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Quino

De Wikiversidade
Quino (criador de Mafalda) recebe a Legião de Honra na Feira do Livro de Paris 2014

Joaquín Salvador Lavado Tejón (Mendoza, Argentina, 17 de julho de 1932 - Mendoza, Argentina, 30 de setembro de 2020), mais conhecido como Quino, foi um pensador, historiador, gráfico e cartunista argentino conhecido pela criação de suas histórias em quadrinhos.

Início da vida e formação artística

Filho de imigrantes espanhóis da Andaluzia, nasceu em 1932 na província de Mendoza na Argentina. Desde cedo, foi chamado pelos familiares pelo apelido com que é conhecido, Quino, para diferenciá-lo do tio homônimo, desenhista, com quem já aos 3 anos de idade aprendeu o gosto pela arte.

Em 1945, perdeu a mãe e em 1948, o pai. No ano seguinte, abandonou a Faculdade de Belas Artes com a intenção de se tornar um autor de história em quadrinhos e logo vendeu o seu primeiro desenho animado, um anúncio de uma loja de seda. Em 1950, estabeleceu-se em Buenos Aires. Por fim, publicou a sua primeira página de humor na revista semanal Esto es. Logo se seguiram outras edições, como Leoplán, TV Guía, Vea y Lea, Damas y Damitas, Usted, Panorama, Adán, Atlántida, Che, o diário Democracia, entre outros. Neste período, também tirou fotos para publicidade.

Publicou as suas coleções primeiro no livro Mundo Quino, em 1963. Nessa época, recebeu uma encomenda de algumas páginas para uma campanha da empresa de eletrodomésticos Mansfield, para a qual desenvolveu uma personagem com um nome parecido com o da empresa, Mafalda. A campanha não chegou a sair, mas a personagem ganhou vida e foi publicada primeiramente na revista Primera Plana em 1964, após ser recusada pelo jornal Clarín.

Entre 1965 e 1967, Mafalda foi publicada no jornal El Mundo, e mais tarde passou a ser impressa também na Itália, Espanha (onde a censura forçou Quino a rotulá-la como "conteúdo para adultos"), Portugal e em outros países. Em 1973, decidiu dar um fim à tirinha, afirmando primeiramente que temia se tornar repetitivo e, depois, dando a entender que temia represálias políticas.

Mafalda

A personagem apareceu pela primeira vez em 29 de setembro de 1964 e rapidamente se tornou um ícone cultural não apenas na Argentina, mas em toda a América Latina e em vários países da Europa.

Mafalda foi originalmente criada como parte de uma campanha publicitária de uma empresa de eletrodomésticos que acabou não se concretizando. No entanto, Quino decidiu continuar desenvolvendo a personagem e, em 1964, ela começou a ser publicada no jornal argentino Primera Plana. Posteriormente, as tirinhas passaram a sair no jornal El Mundo e, depois do fechamento deste, no semanário Siete Días Ilustrados até 1973, quando Quino decidiu encerrar a produção da série.

A personagem Mafalda é uma menina de classe média, com cerca de seis anos de idade, inteligente, curiosa e crítica. Sua personalidade é marcada por reflexões agudas sobre temas sociais, políticos e culturais, muitas vezes em contraste com a inocência típica da infância. Ela vive com seus pais e interage com um grupo de amigos que representam diferentes arquétipos da sociedade.

Importância da Malfada

Mafalda é amplamente reconhecida como uma crítica sutil e bem-humorada à sociedade contemporânea, abordando questões como a desigualdade social, os direitos humanos, a paz mundial e o papel das mulheres. Apesar de sua aparência infantil, as tirinhas possuem forte conteúdo político e filosófico, o que as tornou populares entre adultos e jovens.

A personagem é considerada um símbolo do pensamento crítico e da liberdade de expressão. Durante as décadas de 1960 e 1970, Mafalda foi especialmente relevante no contexto das ditaduras militares na América Latina, representando uma voz alternativa em tempos de censura e repressão.

A obra de Quino foi traduzida para mais de 30 idiomas, e Mafalda tornou-se um fenômeno internacional. Ela foi tema de exposições, estudos acadêmicos e homenagens em diferentes partes do mundo. Em 2014, uma estátua de Mafalda foi inaugurada em Buenos Aires, e em 2020, após a morte de Quino, a personagem voltou a ser amplamente lembrada como um legado cultural duradouro.

O Fim de Mafalda e o Contexto Político

Em 1973, Quino toma a decisão de encerrar a tira de Mafalda, após quase uma década de sucesso absoluto. A decisão de concluir a série foi tomada em um momento de grande tensão política e social na Argentina. Durante os anos 60 e início dos 70, o país estava imerso em uma crescente instabilidade política, que culminaria com o golpe de Estado de 1976.

Quino sentia que já havia explorado completamente a personagem de Mafalda e seu contexto, e a situação política no país também começou a tornar-se opressiva, com censura e repressão contra qualquer tipo de oposição. A própria Mafalda, com seu pensamento crítico e questionador, que abordava questões como desigualdade social, direitos humanos, e paz mundial, tornou-se um símbolo de resistência, mas também de incômodos para o governo. Em razão disso, o próprio Quino sentiu que o espaço para uma liberdade criativa maior estava se tornando cada vez mais restrito.

Em 25 de junho de 1973, Quino publicou a última tira de Mafalda, marcando o fim de uma era que havia começado em 1964. Ao longo de seus nove anos de publicação, Mafalda se tornou um ícone internacional e uma das personagens mais queridas do mundo dos quadrinhos, não apenas na Argentina, mas também na Europa e América Latina.

Exílio de Quino

Em 1976, a Argentina vivenciou um golpe de Estado militar, que instaurou uma ditadura cívico -militar responsável por uma das fases mais sombrias da história do país. O regime militar ficou conhecido por sua repressão violenta contra opositores políticos, organizações sociais e culturais. O governo da junta militar não apenas perseguiu dissidentes, mas também censurou a arte e a liberdade de expressão.

Quino, sendo um artista e crítico social de longa data, que usava suas tiras para abordar questões como direitos humanos, injustiça social e a política da época, passou a ser perseguido de forma indireta, mas crescente. Embora não tenha sido um alvo direto das perseguições, o contexto de censura fez com que ele visse suas liberdades artísticas comprometidas. Durante os primeiros anos após o golpe, ele foi censurado em várias publicações, e a repressão ao trabalho de artistas e jornalistas aumentava.

Diante da diminuição das liberdades no país e da perseguição à liberdade de expressão, Quino, como muitos outros artistas e intelectuais da época, tomou a difícil decisão de se exilar. O exílio se tornava uma necessidade não só por questões de segurança pessoal, mas também pela falta de espaço para uma expressão artística livre. Embora ele tenha permanecido na Argentina até 1976, a ascensão da censura e da repressão tornou impossível para Quino continuar sua produção sem um alto custo pessoal.

Em 1976, Quino se muda para Milão, Itália, onde continuou sua carreira e seguiu criando, mas agora com um olhar voltado para o mundo europeu e um cenário político diferente. Ele não foi o único a deixar o país; muitos outros artistas e escritores argentinos, como Osvaldo Soriano, Juan Gelman e María Elena Walsh, também se exilaram nesse período.

O exílio não foi fácil para Quino. No entanto, ele foi recebido calorosamente no meio artístico europeu, especialmente na Itália, onde a tradição do humor gráfico e da cartografia política era forte. Quino foi acolhido por diversas revistas e publicações italianas, como Linus e Il Corriere della Sera, onde continuou a produzir e a divulgar seu trabalho.

Apesar de estar distante da sua terra natal, o exílio não significou um afastamento da sua visão crítica e irônica. Ele continuou a refletir sobre questões políticas e sociais, tanto da Argentina quanto do mundo em geral, e seguiu com sua produção de quadrinhos, desenhos e livros.

A distância da Argentina também levou a uma evolução na sua perspectiva política. Embora o exílio fosse uma fuga da repressão, Quino continuava a ser uma voz contra qualquer tipo de opressão. Ele passou a abordar em seus desenhos temas mais universais, sem perder o caráter de crítica social, mas agora também voltado para o contexto europeu.

Durante o exílio, Quino continuou a criar suas tiras de humor gráfico. Apesar do distanciamento de Mafalda, ele não parou de trabalhar com temas políticos. A censura na Argentina foi um tema constante em suas obras, e ele se manteve fiel à sua crítica irônica e sensível à realidade social e política.

Quino lançou uma série de livros, incluindo “Quino, 50 años de humor” e “Quino por Quino”, que reuniam suas melhores produções e reflexões. Ele também trabalhou em projetos para outros países da América Latina, além da Europa, como o Brasil e o México, sempre com sua visão aguda sobre o comportamento humano e as dinâmicas de poder.

A Morte de Quino e o Legado de Mafalda

Em 30 de setembro de 2020, o mundo do humor e da arte perdeu uma de suas maiores referências. Quino faleceu aos 88 anos em sua cidade natal, Mendoza, Argentina, após um período de problemas de saúde. Sua morte ocorreu justamente no dia seguinte ao aniversário de 56 anos da primeira publicação de Mafalda, o que conferiu ainda mais simbolismo à sua partida.

A notícia de seu falecimento gerou luto e homenagens em todo o mundo, desde Argentina até outros países, como Espanha, Itália e Brasil, onde ele sempre teve uma enorme legião de fãs. Além de ser um dos cartunistas mais respeitados, Quino foi admirado por sua capacidade de unir humor, crítica social e reflexão filosófica.

A Repercussão internacional e homenagens

A morte de Quino provocou uma onda de homenagens, tanto de fãs quanto de grandes figuras culturais e políticas, refletindo o impacto duradouro de sua obra. Muitos destacaram não apenas o humor de Mafalda, mas também o caráter crítico e a sensibilidade social que o autor transmitiu em suas criações.

Organizações, jornalistas, escritores e ilustradores de todo o mundo reconheceram o legado de Quino e sua capacidade de transformar a crítica social em algo acessível e ao mesmo tempo profundo. Em vários países, foi feita uma espécie de revisitação à sua obra, especialmente de Mafalda, que voltou a ser lida e discutida em escolas e exposições.

Exposições sobre sua obra também foram organizadas em 2020, tanto em espaços físicos quanto em plataformas digitais, como tributos virtuais. Em Buenos Aires, o Museu do Livro e da Língua realizou exposições e eventos em memória ao criador de Mafalda.

Mafalda e o Legado Cultural

Mesmo após sua morte, a personagem Mafalda continuou a ser uma referência fundamental em debates sobre justiça social, política, direitos humanos, ecologia e igualdade de gênero. A relevância atemporal de Mafalda foi ressaltada, com muitas pessoas destacando o quanto suas reflexões sobre o mundo são ainda atuais, mais de cinco décadas depois de sua criação.

Em 2020, Mafalda foi novamente revisitada por novas gerações de leitores, especialmente com o crescimento das plataformas digitais e o aumento das leituras de obras clássicas durante a pandemia de COVID-19, quando muitas pessoas se viram em casa, em busca de livros e conteúdos que refletissem sobre a sociedade. A mensagem pacifista e crítica de Mafalda se manteve mais atual do que nunca, com temas como a crise política e social, a busca por justiça e a igualdade de direitos ganhando nova relevância.

Referências

ALTMAN, Fábio. Quino: lições de humanidade. Revista Veja, São Paulo, 2 out. 2020. Disponível em: https://veja.abril.com.br/cultura/quino-licoes-de-humanidade

Documentário revela a vida e os medos do criador de Mafalda, Quino. Inspired News, sem data. Disponível em: https://www.inspirednews.com.br/documentario-revela-a-vida-e-os-medos-do-criador-de-mafalda-quino

Mafalda: la niña respondona cumple sesenta años. El País, 29 set. 2024. Disponível em: https://elpais.com/cultura/2024-09-29/mafalda-la-nina-respondona-cumple-sesenta-anos.html

MÓYA, Álvaro de. Como surgiu a personagem Mafalda e uma análise da obra do argentino Quino. Estadão, 17 dez. 2014. Disponível em: https://www.estadao.com.br/cultura/literatura/como-surgiu-a-personagem-mafalda-e-uma-analise-da-obra-do-argentino-quino/

"Quinografía": o criador de Mafalda segundo os seus medos, as suas memórias e as vozes dos seus amigos. O Globo, 13 abr. 2025. Disponível em: https://oglobo.globo.com/cultura/noticia/2025/04/13/quinografia-o-criador-de-mafalda-segundo-os-seus-medos-as-suas-memorias-e-as-vozes-dos-seus-amigos.ghtml

Ternura, rebeldía, identidad: las razones de la vigencia de Mafalda en su sesenta aniversario. El País, 29 set. 2024. Disponível em: https://elpais.com/argentina/2024-09-29/ternura-rebeldia-identidad-las-razones-de-la-vigencia-de-mafalda-en-su-sesenta-aniversario.html


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