Jornalismo Básico 2: reportagens especiais/Reportagens do JOB/Giovanna Bronze

Fonte: Wikiversidade
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O Deslumbre em Várias Formas[editar | editar código-fonte]

A região da Liberdade é um dos marcos turísticos mais bonitos de São Paulo, ainda mais por mostrar um dos lados que faz a cidade tão multicultural quanto ela é. As ruas, adornadas por lamparinas que pendem de postes vermelhos, estão sempre cheias das mais diversas pessoas, que chegam dos mais diversos caminhos; é de estranhar, senão espantar-se, ao se deparar com a praça da Liberdade com apenas alguns poucos visitantes. O ar que é possível sair após deixar a estação de metrô é calmo e preguiçoso, característico das manhãs de São Paulo, mas que não condizem com o espirito pulsante da cidade.  

O bairro, que se firmou como ponto cultural com a imigração de japoneses por volta de 1912, é conhecido por seus estabelecimentos que remetem à cultura oriental. Para chegar à Casa de Velas Santa Rita é difícil se perder, apenas virar à direita após sair da estação na praça Liberdade. No caminho, confirma-se novamente a hegemonia de São Paulo: o caminho até a loja é formado por restaurantes, lojas, um edifício que reside aulas de kung fu e curso de cabeleireiro e o Colégio Brasileiro de Acupuntura, até finalmente encontrar a casa de velas.

A primeira coisa que se nota ao entrar na loja é o cheiro forte de incenso, mas conforme se acostuma, ele deixa de incomodar e se torna agradável. Logo ao passar pela porta, ao lado da qual um quadro em prata majestoso de São Jorge pende, há uma pilha com velas brancas e grossas, mas elas não são nem sombra do que realmente dá o nome da casa. Mais para dentro, há velas de diferentes cores, tamanhos e grossuras; mas antes, há uma parede coberta de caixas dos culpados pelo aroma – os próprios incensos, sabonetes coloridos e artigos diversos. Uma prateleira com figuras de Orixás está um pouco a cima, denunciando que está é a parte dedicada à Umbanda da loja. Os itens em exposição com etiquetas de preço pendendo deles são alguns dos artefatos mais deslumbrantes que se poderia encontrar: ferramentas e espadas feitas em cobre a alumínio, artigos para rituais da umbanda e do candomblé, louças feitas de barro, livros de todas as crenças imagináveis e muito mais. A lista continua ao subir ao segundo andar dessa parte da loja, o qual apresenta prateleiras e prateleiras de esculturas de orixás, ciganos, símbolos da cultura indígena norte-americana e outras figuras religiosas. Roupas coloridas e utilizadas para cerimonias também se encontram à venda em araras, juntamente com tambores e chinelos.

No lado católico, há o mesmo quadro de São Jorge pendurado na parede junto à porta, mas abaixo dele há dois crucifixos grandes feitos de madeira. O que coloria o outro salão proveniente das esculturas e incensos agora vinha das velas que se estendiam pela parede. Figuras familiares da fé católica ficam expostas, mas passam despercebidas aos olhos que já estão acostumados com esses símbolos. O que de fato chama atenção é um espaço dedicado a utensílios para a fé oriental, apresentado estátuas hindus e de outras religiões, até mesmo de antiga crença egípcia. Há um pequeno corredor com figuras em gesso branco de Ganesha e Buda, além de outras figuras com as quais muitas pessoas não tem contato, mas que são conhecidas nas bocas dos mais estudados dos respectivos assuntos.

Mas a loja nem sempre foi dedicada a esses artigos. A inclinação à religiosidade veio quando o leite, que era vendido lá, começou a ser usado para a fabricação de velas há cerca de 84 anos atrás. Pela proximidade com uma igreja (logo na esquina), era esperado que uma associação com a fé se criasse. Porém com expansão da umbanda (que é a junção das fés espirita e candomblecista) nos anos 60, o outro salão da casa passou a vender artigos para o candomblé e sua adaptação brasileira, o que resultou num público misto e eclético, como conta a vendedora Michelle, que trabalha na loja há 23 anos.  Embora os visitantes sejam predominantemente católicos, diz ela, começa a ter um fluxo maior de candomblecistas e umbandistas, mas ainda com uma quantidade significativa católica, pois o católico se permite praticar outras religiões além da sua própria.

Por disponibilizar itens de tantas crenças diferentes, a quantidade de pessoas que visita a loja durante a semana é tremenda. “Isso faz com que tenha momentos interessantes e conheça pessoas bacanas”, continua Michelle. “Tem um fluxo grande de artistas. E [por exemplo], no setor de candomblé, padres e freiras que vem e ficam passeando deslumbrados com os artigos. E o pessoal fica deslumbrado com esse espaço que pra eles seria um espaço profano. ” O deslumbramento não vem apenas dos artigos expostos, mas também pode-se ser sentido ao ouvir a percepção de religião da mulher de cabelos castanhos que está atrás do balcão e sorri com o canto da boca quando fala sobre as crenças, ao se declarar uma apreciadora das mesmas e da cultura. “A gente come, a gente bebe, a gente dança, a gente veste, a gente se comporta religião. E como eu tenho aqui esse acesso de lidar com essa manifestação, isso me deixa muito feliz. Essa curiosidade que eu tenho, que me desperta de entender o que quer dizer isso, o porque de usarem isso, e a questão do comportamento humano; isso me faz realmente ter um prazer a mais. E as relações com religiões estão geralmente ligadas com manifestações de natureza, que é outra coisa prazerosa para estudar, pra se levar a sério.”

Percebe-se então que, apesar d’A Casa de Velas Santa Rita ser conhecida por dividir espaço entre umbanda e catolicismo, ela mantém-se aberta à todas as religiões e agrega umas às outras, abraçando todas as fés que batem à sua porta. É quase possível sentir essa áurea envolvente que serpenteia entre os dois salões, ficando mais intensa conforme se passa mais tempo dentro da loja, observando os rostos que procuram coisas tão diferentes quanto suas feições. As crenças tão diferentes entre si harmonizam dentro da casa de velas, mostrando que há acolhimento para todos em uma cidade tão multicultural como é São Paulo.