Jornalismo Básico 2: reportagens especiais/Reportagens do JOB/João Pedro Siqueira e Fernando Lucarevschi

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Dormir, limpar e vender - perspectivas acerca da praça Ragueb Chohfi[editar | editar código-fonte]

O começo da manhã na praça Ragueb Chohfi não é dos mais confortáveis. Por conta de sua localização e estado de conservação, muitas das pessoas que dormem por ali não acordam da melhor maneira possível. O sol, que invade os olhos dos muitos que ainda querem dormir mais um pouco, trata de iluminar todo e qualquer canto possível desse local. Nem mesmo embaixo das árvores é possível pedir mais cinco minutinhos. O calor da manhã entra por debaixo das colchas cinzas desbotadas e se mete dentro das várias camadas de roupas que aqueciam os corpos adormecidos durante a noite no centro de São Paulo.

Os que tentam batalhar contra o calor da manhã se viram de um lado para o outro deitados nos bancos da praça. Suas costelas são esmagadas pelas cristas de onda de pedra dos bancos. Outros, que possuem mantas que mais parecem colchas de retalhos, desistem de travar a batalha matutina e se levantam, separam roupas para serem lavadas em um balde e preparam-se para mais um dia.

As muitas folhas secas espalhadas pelo chão começam a levantar voo. Algumas delas, no entanto, não participam da festa. Estão amontoadas em cantos estratégicos, para que depois possam ser recolhidas e despejadas. A responsável por agrupar as folhas contra o vento, e manter o local limpo na medida do possível, é Efigênia Maria da Silva. Contratada pela prefeitura para fazer a limpeza do local sem a ajuda de mais ninguém, a mineira de 62 anos de idade diz gostar muito do seu trabalho. “Eu limparia essa praça todinha se eu pudesse” diz ela pouco antes de lamentar a dor no calcanhar, causada pelo sapato apertado.

Efigênia é a típica mulher trabalhadora brasileira. Mãe de dois filhos, levanta todos os dias às quatro horas da manhã, prepara o café, toma o remédio para controlar a pressão alta e sai de casa correndo. Chega à praça por volta das seis horas e começa seu trabalho. Quando a fome volta a bater, lá pelas nove horas, ela vai ao banheiro lavar as mãos e corre até a barraca do pão de queijo para tomar mais um café e comer um salgado.

Além de falar rápido, resquício da infância em Minas Gerais, Efigênia não para quieta. Anda para lá e para cá com sua vassoura e seu carrinho. São muitas folhas secas e muito lixo em seu caminho. Muito a ser varrido. De todo modo, ela ama o que faz. Tem orgulho dos resultados de seu árduo trabalho e gostaria que todos cuidassem da praça da mesma maneira que ela faz. Ainda tem esperanças do dia em que a prefeitura decida revitalizar sua paixão em forma de praça.

Se, por um lado, há todo esse otimismo de dona Efigênia, por outro temos o pessimismo ácido do casal paulistano de donos da banca de jornal 25 de março, na entrada da praça. Caminhando para seu nono ano no local, eles são completamente discrentes de qualquer mudança relevante por ali. “Todo prefeito fala que vai revitalizar o centro, mas a única coisa que muda aqui é o número de mendigos”, afirmam, juntos, completando as frases um do outro.

Eles afirmam, ainda, que em todo o tempo em que trabalham ali nada foi feito para melhorar a praça. Um exemplo é o monumento da amizade Sírio-libanesa, grande estátua que fica na praça e ponto de referência da região. Há mais de nove anos que sua placa de identificação, em bronze, foi roubada e nunca substituída.

Outro exemplo ocorreu há uns anos, quando tentaram colocar um cesto de lixo próprio em frente à banca de jornal. Algumas horas depois, a prefeitura pediu para que retirassem o cesto dali. “Jogamos o lixo na sarjeta e ninguém se importou”, acusaram, no mesmo tom ácido.

Independente de tudo isso, a praça continua ali, imóvel. À noite, o mesmo ritual é repetido, com a chegada de pessoas em situação de rua prontas para seu descanso e a saída dos trabalhadores de volta para suas casas. Assim fica a praça, à espera do sol da manhã seguinte.