O mito da democracia racial no Brasil
O mito da democracia racial é baseado na ideologia da existência de um estado de plena convivência e igualdade entre as raças, negando a presença do racismo em determinada sociedade.
A ideia de uma democracia racial no Brasil surgiu entre os séculos XIX e XX com a abolição da escravidão, através da Lei Áurea, assinada em 1888, e com a Proclamação da República, no ano seguinte. Tal pensamento foi defendido por intelectuais e políticos da época que tinham a intenção de destacar a aparente coexistência pacífica entre diferentes raças e etnias no país, especialmente em comparação com outros países que enfrentam graves conflitos raciais. As elites negavam que houvera racismo no Brasil, com o argumento de que com o estabelecimento da república no país, fora universalizado o direito à cidadania, em tese, levando às pessoas negras a igualdade de direitos, lhes garantindo educação, saúde, emprego, moradia, terras etc.
Entretanto, a realidade que se via na sociedade pós-abolição era de graves heranças deixadas pelo grande período de escravidão, mantendo uma estrutura hierarquizada que seguia sendo de desvantagem para a população negra, que se via sem a garantia dos direitos que, supostamente, estariam garantidos na constituição de 1891.
Gilberto Freyre, em sua obra “Casa Grande e Senzala” defendeu que, ainda que a colonização tenha sido marcada pela imposição europeia -a qual ocasionou a violência e o preconceito contra negros no Brasil-, as desigualdades raciais seriam apenas fatores circunstanciais, e não estruturais.
Ditadura militar e a democracia racial:
Durante o período de Ditadura Militar brasileira (1964-1985), o governo adotou o conceito de democracia racial como uma suposta característica obtida no país sob o regime.
Nos anos 60 e 70, marcados pelo surgimento de movimentos negros que criticavam esse ideal, a luta por direitos civis e igualdade racial tomou forma e ganhou repercussão nacional. Entretanto, o exército se encarregava de sufocar o crescimento do chamado movimento black, sob a justificativa de que, uma vez que não existia racismo no país, a mobilização de movimentos com forte identificação racial estaria incitando um conflito entre raças.
Segundo a historiadora Gabrielle Abreu, pesquisadora do Instituto Vladimir Herzog, a afirmação de elementos da cultura negra incomodava a ditadura por ser contrária à tese da "democracia racial" propagada pelo regime. "Havia deliberadamente um desejo da ditadura, dos governos militares, de apresentarem o Brasil como um paraíso racial, como um lugar que não havia racismo", afirmou a historiadora.
No final dos anos 1970, jovens negros que dançavam ao som de James Brown foram vistos como uma ameaça pela ditadura militar. O movimento Black Rio, que reunia milhares de pessoas em bailes soul nos subúrbios da cidade do Rio de Janeiro, foi classificado pelos órgãos de inteligência do regime como uma ameaça à segurança nacional.