Ir para o conteúdo

Memória e Política: Transformações no Cenário Político Brasileiro (2016-2018) - Abia Crivelli, Carolina Fischer, Luiz Gustavo Cardoso de Souza, Marina Bueno Otoboni e Sara Gabrielly Monteiro Baraldi (Noturno)

De Wikiversidade

MEMÓRIA E POLÍTICA: TRANSFORMAÇÕES NO CENÁRIO POLÍTICO BRASILEIRO (2016-2018)


  Abia Crivelli 241060184
  Marina Bueno Otoboni 241061199
  Carolina Fischer 241060966
  Luiz Gustavo Cardoso de Souza
  241062721
  Sara G. Monteiro 241063531


LOCAIS DE PESQUISA

  As pesquisas foram realizadas na Universidade Estadual Paulista (UNESP), em residências particulares e proximidades, além de ambientes virtuais.
  O grupo também utilizou fontes bibliográficas, jornalísticas e jurídicas, articulando pesquisa de campo e documental.

INTRODUÇÃO

  Entre os anos de 2016 e 2018, o Brasil viveu um dos períodos mais conturbados de sua história recente. O impeachment de Dilma Rousseff, a crise de legitimidade do governo de Michel Temer e a ascensão de Jair Bolsonaro transformaram o cenário político e social do país. Esses eventos não apenas reconfiguraram as forças partidárias, mas também alteraram a maneira como a sociedade passou a compreender a política, as instituições e a própria democracia.
  O processo de impeachment, marcado por controvérsias jurídicas e intensos embates ideológicos, expôs uma profunda divisão na sociedade brasileira. O discurso de combate à corrupção, amplamente disseminado pela mídia e potencializado pelas redes sociais, consolidou um ambiente de desconfiança e descrédito nas instituições públicas. Ao mesmo tempo, a narrativa de golpe parlamentar, defendida por parte da esquerda, alimentou sentimentos de injustiça e resistência, ampliando a polarização política.
  Durante o governo Temer, a instabilidade se manteve. Reformas impopulares, como a trabalhista e a do teto de gastos, provocaram reações sociais intensas, revelando um país fragmentado entre a necessidade de estabilidade econômica e o desgaste com a classe política. Esse período também assistiu ao fortalecimento de pautas conservadoras, que encontraram eco em uma população cansada de crises sucessivas e em busca de discursos moralizadores.
  A eleição de 2018 consolidou essa virada histórica. A campanha de Jair Bolsonaro se apoiou em um forte apelo antipolítico e moral, construindo uma narrativa de “salvação nacional” diante da corrupção e do “sistema”. O uso estratégico das redes sociais, a linguagem direta e o tom emocional dos discursos transformaram o debate público em uma arena de disputas simbólicas, nas quais a emoção passou a pesar mais do que o argumento racional.
  Diante desse contexto, este relatório busca compreender como as crises políticas entre 2016 e 2018 influenciaram a polarização social e o comportamento político no Brasil, observando os impactos em três âmbitos: o político, o midiático e o social. A análise parte da premissa de que esse período foi um divisor de águas, no qual as tensões históricas da democracia brasileira vieram à tona de forma intensa, redefinindo a relação entre Estado, sociedade e cidadania.

METODOLOGIA

  A pesquisa adotou uma abordagem qualitativa, fundamentada na análise de narrativas e percepções sobre o contexto político brasileiro entre 2016 e 2018. Esse método foi escolhido por permitir compreender o significado que os sujeitos atribuem aos acontecimentos, indo além dos dados estatísticos e alcançando dimensões simbólicas, afetivas e ideológicas. A intenção não foi apenas descrever fatos, mas compreender como esses fatos foram vividos, interpretados e lembrados por diferentes grupos sociais. As percepções individuais, os discursos e as memórias coletivas revelam elementos centrais para entender como os eventos políticos se inscreveram na experiência cotidiana das pessoas e nas dinâmicas institucionais.
  A metodologia combinou análise documental e entrevistas semiestruturadas.
  Na análise documental, foram consideradas matérias jornalísticas, dados oficiais, discursos políticos e registros acadêmicos do período, com o objetivo de contextualizar a conjuntura e identificar as principais narrativas em disputa.
  O tipo de entrevista adotado foi a entrevista semiestruturada, compatível com a abordagem qualitativa e com os princípios da pesquisa-ação. Este formato combina um roteiro prévio de temas e perguntas abertas, que garante direção e comparabilidade dos dados, com flexibilidade para que novas questões e reflexões surjam espontaneamente no decorrer da conversa. Assim, as entrevistas semiestruturadas permitem ao pesquisador conduzir o diálogo de forma ética e segura, sem restringir a espontaneidade dos participantes, pois foi aberto um diálogo, com perguntas selecionadas previamente, mas que mantinham a liberdade do entrevistado de se deixar levar pela memória, com o objetivo de ser um retrato fiel de como ele se sentiu na época. 
  Ademais, as entrevistas foram conduzidas com três grupos distintos, cada um representando um âmbito de observação:
  1. Acadêmico e político: Representado por alguns professores universitários de Ciências Sociais, cuja vivência em um ambiente de debate crítico e intelectual possibilita compreender o impacto das transformações políticas dentro das universidades e a relação entre conhecimento e poder.
  2. Juventude estudantil (2016–2018): Grupo formado por jovens e estudantes que vivenciaram diretamente o ambiente de polarização nas escolas, universidades e redes sociais. Foram escolhidos por representarem a geração que começou a se politizar nesse período, marcada tanto pela efervescência dos debates quanto pela desilusão institucional.
  3. Famílias e população civil: Entrevistas com cidadãos comuns, de diferentes faixas etárias, com o objetivo de captar como o discurso político se refletiu nas conversas cotidianas, nas relações familiares e nas percepções sobre o país. Esse grupo foi essencial para compreender a dimensão emocional e moral que a política assumiu no período.
  Essa triangulação metodológica, entre o olhar acadêmico, a vivência juvenil e a experiência popular, possibilita compreender como a crise política ultrapassou o campo institucional e penetrou nas relações sociais e afetivas, transformando a política em um tema onipresente na vida cotidiana.

DESENVOLVIMENTO E ARGUMENTAÇÃO

Âmbito político e acadêmico

  Entre 2016 e 2018, o cenário político brasileiro foi marcado por intensa polarização, instabilidade institucional e mudanças profundas na dinâmica partidária. O impeachment de Dilma Rousseff não apenas evidenciou fragilidades da esquerda institucional, mas também abriu espaço para a ascensão de discursos de direita com forte caráter moralizante e conservador. A eleição de 2018 consolidou essas tendências, com a vitória de Jair Bolsonaro impulsionada por discursos antipetistas e de conservadores.
  No ambiente acadêmico, esses fenômenos se refletiram na vida cotidiana de estudantes e professores. Observou-se fragmentação de grupos, autocensura em debates e debates intensos sobre democracia, corrupção e ética política. Professores relataram que, apesar das tensões, houve também aumento no engajamento político da juventude e questionamento crítico sobre o papel da universidade na formação cívica.


Âmbito jurídico e midiático

  O impeachment de Dilma Rousseff teve como base legal a Constituição Federal de 1988 e a Lei nº 1.079/1950, que define os crimes de responsabilidade e estabelece o rito do processo de cassação presidencial. As acusações centrais envolveram a edição de decretos de crédito suplementar sem autorização legislativa e as chamadas “pedaladas fiscais”, práticas consideradas operações de crédito irregulares, vedadas pela Lei de Responsabilidade Fiscal (Lei Complementar nº 101/2000).
  O processo seguiu o trâmite constitucional: aprovação da abertura do impeachment na Câmara, julgamento no Senado e presidência do STF. O resultado foi a cassação do mandato com manutenção dos direitos políticos, uma decisão inovadora e controversa. O debate jurídico dividiu especialistas entre os que defendiam o respeito ao devido processo legal e os que consideravam o processo politicamente motivado, demonstrando a tensão entre legalidade e legitimidade.
  A mídia teve papel decisivo na legitimação simbólica do processo. Cobertura jornalística e redes sociais moldaram percepções, destacando denúncias de corrupção e fortalecendo narrativas moralizantes. Assim, o impeachment se consolidou como episódio jurídico, político e midiático, expondo como decisões legais podem ser interpretadas e instrumentalizadas dentro da disputa simbólica e ideológica.

Âmbito social e cultural

  No plano social e cultural, o período foi marcado pela intensificação da polarização em ambientes familiares, comunitários e virtuais. Movimentos de rua, manifestações online e hashtags se tornaram marcos simbólicos, formando uma memória coletiva fragmentada. A população passou a interpretar os acontecimentos segundo identidades políticas já consolidadas, com leituras divergentes sobre moralidade, justiça e legitimidade institucional.
  O impacto cultural se estendeu a instituições de ensino, espaços de convivência e redes sociais, alterando formas de comunicação e expressão de opiniões. Discussões políticas tornaram-se frequentes em conversas cotidianas, mas muitas vezes resultavam em afastamentos, conflitos e autocensura, especialmente entre jovens e estudantes universitários.


Entrevistas com professores, juventude e familiares

  As entrevistas foram organizadas para captar percepções distintas sobre o período de 2016 a 2018. A escolha dos professores visou compreender o impacto da polarização na educação, na produção crítica de conhecimento e na relação entre instituições e sociedade. Para a juventude, o foco estava em registrar experiências em escolas, universidades e ambientes virtuais, verificando engajamento, mobilização e repercussões pessoais e coletivas. Por fim, os familiares foram entrevistados para mapear percepções mais conservadoras e populistas, permitindo comparar narrativas e valores sociais distintos.
  No âmbito universitário, uma das entrevistadas — Professora Doutora em Ciências Políticas — relembra com clareza o impacto desse período: “Em termos de universidade, lembro bem. 2016 foi após o impeachment da Dilma, o fim da Nova República. Houve uma divisão na esquerda, todos lutando pela legalidade para manter a presidenta eleita, mas com diferentes posições. O impeachment parecia ser muito mais político do que técnico.” Aqui, ela contextualiza como o ambiente acadêmico refletiu a tensão nacional: não se tratava apenas de debates teóricos, mas de uma disputa real que atravessava convicções e afetos dentro da própria universidade.
  A docente destaca ainda o surgimento de posicionamentos inesperados entre colegas: “Na docência, sim, dois colegas que antes não demonstravam posição de extrema direita se revelaram, fazendo campanha explicitamente. Isso foi um choque, pois o curso sempre teve posição progressista.” Esse relato evidencia o efeito da polarização sobre o tecido profissional: ideologias antes contidas passaram a emergir publicamente, alterando relações de confiança e colaboração entre docentes.
  Outro docente, pesquisador e doutor na área, quando entrevistado, reforçou essa mesma percepção, enfatizando a dimensão institucional da polarização: “Entre 2016 e 2018, o cenário político e acadêmico brasileiro foi marcado por instabilidade, descrédito institucional e intensa polarização ideológica. No meio acadêmico, esses debates se refletiram de forma muito viva, muitas vezes com tensão e engajamento crescente entre estudantes e professores.” Aqui, ele situa o leitor no panorama mais amplo: as tensões atravessavam decisões administrativas, debates curriculares e a própria organização do campus.
  Consultamos também uma Doutora em História que, por sua vez, nos deu uma perspectiva que articula o micro e o macro: “Se eu olhasse só pra dentro da universidade, sabia que era resistência. Mas quando eu chegava em casa, tinha reunião de família e eu escutava os meus familiares, aí percebia o que estava acontecendo com a política de verdade.” A fala dela evidencia como a vivência acadêmica de resistência se chocava com o cotidiano familiar, onde discursos de direita ganhavam força.
  Entre os estudantes, a percepção da polarização também era intensa, atravessada por afetos e experiências cotidianas. Uma aluna da UNESP relatou: “Então eu entrei na Unesp em 2017, quando eu entrei era muito agitado o cenário político, tinha assembleias sempre, debates, cinedebates, coletivos: negro, lgbt e da moradia. Também tinham várias organizações como OASL, PRP, RC, UJC e grupos independentes. A militância era bem ativa no campus, organizavam atos na cidade e na universidade.” Esse relato mostra que a juventude não apenas observava, mas participava ativamente da vida política acadêmica. “O cenário acadêmico também era movimentado, com eventos, grupos de estudo presenciais, palestras e debates.” A descrição evidencia que a vida universitária era permeada por engajamento, debates e ações coletivas, moldando a experiência acadêmica e política dos jovens.
  Esse período é lembrado também como um tempo de sobrecarga emocional, muito marcado pela internet. Uma entrevistada mais nova descreveu: “A gente não tinha paz. Qualquer coisa que postava virava discussão. Até meme era motivo de briga.” Outro jovem relatou que, na ‘era Temer’, havia uma sensação generalizada de paralisia: ausência de perspectivas, cortes de programas e um clima de incerteza que atravessava escolhas pessoais. Ele resumiu assim: “A gente era jovem, mas parecia que o futuro tinha encolhido.”
  Para contextualizar com base nas memórias narradas, alguns participantes lembraram o peso das disputas virtuais. Um deles mencionou como as redes deixaram de ser espaço de diversão: “Depois de 2016, tudo virou política. Facebook era guerra aberta. Teve amigo que eu bloqueei e só fui voltar a falar anos depois.” Outro ex-estudante acrescentou: “A militância dentro da universidade me fez perceber que política não é só partido, é também cotidiano. A gente discutia questões raciais, de gênero, moradia… e isso estava sempre atrelado à política do país.” Esse trecho evidencia como a experiência universitária misturava ação política concreta, formação identitária e reflexão crítica, criando um espaço de aprendizagem política intenso e contínuo.
  No âmbito familiar, a presença de um tio bolsonarista marcava a vivência doméstica: “Eu nunca vou esquecer o que o PT fez com esse país”, dizia ele, acrescentando: “Bolsonaro foi o único que enfrentou o sistema.” A sobrinha entrevistada completa: “Minha mãe pedia pra eu não discutir com ele no grupo da família porque virava guerra.” As disputas no WhatsApp reforçam que a polarização invadia cada esfera da vida: “Teve dia que a gente nem jantou junto de tanto clima ruim depois de discussão no grupo.”
  A análise integrada mostra que docentes, estudantes e famílias vivenciaram a polarização de formas distintas, mas convergentes: desgaste emocional, vigilância constante, transformações nas dinâmicas sociais e profissionais e confrontos ideológicos atravessando relações pessoais e institucionais. As memórias desse período não se limitam a eventos objetivos, mas aos impactos afetivos, perceptivos e sociais, evidenciando como a política deixou marcas duradouras na vida cotidiana.
  Outra entrevistada, foi uma Procuradora do Ministério Público do Trabalho, que acompanhou o período político entre 2016 e 2018, mas principalmente as implicações desse período para o direito dos trabalhadores. Segundo ela, o Brasil atravessou um período de intensa instabilidade política, marcado por manobras e disputas entre grupos com interesses distintos, o que impactou diretamente o campo acadêmico e científico, com restrições orçamentárias e desvalorização da pesquisa. Ela observa que esse contexto, iniciado com o processo de impeachment da presidenta Dilma Rousseff, gerou forte polarização e uma crescente descrença na ciência, mas também despertou maior interesse político na população, inclusive entre aqueles antes alheios ao tema, que passaram a buscar compreender se o impeachment configurava ou não um golpe, que foi uma grande discussão de todos na época, desde juristas até o povo. Ela também enxerga como um período cheio de manobras que enfraqueceram a esquerda e o que deu espaço ao discurso conservador da direita, mas ela ainda acredita que houve a tentativa de resistência da esquerda, parte dos setores progressistas, em defesa de princípios e valores. 
  Porém, o momento que mais marcou o período para ela, foi o da ascensão do governo Temer, em que o cenário se consolidou com a adoção de políticas econômicas liberais e a aprovação da Reforma Trabalhista de 2017. Para ela, esse momento representou grave retrocesso social ao flexibilizar direitos, priorizar o negociado sobre o legislado e enfraquecer os sindicatos, especialmente pela extinção da contribuição sindical obrigatória sem o fim da unicidade sindical, o que dificultou a atuação sindical e fragilizou a defesa dos direitos dos trabalhadores.


Análise e Conclusão

  Concluímos que durante esse período e além dele a polarização deixou de ser um debate e virou um ambiente. Nada ficava de fora: universidade, redes sociais, casa, grupos de família. As pessoas tentavam lidar com aquilo como podiam, mas, mesmo quando buscavam se afastar, acabavam arrastadas para a disputa. O período expôs uma verdade desconfortável: não existe espaço neutro em momentos de tensão política. A ausência de posicionamento não impede que alguém participe do que está sendo decidido, a neutralidade só ajuda o lado que já está mais forte.
  No ambiente acadêmico, isso apareceu de várias formas. Professores que antes evitavam expor preferências políticas começaram a se assumir de forma explícita, revelando posicionamentos que já existiam, mas estavam guardados. Não foi uma mudança de opinião: foi uma mudança de clima. O contexto forçou as pessoas a mostrarem onde estavam. E quando alguém insistia em permanecer “de fora”, o próprio silêncio acabava reorganizando as relações, porque a neutralidade começava a ser lida como alinhamento com o lado mais agressivo.
  Para outros docentes, o choque vinha na diferença entre universidade e família. O campus era espaço de resistência e debate, mas o ambiente doméstico funcionava quase como o lado inverso, sustentado por discursos prontos, certezas rígidas e repetição de frases circulando em grupos de WhatsApp. Essa passagem constante entre mundos opostos mostrava que o posicionamento não era apenas político: era também emocional, social, afetivo. E tentar equilibrar esses espaços já era uma forma de entrar na disputa, mesmo quando a intenção era simplesmente evitar conflitos.
  Entre jovens, a política se infiltrou de modo ainda mais intenso. Na universidade, tudo parecia politizado: debates, coletivos, organização estudantil, ocupações, disputas com a administração. Ao mesmo tempo, nas redes, qualquer postagem virava motivo de confronto. Muitos relatam que não havia descanso, a polarização funcionava como um monitoramento constante, uma espécie de vigilância emocional. E, para quem tentava não se envolver, isso não trazia alívio: trazia mais pressão. A neutralidade ali era rapidamente interpretada como fuga ou, pior, como cumplicidade.
  Nas redes sociais, a dinâmica era ainda mais extrema. As discussões ultrapassavam argumentos políticos e viravam rupturas pessoais. Pessoas se bloqueavam, paravam de falar, se afastavam de amigos de longa data. Não responder a um comentário já era visto como um gesto político. E essa lógica alimentava o espaço perfeito para manipulação: o debate não precisou ser vencido por argumentos, mas pela exaustão coletiva. 
  Dentro das famílias, essa disputa ganhava outro tom, mais íntimo e mais desgastante. Conviver com parentes que aderiram a discursos radicalizados criava um ambiente de tensão contínua. E, como muitos tentavam manter a paz evitando discussões, o resultado era que a narrativa mais rígida seguia circulando livremente. Não responder era uma escolha, e essa escolha reforçava, mesmo sem intenção, o discurso que já estava tentando se impor.
  Ao mesmo tempo, havia consequências práticas se desenrolando no nível institucional. Mudanças políticas profundas foram aprovadas enquanto muita gente ainda discutia nas redes ou tentava “não entrar no assunto”. A sensação de que o futuro tinha “encolhido” entre os jovens não era apenas emocional: era efeito direto de reformas, cortes e reestruturações feitas sem que a sociedade conseguisse reagir com unidade. A neutralidade, aqui, deixava de ser um comportamento individual e se tornava um mecanismo coletivo que abria espaço para decisões tomadas de cima para baixo.
  Ao olhar esse conjunto de experiências, a polarização deixa de parecer apenas um conflito ideológico. Ela aparece como um processo social amplo, que reorganizou espaços, vínculos e rotinas. Gente que nunca tinha discutido política se viu obrigada a escolher seu lugar, e quem escolheu não escolher acabou, sem perceber, servindo ao lado mais organizado e mais insistente.
  No fim, o que ficou daquele período não foi só a memória dos conflitos, mas o modo como eles moldaram o comportamento até hoje. A política virou um assunto que muita gente evita, não porque deixou de importar, mas porque virou sinônimo de desgaste. Famílias inteiras aprenderam a medir palavras, grupos de amigos criaram zonas proibidas de conversa e, mesmo anos depois, muita gente ainda trata política como algo que deve ser escondido para manter a convivência funcionando.
  Essa escolha de silêncio não é neutra. Ela é parte do próprio efeito do período, melhor se calar para não perder vínculos, ao mesmo tempo em que discursos mais agressivos continuaram avançando sem contraponto. O resultado é um país que ainda carrega as marcas daquele tempo, onde falar pode gerar ruptura e não falar também diz muito sobre para onde a conversa coletiva foi empurrada.


Dificuldades


  Durante a realização da pesquisa, enfrentamos dificuldades relacionadas principalmente à coleta de dados. Muitas pessoas demonstraram receio em falar sobre política, especialmente sobre o período de 2016 a 2018, por considerarem o tema sensível e potencialmente gerador de conflitos. Além disso, as memórias frequentemente vinham carregadas de emoção, o que tornava mais difícil distinguir lembranças pessoais de interpretações influenciadas pela polarização do período.
  Também tivemos desafios logísticos, principalmente em conciliar horários entre entrevistados e integrantes do grupo, o que exigiu adaptações constantes, já que todos possuíam rotinas diferentes. As entrevistas realizadas em locais variados, incluindo ambientes virtuais, apresentaram problemas como instabilidade de internet, gravações falhas e dificuldades para manter um fluxo contínuo de conversas.
  Por fim, houve dificuldades analíticas, já que o volume de informações sobre o período e a necessidade de evitar vieses exigiram cuidado redobrado ao interpretar os relatos. A forte carga emocional presente nas entrevistas também tornou o processo mais sensível, exigindo atenção ética e equilíbrio para não deixar que experiências pessoais dos entrevistados influenciassem de forma indevida a análise final.


REFERÊNCIAS:

MESSENBERG, D., CAMARGOS, B. (2024), "Os propagandistas do ódio: o bolsonarismo-raiz em ação". Análise Social, 253, LIX (4.°), pp. 2-24. https://doi.org/10.31447/202318.

Em Tese, Florianópolis, v. 18, n. 01, p. 523-531, jan./jun., 2021. Universidade Federal de Santa Catarina. 531 ISSN 1806-5023. DOI: https://doi.org/10.5007/1806-5023.2021.e70890

HALBWACHS, Maurice. A memória coletiva. Tradução de Beatriz Sidou. 2ª ed. São Paulo: Centauro, 2013.

RODRIGUES, Theófilo Machado. O papel da mídia nos processos de impeachment de Dilma Rousseff (2016) e Michel Temer (2017). Contracampo, Niterói, v. 37, n. 02, pp. XX-XX, ago. 2018/ nov. 2018. Enviado em 0 5 de março de 2 0 1 8 / Aceito em 3 1 de julho de 2 0 1 8 DOI – http:/ / dx.doi.org/ 1 0 .2 2 4 0 9 / contracampo.v3 7 i2 .1 1 0 8