Introdução ao Jornalismo Científico/Modos de Organização e Financiamento dos Sistemas de Pesquisa, no Brasil e no Exterior/Pesquisadores: quem são, onde trabalham e quais as áreas de atuação
Pesquisadores: quem são, onde trabalham e quais as áreas de atuação
Nos últimos anos, o número de pesquisadores no Brasil tem crescido. De acordo com dados de 2023 do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), saltamos de cerca de 200 mil em 2016 para quase 250 mil em 2023. Mais da metade são mulheres. Mas, ao contrário do que esses números podem sugerir, a distribuição desses pesquisadores não é homogênea. E, infelizmente, a desigualdade é regra, não exceção.
A maioria dos pesquisadores e grupos de pesquisa está concentrada nas regiões Sudeste e Sul do país, com o Sudeste mantendo a liderança absoluta na quantidade de pesquisadores ativos, superando em muito outras regiões. Conforme o Censo do Diretório de Grupos de Pesquisa (DGP) do CNPq de 2023, as regiões Norte e Centro-Oeste contam com uma parcela muito menor desses pesquisadores, resultando em uma concentração desigual da produção científica nacional. Essa disparidade afeta diretamente a capacidade dessas regiões menos representadas de desenvolver e aplicar conhecimentos contextualizados às suas realidades socioculturais e desafios específicos. Por isso, ainda que a interiorização da ciência seja uma pauta urgente, na prática ela permanece limitada e desafiadora.
Essas desigualdades também se apresentam em dimensões de gênero, raça e classe. Mulheres são maioria entre bolsistas de iniciação científica e pós-graduação, mas ainda ocupam menos cargos de liderança e recebem menos bolsas de produtividade (CNPq, 2022). Quando o recorte é racial, o abismo é ainda maior: apenas 18% dos bolsistas do CNPq se autodeclaram negros ou pardos, e menos de 1% são indígenas (SBPC, 2023). A sub-representação escancara o fato de que o sistema ainda funciona para poucos – e exclui muitos.
Um outro agravante marca a instabilidade da trajetória científica no Brasil. A maior parte dos pesquisadores em início de carreira depende de bolsas temporárias, sem vínculo empregatício ou direitos trabalhistas, que ficaram congeladas por quase dez anos e que só vieram a ser reajustadas em 2023, após uma década de defasagem. Esse cenário gera incertezas e dificulta o planejamento a longo prazo na pesquisa.
Não à toa, muitos cientistas brasileiros têm buscado oportunidades fora do país. De acordo com estudos recentes citados pela Agência Brasil, estima-se que cerca de 6,7 mil pesquisadores deixaram o Brasil entre 2015 e 2022 em busca de melhores condições para trabalhar e desenvolver ciência. Chama-se isso de fuga de cérebros, mas raramente nos perguntamos que tipo de solo estamos oferecendo para que eles cresçam aqui.
Essas dificuldades materiais convivem com pressões simbólicas. A lógica do “publish or perish” (publicar ou perecer) intensifica a competitividade, compromete a saúde mental e desestimula pesquisas de longo prazo ou que desafiem consensos. Vale ressaltar que o ambiente acadêmico tem altos índices de assédio moral e sofrimento psicológico, principalmente entre mulheres e pessoas racializadas. O desalento se torna parte do cotidiano de muitos jovens cientistas, que não veem perspectivas sustentáveis para sua trajetória.
Dar rosto à ciência: o papel do jornalismo científico
Não se trata apenas de números. Cada dado revela histórias e o jornalismo científico pode (e deve) ser o fio condutor dessas narrativas. Não basta celebrar descobertas; é preciso mostrar as condições em que elas ocorrem. Revelar o pesquisador que sustenta o experimento com recursos próprios. Contar a história da doutoranda que enfrenta jornadas triplas para manter sua pesquisa viva. Dar rosto e voz a essas pessoas é humanizar a ciência – e disputar com a imagem fria, estereotipada e distante do “cientista neutro”.
A mídia tem papel central nisso. Quando reforça estereótipo, como o gênio branco, masculino e de jaleco, silencia outras formas de produzir conhecimento. E, pior, ajuda a alimentar a ideia de que ciência é algo distante da realidade da maioria da população. Mas o jornalismo que se compromete com a democratização da ciência pode inverter essa lógica. Pode mostrar que o pesquisador também sente, luta, desiste, volta. Que a ciência se faz com gente, com contradições, com contextos.
As áreas de pesquisa mais financiadas no Brasil, hoje, são aquelas ligadas à inovação tecnológica, agronegócio, energia e saúde aplicada, com foco nos setores econômicos estratégicos. Isso é legítimo, mas o desequilíbrio aparece quando a ciência básica, as humanidades e os estudos críticos enfrentam desfinanciamento crônico. As humanidades acabam sendo tratadas como secundárias frente às áreas tecnológicas e exatas, o que se reflete na menor distribuição de recursos e reconhecimento institucional. Essa desvalorização decorre não só das decisões de fomento, mas também de discursos políticos e sociais que privilegiam uma visão utilitarista e imediatista da ciência, deixando de lado campos essenciais para a compreensão crítica da sociedade, a formação cidadã e o debate ético. Como consequência, temas ligados à cultura, história, filosofia e estudos sociais recebem menos espaço e apoio, limitando a capacidade do país de refletir sobre si mesmo e enfrentar seus desafios sociais de forma profunda e consistente.
Essa assimetria de investimento não impacta apenas estruturas, mas define também os limites do que pode ser pesquisado e valorizado. Ao falar sobre quem pesquisa, também estamos discutindo o que é possível pesquisar. Quando certas vozes são excluídas, determinados temas deixam de existir no debate público e nas agendas de financiamento. Por isso, falar dos rostos da ciência é também lutar por uma ciência mais justa, mais plural e mais conectada com as urgências do país. E é justamente nesse ponto que o jornalismo científico se torna uma ferramenta de transformação.
Referências
- AGÊNCIA BRASIL. Fuga de cérebros: diáspora de cientistas brasileiros. Brasília: EBC, 04 abr. 2023. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2023-04/fuga-de-cerebros-diaspora-de-cientistas-brasileiros. Acesso em: 06 ago. 2025.4
- AGÊNCIA GOV. Mulheres já são maioria nas bolsas de mestrado e doutorado, mas ocupam apenas 35,5% das bolsas de produtividade. Brasília: Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República, 20 fev. 2025. Disponível em: https://agenciagov.ebc.com.br/noticias/202502/mulheres-ja-sao-maioria-nas-bolsas-de-mestrado-e-doutorado-mas-ocupam-apenas-35-5-das-bolsas-de-produtividade. Acesso em: 06 ago. 2025.
- ABPN – ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE PESQUISADORES(AS) NEGROS(AS). Dados do CNPq apontam para desigualdades de gênero e raça em bolsas de pesquisa. 2023. Disponível em: https://abpn.org.br/dados-do-cnpq-apontam-para-desigualdades-de-genero-e-raca-em-bolsas-de-pesquisa/. Acesso em: 06 ago. 2025.
- CNPq – CONSELHO NACIONAL DE DESENVOLVIMENTO CIENTÍFICO E TECNOLÓGICO. Levantamentos mostram ampliação e diversificação de temas de interesse de pesquisadores no Brasil. Brasília: CNPq, 2023. Disponível em: https://www.gov.br/cnpq/pt-br/assuntos/noticias/destaque-em-cti/levantamentos-mostram-ampliacao-e-diversificacao-de-temas-de-interesse-de-pesquisadores-no-brasil. Acesso em: 06 ago. 2025.
- FIOCRUZ – FUNDAÇÃO OSWALDO CRUZ. Assédio sexual e moral no trabalho: enfrentamento e prevenção nas instituições de ciência e tecnologia. Rio de Janeiro: Fiocruz, 2022. Disponível em: https://portal.fiocruz.br. Acesso em: 06 ago. 2025.
- SBPC – SOCIEDADE BRASILEIRA PARA O PROGRESSO DA CIÊNCIA. O árduo caminho das meninas e mulheres na ciência. São Paulo: SBPC, 2023. Disponível em: https://portal.sbpcnet.org.br/noticias/o-arduo-caminho-das-meninas-e-mulheres-na-ciencia/. Acesso em: 06 ago. 2025.
- USP. Ciências humanas também são ciência. Jornal do Campus, São Paulo, 12 dez. 2022. Disponível em: https://www.jornaldocampus.usp.br/index.php/2022/12/ciencias-humanas-tambem-sao-ciencia/. Acesso em: 06 ago. 2025.
- REVISTA ESQUINAS. Ciências humanas em universidades públicas no Brasil: projeto fadado ao fracasso? São Paulo: Cásper Líbero, 07 ago. 2023. Disponível em: https://revistaesquinas.casperlibero.edu.br/educacao/ciencias-humanas-em-universidades-publicas-no-brasil-projeto-fadado-ao-fracasso/. Acesso em: 06 ago. 2025.
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