Jornalismo Básico 2: reportagens especiais/Reportagens do JOB/Carolina Moraes e Victoria Franco

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Páginas gastas

Sebos-livrarias do centro de São Paulo e a experiência singular contida em cada livro usado

Por Carolina Moraes e Victoria Franco

Na rua Barão de Itapetininga, paramos em frente a um desses edifícios que vivem encostados uns nos outros. Solidários, se apertam ao máximo para caber mais um. Espaço não há. Há muita gente. Calor, ar abafado, barulhos. Vemos um mural que recebe o cartaz da Livraria Antiquária Calil. Escolhemos sentir cheiro de livro. Não daqueles embalados por um plástico na Saraiva, que fica a alguns metros à frente. De livro usado, antigo, com páginas que denunciam a ação do tempo. Tempo que fez um acordo com Maristela Calil e age delicadamente sobre seu acervo. Subimos ao nono andar do edifício e avistamos milhares de obras. Mais de 300 mil, segundo Maristela, herdeira do bibliófilo Líbano Calil, que fundou o espaço em 1949.

A obra mais antiga é de 1550 e vale milhões de euros. É escrita para poucos, feita para ser lida por poucos, como acontece com muitas produções literárias. Mas certamente arranca espirros de qualquer um. Os mais baratos custam 1 ou 2 reais. A administradora do sebo, acompanhada de seu filho, puxa duas cadeiras e nos oferece alguns minutos de conversa. “Perceberam que aqui é um ambiente diferenciado, meninas? Não é uma livraria popular.” diz Maristela exalando um orgulho caro a quem está inserida em uma tradição familiar. Com brilho nos olhos, a herdeira se refere ao pai como alguém muito estudioso, culto, beirando o genial. O retrato dele destacado na parede mostra um homem branco cheirando a cigarro, motivo pelo qual a filha diz que ele tenha morrido jovem. Maristela deixa claro que a meta não é vender agressivamente, porque cada amontoado de letras e papel que veste aquelas estantes compridas de madeira já está pago. Ela quer mesmo é preservar; e ela o faz como se, fazendo-o, preservasse e cuidasse da vida de seu próprio pai, morto.

Já na Rua Xavier de Toledo, 250 mil livros usados foram encaminhados às prateleiras do Sebo-livraria Brandão, onde áreas diversas de conhecimento são contempladas. Os livros empilhados aparentam certa desordem, mas uma separação temática devidamente feita esclarece a confusão. No primeiro andar, títulos didáticos de ciências humanas e sociais, exatas e biológicas, e enciclopédias preenchem as prateleiras metálicas. No segundo e terceiro andares, literatura estrangeira e nacional se encontram para preencher os corredores prontos para quem gosta de garimpar títulos horas a fio.

Livro-experiência

O poeta francês Charles Baudalaire criou um termo para se referir àquele que caminha por ruas experimentando e fruindo das experiências corporais-sinestésicas que tomavam conta da nova estrutura das cidades do século XIX — o flanêur. Da junção dessa palavra com “arte” origina-se o nome da livraria Flanarte, um reduto de livros de ciências humanas, literatura e — claro — arte.

O sebo, no meio ao comércio agitado da Rua 7 de abril, possui mais de 80 mil títulos de cinema, teatro, filosofia, história, literatura — e tantas outras áreas das ciências humanas. Os corredores e prateleiras são caminhos ideais para quem deseja desvendar histórias de uma ótica que se afasta da observação comum. Quem está disposto, depara-se com Borges, Woolf, Janson. Encontra-se, também, com Bukowski — e outros escritores denominados malditos — na sessão “à margem”. São edições raras, livros não reeditados, que ganham vida no andar térreo do edifício 264. É nesta perspectiva do trabalho do livreiro como arte que flanar através dos títulos tornou-se uma prioridade: o livro usado é, por si só, uma experiência.

Os livros no centro de São Paulo, outrora novos, contam mais do que a história de quem o escreveu. Revelam os grifos de um estudante antes da prova, desnudam as inquietações de um leitor apaixonado. Cada página abriga essa imensidão — e mantém-se viva para o próximo flanêur.