) com mais transparência, fortalecer a inovação tecnológica e incentivar práticas como a ciência aberta.
Um dado importante ajuda a entender o perfil da ciência brasileira: mais de 95% da produção científica do país ocorre dentro de universidades públicas, segundo a Universidade Federal do Pará (UFPA). Isso reforça o papel central dessas instituições, mas também revela um desequilíbrio: o setor privado tem participação muito pequena na pesquisa científica.
Em países como os Estados Unidos ou a Suíça, boa parte dos pesquisadores atua em empresas, o que acelera a transformação do conhecimento em soluções aplicadas, produtos ou inovações tecnológicas. No Brasil, essa conexão entre ciência e mercado ainda é frágil, o que limita o alcance prático de muitos estudos e ajuda a explicar por que o investimento privado na área segue abaixo do necessário.
Mesmo com todos os obstáculos, o investimento em ciência é uma condição básica para o desenvolvimento com soberania. Compreender como esses sistemas funcionam ajuda a pensar criticamente o papel da ciência na sociedade — e o que queremos dela no presente e no futuro.
Referências
- Agência Gov. Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação celebra 40 anos impulsionando o desenvolvimento do Brasil. Disponível em: https://agenciagov.ebc.com.br/noticias/202503/ministerio-da-ciencia-tecnologia-e-inovacao-celebra-40-anos-impulsionando-o-desenvolvimento-do-brasil
- Jornal da Unicamp. Ciência e tecnologia: a urgência de um compromisso do setor privado. Publicado em 29 abr. 2025. Disponível em: https://jornal.unicamp.br/artigo/2025/04/29/ciencia-e-tecnologia-a-urgencia-de-um-compromisso-do-setor-privado/
- Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI). Portaria MCTI nº 6.998, de 10/05/2023. Disponível em: https://antigo.mctic.gov.br/mctic/opencms/legislacao/portarias/Portaria_MCTI_n_6998_de_10052023.html
- ReportLinker. Dataset – Gasto por país em CT&I. Disponível em: https://www.reportlinker.com/dataset/e2e5613dceaeefee97b1fff30458b38727399a92
- ReportLinker. Dataset – P&D Global. Disponível em: https://www.reportlinker.com/dataset/7151bdaba576b858f2c92144ed32fef43692467e
- Revista Pesquisa FAPESP. Indicadores mostram queda em atividades de pesquisa e desenvolvimento em 2020. Disponível em: https://revistapesquisa.fapesp.br/indicadores-mostram-queda-em-atividades-de-pesquisa-e-desenvolvimento-em-2020/
- Universidade Federal do Pará (UFPA). Universidades públicas realizam mais de 95% da ciência no Brasil. Disponível em: https://ufpa.br/universidades-publicas-realizam-mais-de-95-da-ciencia-no-brasil/
- WIPO (Organização Mundial da Propriedade Intelectual). Global Innovation Index – End of Year Edition, 2024. Disponível em: https://www.wipo.int/web/global-innovation-index/w/blogs/2024/end-of-year-edition
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