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Paulino, Rosana

De Wikiversidade

Rosana Paulino

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Rosana Paulino (São Paulo, 1967) é uma artista visual brasileira cuja trajetória se entrelaça com as urgências do país que habita: o corpo negro, a história não contada, a memória rasurada e a presença feminina nas artes visuais. Seus trabalhos que passam por técnicas como bordado, gravura, instalação, fotografia e escultura articulam denúncia, reparação e ancestralidade, sempre a partir de um lugar que é tanto íntimo quanto político. Mais do que representar imagens de mulheres negras. Paulino expõe os mecanismos de apagamento e os atravessa com linhas, pontos e gestos que rasgam a narrativa colonial e retratam corpos e histórias de volta no mundo. Sua produção se insere de forma crítica e sensível no campo da arte contemporânea latino-americana, e sua presença tem sido fundamental para repensar os limites do que entendemos como arquivo, ciência e história oficial.

Início da vida e formação artística

Rosana Paulino cresceu em uma família de origem humilde, onde os pais vieram do interior de São Paulo. Paulino sempre teve dois grandes interesses, a arte e a biologia, como Paulino  teve uma infância no interior, ela teve muito contato com a natureza. Era comum brincar com barro, modelando bichinhos e bonecos feitos com os restos de tinta usada pelo pai, fato que despertou seu interesse pelas artes e pela ciência desde cedo.Durante a adolescência frequentou museus como MASP, Pinacoteca e Museu de Arte Sacra, mesmo com acesso limitado à vida cultural formal. Sua formação artística começou entre 1993 e 1995, fez estágio no ateliê de restauro de obras de arte do MAC/USP. Em 1994, frequenta curso livre de gravura no ateliê do Museu Lasar Segall. Cursa artes plásticas na ECA/USP e torna-se bacharel em gravura em 1995. ainda nos anos 90, Paulino começou a produzir mais obras que teve bastante destaque, obras como “Parede da Memória” que gerou visibilidade a artista. Uma grande composição formada por diversas fotos de seus familiares foram impressas sobre tecido, retocadas com aquarela, preenchidas de algodão e molduradas com bordado manual, remetendo aos patuás. A obra provoca reflexões sobre os rostos, identidades e histórias perdidas de tantas pessoas negras anônimas na sociedade. Mais tarde, concluiu o doutorado em Artes Visuais na mesma instituição e fez especialização em gravura no London Print Studio, em Londres e fez seu doutorado em Artes Plásticas na ECA/USP.

Trajetória artística de Rosana Paulino

As produções de Paulino aborda temas e situações decorrentes ao racismo e dos estigmas deixado pela escravidão que ainda está presente na condição da mulher negra na sociedade brasileira, bem como os diversos tipos de violências sofridos por esta população. Em seus trabalhos, Paulino transpassa um campo expandido dentro das artes visuais, desenvolvendo obras que permeiam entre escultura/objeto, ora fotografia/bordado, ora pintura/colagem e instalação-performance, inserido nessas linguagens artísticas, o cotidiano e objetos habituais a partir da sua própria condição.

Paulino já participou de diversas exposições no Brasil, assim como nos EUA, Argentina, Chile, Holanda, França, entre outros…

Em 1997, a série “Bastidores” traz novamente impressões de rostos de pessoas negros com o suporte ultilizado para bordado, as linhas da costura aparecem não como um acabamento, mas sim como uma composição essencial da obra, que mostra os rostos das mulheres grosseiramente costurados em suas bocas, olhos e pescoços.

Nos anos 2000-2010, Paulino permaneceu consolidando a estética e crítica em seus trabalhos. Neste período a artista amplia suas tecnicas com gravuras, escultura e instalações, a costura passa a ser símbolo de cura, mas também de dor e silenciamento.

A partir de 2018 com a grande retrospectiva “A Costura da Memória” na Pinacoteca, sua obra é redescoberta e passa a integrar acervos importantes como Tate Modern (Londres) e Malba (Buenos Aires).

Inserção no circuito e relevância latino-americana

A obra de Rosana Paulino vem ganhando crescente projeção internacional, sendo considerada uma das vozes mais potentes e originais da arte afro-brasileira contemporânea. A retrospectiva “A Costura da Memória” (2018–2019), exibida na Pinacoteca de São Paulo e no Museu de Arte do Rio (MAR), tornou-se um marco na institucionalização da arte negra no país, reunindo obras de diferentes fases e tensionando os limites entre arte, ciência e história.

Em 2024, Paulino se tornou a primeira artista negra brasileira a realizar uma individual no MALBA (Museu de Arte Latino-Americana de Buenos Aires), com a exposição “Amefricana”, reforçando sua presença no circuito latino-americano e sua contribuição aos debates sobre memória, ancestralidade e decolonialidade.

Sua obra integra acervos de instituições importantes, como MASP, MAM-SP, Pinacoteca de São Paulo, Museu Afro Brasil, e também museus internacionais como o Museum of Fine Arts Houston, o Museu de Belas Artes de Havana e a Tate Modern, no Reino Unido, que adquiriu uma série de suas obras em 2023.

A inserção de Paulino no debate latino-americano e afrodiaspórico se dá pela contundência com que sua arte enfrenta visualmente os efeitos da colonialidade, do patriarcado e do epistemicídio. Seu trabalho estabelece pontes entre o Brasil e outras experiências negras do sul global, especialmente ao propor uma estética ética, pautada no cuidado, na reparação e na reescrita dos afetos.

Legado e reconhecimento atual

Rosana Paulino ocupa hoje uma posição central no debate contemporâneo sobre arte e política no Brasil. Seu trabalho se tornou referência para artistas negras e negros mais jovens, assim como para pesquisadoras, curadoras e pensadoras que se dedicam a reconfigurar os cânones da história da arte a partir de perspectivas feministas, antirracistas e decoloniais.

Além de artista, Paulino atua como professora, pesquisadora e conferencista. Publicou artigos e concedeu entrevistas nas quais aprofunda os conceitos que atravessam sua produção, como “corpo-arquivo”, “costura da memória”, “visualidade da dor” e a ideia de uma narrativa reparadora para o imaginário social.

Entre os reconhecimentos recebidos, destacam-se o Prêmio Konex Mercosur de Artes Visuais (2022) e o Prêmio Munch de Liberdade Artística, concedido em Oslo em 2024, por sua contribuição à liberdade de expressão e à luta contra o racismo estrutural.

O legado de Paulino vai além das obras que cria: está no modo como transforma os próprios regimes de visibilidade e os modos de narrar a história do Brasil. Ao afirmar a centralidade da experiência negra como geradora de imagens e sentidos, Rosana Paulino se inscreve como uma das grandes artistas latino-americanas do século XXI.

Referências bibliográficas:

ARTEREF. Rosana Paulino: biografia e trajetória. [S. l.], [s. d.]. Disponível em: https://arteref.com/arte-contemporanea/rosana-paulino-biografia-e-trajetoria/. Acesso em: 03 jul. 2025.

COBOGO. Rosana Paulino. [S. l.], [s. d.]. Disponível em: https://www.cobogo.com.br/rosana-paulino. Acesso em: 03 jul. 2025.

GONZALEZ, Lélia. Lugar de negro. 2. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 1983.

MALBA – MUSEO DE ARTE LATINOAMERICANO DE BUENOS AIRES. Rosana Paulino: Amefricana, 2024. Disponível em: https://www.malba.org.ar/evento/rosana-paulino-amefricana/. Acesso em: 03 jul. 2025.

NA CORDA BAMBA. Entrevista: Rosana Paulino, uma artista que é filha de Ogum, de Iansã e tem Oxum-Opará como ajuntó. 04 out. 2023. Disponível em: https://nacordabamba.blog/2023/10/04/na-corda-bamba-entrevista-rosana-paulino-uma-artista-que-e-filha-de-ogum-de-iansa-e-tem-oxum-opara-como-ajunto/. Acesso em: 03 jul. 2025.

PAULINO, Rosana. Poéticas de memória e artefato: a construção de uma poética visual a partir da problematização da mulher negra na sociedade brasileira. 2011. Tese (Doutorado em Artes Visuais) – Escola de Comunicações e Artes, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2011. Disponível em: https://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/27/27159/tde-05072011-125442/publico/tese.pdf. Acesso em: 03 jul. 2025.

PINACOTECA DO ESTADO DE SÃO PAULO. Rosana Paulino: a costura da memória. São Paulo: Pinacoteca do Estado, 2018.