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Piracicaba Meteorológica/Boletim - Evento de vórtice em Capivari

De Wikiversidade

PIRACICABA METEOROLÓGICA

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BOLETIM TÉCNICO DE EVENTO SEVERO

REFERÊNCIA: CPV-2026-01-27

DATA DE EMISSÃO: 28 de janeiro de 2026

LOCALIDADE: Capivari/SP – Rodovia Jornalista Francisco Aguirre (SP-101)

ASSUNTO: Caracterização de evento de vento rotacional em microescala associado a sistema convectivo linear (QLCS)

Foi observado um rastro de aproximadamente 0,8 km de extensão ao longo da Rodovia Jornalista Francisco Aguirre (SP-101), em Capivari/SP, com início abrupto nas proximidades do quilômetro 4 e progressão geral para leste, conforme análise retrospectiva realizada via Google Street View em 27 de janeiro de 2026. A identificação desse trajeto decorre de uma reavaliação sistemática motivada pela expedição presencial de 8 de janeiro de 2026 do distinto evento de vento rotacional (tornado F1) ocorrido na estrada MBC-465 em Mombuca/SP no dia 7 de dezembro de 2025 (MBC-2025-01-08), quando já havia sido reconhecida a presença de um rastro estreito e descontínuo de árvores mortas na SP-101, com padrão incompatível com processos de degradação lenta ou manejo humano. A análise temporal das imagens históricas do Google Street View indica que a vegetação ao longo da SP-101 encontrava-se íntegra até pelo menos agosto de 2023, passando a apresentar danos abruptos e mortalidade progressiva entre agosto e outubro de 2023, este último compatível com um mês climatologicamente ativo em tempo severo na Região de Piracicaba.

O rastro apresenta características típicas de microescala, com largura reduzida, variação abrupta na intensidade dos danos e ausência de qualquer evidência de canalização topográfica relevante, uma vez que o trecho analisado não corresponde a vales encaixados, corredores urbanos, árvores altas ou alinhamentos estruturais capazes de amplificar ventos lineares. A queda predominante da vegetação ocorre para leste, porém com variações locais significativas, o que afasta a hipótese de um downburst puramente divergente e reforça a presença de algum tipo de vórtice de rápida translação embebido no escoamento.

O início do trajeto na margem sul da rodovia é marcado por leucenas (Leucaena leucocephala) severamente danificadas, com troncos partidos ou mortos de forma quase imediata após o evento. Destaca-se que essas leucenas já se encontravam em estresse hídrico crônico desde o início da década de 2020, condição claramente evidenciada nas imagens retrospectivas do Street View, o que as tornava estruturalmente mais vulneráveis a esforços mecânicos extremos. Ainda assim, o padrão observado excede aquele esperado apenas por fragilidade prévia. Nos primeiros cerca de 20 metros do rastro, a maioria das leucenas conseguiram se recuperar parcialmente, sendo que uma delas apresenta um galho claramente retorcido em direção ao sul. Após esse trecho inicial, observam-se três leucenas partidas ao meio e projetadas para leste, acompanhadas por uma trilha contínua de espécimes mortas por centenas de metros que permanece visível inclusive nas imagens mais recentes disponíveis até maio de 2025. Essa trilha de mortalidade vegetal estende-se por aproximadamente 500 metros.

Retornando ao ponto inicial da margem sul para análise detalhada da assimetria dos danos, nota-se que uma das leucenas apresenta metade do tronco levemente inclinada cerca de 15° para o norte, enquanto, na margem norte da rodovia, há galhos isolados entre leucenas maduras ainda verdes orientados tanto para o norte quanto para o oeste, embora este último possa ter sofrido interferência por colisão entre copas. Aproximadamente dois metros ao sul desse ponto, encontra-se um outdoor cuja estrutura frontal se desprendeu do suporte e foi deslocada em direção a leste. As imagens mostram uma marca alaranjada inicialmente interpretável como vestígio de fogo. Contudo, a inspeção visual do verso da estrutura indica tratar-se apenas de tinta interna do próprio cartaz, descartando qualquer ação de vandalismo.

Imediatamente à frente da placa, observa-se um galho de árvore leguminosa projetado para leste, seguido por mais três galhos adiante, dois orientados para leste e um para nordeste. Esses galhos apresentam textura e coloração distintas das leucenas, com aspecto branqueado e folhas típicas de Cerrado, compatíveis com angico-branco (Anadenanthera colubrina). A análise conjunta das imagens antigas confirma que angicos-brancos coexistiam com as leucenas nesse trecho, afastando a hipótese de transporte de longo alcance desses fragmentos e reforçando a ideia de dano localizado. Foi identificado ainda um fragmento do papel da placa a cerca de 10 metros ao sudeste, na margem oposta da via, evidenciando transporte pelo vento. Outros fragmentos menores foram localizados aproximadamente 30 metros no mesmo sentido, já sobre o gramado, sendo plausível que partes adicionais tenham sido carregadas a distâncias ainda maiores. Observa-se também que a placa remanescente apresenta leve torção para frente nas laterais.

Cerca de 300 metros adiante, na margem norte, um angico-branco de médio porte encontra-se caído com orientação para o sul. Aproximadamente 20 metros após, outro angico-branco aparece com parte do tronco rompida, sendo o segmento desprendido projetado para leste. Na margem sul, os danos às leucenas secas tornam-se gradualmente menos evidentes, fato atribuído não a uma dissipação abrupta do fenômeno, mas à ausência de espécimes frágeis suficientes para registrar danos visíveis. Às margens de um ribeirão, observam-se angicos-brancos de menor porte caídos predominantemente para o sul. Um deles apresenta um padrão peculiar: um galho voltado para baixo no sentido sul e outro, acima, envergado para o norte, característica clássica de danos por cisalhamento. A cerca de 20 metros ao sul, já do outro lado do ribeirão, uma árvore da espécie pau-jacaré (Piptadenia gonoacantha) surge inclinada cerca de 30° para o sul. Todavia, esta não pode ser incluída formalmente como dano direto do episódio, devido à distância do eixo principal do rastro. Aproximadamente 10 metros à frente, ainda na margem sul da rodovia, dois angicos-brancos caídos encerram o conjunto de danos: o primeiro orientado para noroeste e o segundo, poucos metros depois, para nordeste.

A análise sinótica e de mesoescala aponta os dias 4 e 8 de outubro de 2023 como os mais compatíveis com a ocorrência do evento, com forte indicação para 4 de outubro. Naquela data, um bow echo, identificado pelo radar meteorológico de Pulso Doppler/Banda S do IPMet/UNESP de Bauru, atuou sobre o sul da Região de Piracicaba por volta das 16h, com sua borda atingindo diretamente o município de Capivari. O ambiente apresentava um Jato de Baixos Níveis (JBN) superior a 10 m/s, cisalhamento vertical do vento atingindo valores da ordem de 30 m/s e Helicidade Relativa (SRH) à tempestade chegando a -300 m²/s² em pontos isolados, cenário classicamente favorável à formação de vórtices embutidos em linhas convectivas. Os danos extensos em leucenas, incluindo mortalidade em massa sem recuperação posterior, sugerem intensidade significativa, compatível com danos equivalentes a F2 de patamar inferior em vegetação vulnerável. Contudo, considerando a natureza das espécies afetadas e a seletividade das espécies, a Piracicaba Meteorológica adota uma postura conservadora.

Com base no conjunto de evidências, o evento é caracterizado como um episódio de vento rotacional em microescala, mais plausivelmente associado a um Sistema Convectivo Quase-Linear (QLCS), podendo ser classificado como tornado de QLCS de intensidade F1 ou, mais especificamente, F1+. A natureza estreita e contínua do rastro, o início abrupto, a variabilidade direcional dos danos, a presença de torções e quedas opostas e a falha estrutural do outdoor sob carga dinâmica descartam, de forma consistente, fenômenos alternativos como ventos lineares, downburst, mortandade por estresse hídrico, empobrecimento do solo, vandalismo, incêndio ou envelhecimento natural da vegetação.

A tabela a seguir sintetiza a classificação dos danos observados ao longo do trajeto, correlacionando os elementos atingidos, o tipo de dano e a interpretação de intensidade equivalente, sempre de forma conservadora:

Elemento atingido Tipo de dano observado Descrição técnica Classificação equivalente
Leucenas iniciais Mortalidade em massa e quebra parcial Troncos partidos, galhos torcidos, morte progressiva pós-evento F1+/F2- (vegetação frágil)
Angico-branco Queda e ruptura Árvores de médio porte caídas e arrancadas pela raiz em múltiplas direções, sem paralelismo F1-
Galhos diversos Projeção localizada Galhos projetados a curta distância, sem evidência de transporte longo F0
Placa rodoviária Desprendimento da fundação horizontal Desprendimento frontal, torção e arremesso de fragmentos até 30 m ou mais F1

Para a análise específica da placa, foi desenvolvido um modelo numérico simplificado com auxílio de inteligência artificial, considerando uma placa de 2,0 × 1,2 m, confeccionada em chapa metálica de 2 a 3 mm, fixada em postes de aço ASTM A36 instalados em 2021, portanto com idade efetiva jovem à época do evento. O modelo utilizou densidade do ar de 1,225 kg/m³ e coeficiente de arrasto de 1,2, ajustado para 1,4 sob turbulência rotacional. O padrão de falha observado, com torção assimétrica e desprendimento frontal, é compatível com a atuação de um momento de torção associado a um vórtice, e não com simples pressão frontal uniforme.

A tabela abaixo resume os parâmetros utilizados para a curva velocidade × força × pressão aplicada à placa:

Velocidade (km/h) Velocidade (m/s) Pressão dinâmica (N/m²) Força total (N) Status
100 27,78 472,6 1.588 Regime elástico
120 33,33 680,5 2.287 Vibração severa
130 36,11 798,6 2.683 Início de escoamento
140 38,89 926,4 3.113 Ponto crítico
150 41,67 1.063,7 3.574 Colapso
160 44,44 1.210,1 4.066 Destruição

Os cálculos indicam que a falha estrutural ocorre na faixa de 140 km/h, enquanto o arremesso de fragmentos a distâncias de até 30 metros exige velocidades próximas de 148 ±5 km/h, valor compatível com vórtices de QLCS de baixa a moderada intensidade. A análise balística demonstra que a energia cinética disponível é suficiente para explicar o deslocamento observado, especialmente quando se considera a redução do peso efetivo da estrutura devido à sucção associada ao vórtice.

Diante do exposto, a Piracicaba Meteorológica catalogará internamente o episódio como um evento de vento rotacional compatível com um tornado de QLCS de intensidade F1. Ressalta-se que, devido ao intervalo de aproximadamente dois anos entre o evento e a presente análise, é provável que o episódio não venha a ser incorporado a bases nacionais formais. Ainda assim, o conjunto robusto de evidências permite descartar, com elevado grau de confiança, qualquer outro fenômeno meteorológico ou não meteorológico como causa dos danos observados.