Ir para o conteúdo

Memória, Resistência e Música no Período da Ditadura Militar: Uma História de Vida

De Wikiversidade

Introdução

Este relatório apresenta os resultados de uma pesquisa realizada por meio de uma entrevista com Cleunice Batista de Barros, testemunha viva do período da Ditadura Militar no Brasil. O estudo visa compreender como a memória e a música agem como instrumentos de resistência e preservação da identidade em situações limite.

O estudo aborda a reflexão teórica de Michael Pollak, que entende a memória não como simples registro do passado, mas como uma reconstrução contínua, atravessada por esquecimentos, silêncios e conflitos. Para Pollak, a memória individual e coletiva se moldam às necessidades do presente, funcionando como uma ferramenta de resistência e pertencimento social (Pollak, 1989).

Objetivo

O objetivo desta pesquisa é analisar, por meio da história de vida de Cleunice Batista de Barros, a construção da memória e o papel da música como formas de resistência durante a Ditadura Militar.

Objetivos específicos:

   Investigar relatos de violência, abuso e repressão sofridos pela entrevistada
   Compreender a função da música como resistência cultural e política
   Refletir sobre a memória como instrumento de transmissão de experiências e identidade entre gerações

Desenvolvimento

Contexto do início da vida

Cleunice nasceu em 1957, sete anos antes do início da Ditadura Militar, na linha do trem do bairro de São Miguel Paulista, fruto do romance de seus pais, ambos legalmente casados com outras pessoas.

   "Eu nasci na linha do trem, por conta do romance do meu pai e da minha mãe. Meu pai era negro, minha mãe portuguesa. Fugiram pra me ter." – Cleunice Batista de Barros

Infância durante a Ditadura

O período era marcado pelo medo e vigilância constante. Após o AI-5 (1968), soldados eram presença frequente nas escolas e na vida cotidiana. Cleunice lembra da mudança da família de Cubatão para o ABC Paulista em busca de melhores oportunidades e segurança, após o pai dela agredir fisicamente o governador do estado da época, Ademar de Barros. Abuso por parte do Exército

Ainda criança, precisou trabalhar devido à escassez de alimentos. Em um episódio traumático, sofreu abuso físico durante uma vacinação forçada, evidenciando a violência exercida sobre corpos vulneráveis durante o regime.

   "Um deles meteu a mão no meu vestido e abriu. Eu fiquei nua. [...] Se aquele coronel não tivesse aparecido, eles teriam feito coisa pior comigo." – Cleunice Batista de Barros

Censura e resistência cultural

A entrevistada relata episódios de censura em práticas religiosas, na televisão e em conversas cotidianas. Ao mesmo tempo, a música se apresentava como uma forma de resistência e esperança.

   "Eu adorava os festivais da canção… Geraldo Vandré, Chico Buarque, Gil, Caetano, Elis Regina. A música mostrava sem violência que o povo brasileiro sabia muito bem o que fazia." – Cleunice Batista de Barros

Concretização política e enfrentamento

Cleunice destaca o valor da educação e da consciência política como formas de resistência, inclusive entre jovens estudantes.

   "As pessoas de hoje em dia não fazem ideia da merda que é uma ditadura. [...] Eu acho engraçado quando falam em voltar com a ditadura. Eles não sabem o que estão pedindo." – Cleunice Batista

Reflexão geracional e valor da memória viva

A entrevistada compara a consciência política de sua geração com a alienação atual, reforçando que a memória é ferramenta de resistência contra o esquecimento.

   "Eu lutei pra que as coisas fossem como são, e agora querem voltar pra trás. [...] O povo precisa entender o poder que tem com o voto e com o estudo." – Cleunice Batista de Barros

Relação com Pollak

O relato de Cleunice exemplifica o conceito de Pollak sobre o “não-dito”, lembranças dolorosas ou censuradas socialmente que, ao serem compartilhadas, recriam o sentido do vivido. O trauma, a resistência e a memória transmitida entre gerações demonstram o caráter político da memória. Conclusão

A entrevista revela que a memória é viva, afetiva e política. A música, a dor e as histórias de amor dão novo significado ao passado e explicam acontecimentos presentes, reafirmando identidade e resistência.

Concordando com Pollak, o ato de lembrar se torna um gesto de combate ao esquecimento e preservação histórica. Cleunice representa a memória das mulheres pobres e trabalhadoras, mostrando dimensões do período da Ditadura Militar que a história oficial tentou apagar.

Bibliografia

POLLAK, Michael. Memória e identidade social. Revista Estudos Históricos, Rio de Janeiro, v. 5, n. 10, p. 200-212, jul. 1992. Disponível em: https://periodicos.fgv.br/reh/article/view/1941/1080. Acesso em: 03 de Novembro de 2025

BARROS, Cleunice Batista de. Entrevista sobre memória e música durante a Ditadura Militar. Entrevista concedida a Alissa Dias Praça. São Paulo, 5 nov. 2025. [Gravação em áudio, 35 min]. Link: https://drive.google.com/file/d/1pOmVElRyr8uqxvi7gan1ZRWV85y95Sb8/view?usp=drivesdk

Comentário sobre dificuldades encontradas'

   Fase inicial – Organização do grupo:*

A dificuldade inicial consistiu em alinhar horários e definir responsabilidades de forma equilibrada, garantindo a participação de todos.

Houve uma cisão no grupo original, resultando na formação de dois grupos distintos. A divisão ocorreu por divergências pessoais.

   Fase intermediária – Distribuição de tarefas e escolha do método:*

Durante a execução, surgiram desafios na escolha do método de coleta, pois era necessário adaptar a entrevista ao perfil da entrevistada, permitindo que expressasse suas memórias espontaneamente e sem constrangimentos.

   Fase final – Apresentação dos resultados e apreciação do projeto:*

Na fase final, o desafio foi organizar e integrar os relatos da entrevista com a fundamentação teórica de Pollak, equilibrando narrativa, análise e interpretação crítica.

   Sugestões para aprimoramento do projeto:*

Planejar reuniões de acompanhamento regulares Preparar roteiros flexíveis para entrevistas, garantindo liberdade de expressão Utilizar ferramentas digitais para organização e análise de dados