Piracicaba Meteorológica/Boletim - Tornado em Mombuca
PIRACICABA METEOROLÓGICA
[editar | editar código]BOLETIM TÉCNICO DE EVENTO SEVERO
REFERÊNCIA: MBC-2026-01-08
DATA DE EMISSÃO: 15 de janeiro de 2026
LOCALIDADE: Mombuca/SP (Rodovia MBC-465)
ASSUNTO: Análise de evidências de rastros tornádicos e caracterização de fenômeno de vento rotacional

A Piracicaba Meteorológica emite este relatório técnico acerca da identificação de vestígios compatíveis com atividade tornádica no município de Mombuca, São Paulo. No dia 8 de janeiro de 2026, uma inspeção de campo identificou uma faixa de destruição com aproximadamente 2,8 km de extensão e largura oscilando entre 20 e 40 metros na rodovia MBC-465. O trajeto dos danos tem início no pátio da unidade industrial da Branyl, onde foi observada a deposição desordenada de galhos em setores distintos da fábrica. Ao longo do avanço pela rodovia, o rastro torna-se mais definido, atravessando um canavial composto por espécimes jovens que foram arrancados, mortos ou encontrados em estado de envergamento e enroscamento (figura 1). Observa-se uma tendência de queda para a direção sudoeste na maior parte da vegetação. No entanto, a ausência de um padrão unidirecional absoluto reforça a classificação como fenômeno de vento rotacional.
A investigação descarta categoricamente a intervenção humana, atos de vandalismo ou acidentes rodoviários como causa dos danos. A hipótese de passagem de maquinário agrícola, como tratores, é invalidada pelo estágio de crescimento da cultura de cana-de-açúcar, o que tornaria tal ação tecnicamente contraproducente e ilógica para o manejo agrícola. Posteriormente, há uma descontinuidade dos estragos em um trecho com construções intactas, sugerindo a ausência de vegetação frágil nesses pontos ou o caráter intermitente do funil. Em uma plantação de eucaliptos adjacente, grande parte dos galhos foram projetados para o noroeste, oeste e sudoeste, incluindo alguns para o sul, direções opostas ao fluxo predominante de frentes frias na região (nordeste). Comparativos de imagens de satélite indicam que a massa arbórea estava saudável até janeiro de 2025, o que afasta a possibilidade de os danos serem fruto de acúmulo histórico de ocorrências, sendo mais compatível com um único evento isolado de tempo severo. Cerca de 500 metros adiante, um agrupamento de árvores mais secas da espécie Leucaena leucocephala (leucena) exibiu danos severos, incluindo um espécime dobrado ao meio (figura 2). A pausa observada nos danos indica ou um evento intermitente ou que o rastro seguiu pelo lado direito da estrada devido à curva da via, atingindo essa nova mata somente ao reencontrar o traçado asfáltico, sem necessariamente alterar seu trajeto original.

A determinação cronológica do evento contou com o auxílio de modelos de inteligência artificial (Gemini 3 Pro e GPT-5.2), que realizaram cerca de dez rodadas de análise cada sobre a maturidade e o estado de dessecação da vegetação danificada. Cruzando esses dados com a análise humana, estima-se que a ocorrência tenha se dado entre o final de novembro e o início de dezembro de 2025. O cenário meteorológico mais plausível aponta para o dia 7 de dezembro de 2025, data em que uma supercélula semi-estacionária atuou na área sob forte influência da convergência entre o outflow de um Sistema Convectivo de Mesoescala (SCM) ao sudeste e ventos quentes provenientes do interior. Esta análise é corroborada pelos dados coletados durante o tornado de Rio das Pedras, ocorrido no mesmo dia, que apresentou, em microescala, índices de helicidade superiores a 250 m²/s² e convergência de cerca de de 10⁻⁸ s⁻¹. Tais evidências apontam para um tornado de origem supercelular, descartando-se assim as hipóteses de landspout ou gustnado.
Quanto à classificação de intensidade, o evento em Mombuca é classificado como F1 na Escala Fujita, devido aos danos estruturais observados no canavial, embora o impacto nas áreas de eucaliptos e matas remanescentes apresente características de F0. Foram avaliadas evidências ambíguas, que foram descartadas, como uma placa de rodovia inclinada de forma anômala. Apesar de imagens de 2023 a mostrarem vertical, a falta de provas definitivas impede a atribuição direta ao vento. Da mesma forma, um rastro de solo exposto em um pasto, que poderia sugerir ground scouring, foi identificado via imagens de satélite (Airbus e Maxar Technologies) como uma feição preexistente desde 2020, consolidada em 2023 como canal de escoamento hídrico, além de exigir uma mudança de trajetória fisicamente improvável para o vórtice (~90° em menos de 60 metros). A tabela a seguir apresenta a correlação direta entre o tipo de dano observado, a descrição detalhada do impacto e a categoria correspondente na Escala Fujita (F), considerando exclusivamente critérios compatíveis com a metodologia original da escala.
| Local / elemento atingido | Tipo de dano observado | Descrição técnica detalhada do dano | Categoria (Escala Fujita) |
|---|---|---|---|
| Pátio industrial da Branyl | Deposição e redistribuição de material vegetal | Galhos de médio porte depositados de forma desordenada, com orientação variável, acumulados em setores distintos do pátio, sem alinhamento único ou padrão coerente com vento linear. Ausência de danos estruturais permanentes. | F0 |
| Canavial jovem | Arranquio, mortalidade e deformação de cultura agrícola | Plantas de cana-de-açúcar em estágio jovem arrancadas integralmente do solo, com sistema radicular exposto em pontos específicos. Outras plantas apresentam colmos dobrados com torção parcial, enroscamento entre indivíduos e quebra irregular próxima à base. Orientação predominante para sudoeste, porém com variação local e ausência de paralelismo absoluto. | F1 |
| Plantação de eucaliptos | Projeção direcional de galhos e torção de mudas | Galhos arrancados e projetados majoritariamente para noroeste, oeste e sudoeste, com ocorrência pontual de deposição ao sul. Algumas mudas menores torcidas e quebras limpas em ramos secundários, sem destombamento de troncos. | F0 |
| Agrupamento de Leucaena leucocephala (leucena) | Dobramento estrutural | Indivíduo isolado dobrado, com curvatura abrupta do tronco principal, sem ruptura total. Madeira seca favorecendo deformação plástica sob esforço intenso e localizado. Danos restritos ao ponto de interseção do rastro. | F0 |
| Vegetação remanescente adjacente | Danos esparsos e descontínuos | Pequenos ramos quebrados e deposição irregular de material vegetal, sem padrão contínuo nem impacto cumulativo suficiente para indicar intensificação adicional. | F0 |
Considerando que o registro de Mombuca ainda não consta na catalogação oficial da PREVOTS, este evento pode ser tecnicamente tratado de duas formas em plataformas de documentação meteorológica. Como alternativa válida para sistemas que exigem fontes bibliográficas consolidadas, o rastro de Mombuca pode ser mesclado ao evento de Rio das Pedras sob a denominação de um único episódio, desde que ressalvado que os danos geográficos são distintos. Contudo, a análise georreferenciada e a única filmagem feita a partir de Piracicaba demonstram que o funil de Rio das Pedras seguiu trajetória oposta e em área isolada, além do vídeo mostrar o tornado se formando naquele mesmo local, o que descarta a hipótese de um único funil tocando o solo em ambos os pontos. Por razões de limitação de visitas técnicas, o que impede uma investigação mais aprofundada, a classificação consolidada para o evento de Rio das Pedras permanece como F0. A Piracicaba Meteorológica, como entidade regional, caracterizará os episódios internamente como uma família de tornados.