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Relatório sobre o evento de granizo em Piracicaba em 8 de março de 2024

De Wikiversidade

Publicado em 16 de junho de 2025

No dia 8 de março de 2024, Piracicaba foi atingida por um evento meteorológico significativo, que incluiu uma chuva intensa causando alagamentos pontuais e a ocorrência de granizo com pedras de até 2,4 cm de diâmetro no bairro Jardim Itapuã. Esse episódio de granizo, inesperado pelas modelagens meteorológicas vigentes, apresentou características atípicas, como pedras relativamente regulares e de superfície lisa, com exceção das pedras compostas, que exibiram maior irregularidade. Embora a maioria das pedras fosse de pequeno porte, foram observadas também pedras de médio tamanho, destacando-se pela fragilidade e semi-transparência, além de um rápido derretimento ao contato com o solo.

Este relatório tem por objetivo analisar detalhadamente as condições meteorológicas que favoreceram a gênese e o desenvolvimento da tempestade responsável pelo evento, descrevendo a dinâmica atmosférica envolvida, as características da precipitação e as particularidades do granizo observado. Será também abordada a comparação entre o evento real e as previsões meteorológicas disponíveis, com foco nos aspectos que contribuíram para a superação das expectativas iniciais.

Formação

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A gênese da tempestade esteve associada ao acúmulo significativo de calor tanto na superfície quanto em níveis médios da atmosfera, em um contexto de verão com temperaturas frequentemente superiores a 33°C em Piracicaba. Na data do evento, a temperatura máxima registrada foi de 33,4°C, com umidade relativa mínima de 61%, conforme dados do Centro Integrado de Informações Agrometeorológicas (CIIAGRO), o que proporcionou uma elevada disponibilidade de energia na atmosfera. Esse quadro foi reforçado pela entrada de um cavado em níveis médios atmosféricos, favorecendo a formação de uma célula convectiva que surgiu aproximadamente 30 km a leste de Araraquara, movendo-se para o sul.

Cronologia

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Por volta das 18h00 a 18h30, a célula intensificou-se ao passar sobre Ipeúna. A tempestade desenvolveu downdrafts que permitiram a auto-sustentação da célula por meio de correntes ascendentes intensas na frente de rajada, embora os ventos horizontais associados fossem relativamente fracos. A célula atingiu o município de Piracicaba próximo das 19h30, precedida por atividade elétrica significativa, com uma frequência estimada de 720 descargas por hora. Durante a passagem, foram registrados ventos moderados em torno de 50 km/h e precipitação intensa, com taxas que alcançaram até 50 mm/h em pontos monitorados por estações meteorológicas locais.

O granizo começou a ser observado no bairro Jardim Itapuã às 19h56, caracterizando uma queda de baixa frequência predominantemente composta por pedras pequenas, mas com ocorrência isolada de pedras maiores, algumas superiores a 2 cm, com fragilidade e semi-transparência evidentes. O diâmetro máximo registrado foi de 2,4 cm. A precipitação de granizo cessou abruptamente por volta das 19h59. Após o evento em Piracicaba, a célula avançou em direção ao sul, provocando queda de granizo em uma área rural ao norte de Capivari por volta das 20h00. Conforme o CIIAGRO, a precipitação acumulada em Piracicaba entre 19h00 e 20h00 foi de 36,5 mm, seguida por 4,8 mm entre 20h00 e 21h00 e 2,0 mm entre 21h00 e 22h00, totalizando 43,3 mm no período.

Comparação com as previsões

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Em comparação com as previsões meteorológicas convectivas, o evento superou as expectativas em relação à formação e intensidade do granizo. As análises da Plataforma de Registros e Rede Voluntária de Observadores de Tempestades Severas (o PREVOTS) previam potencial limitado para granizo no estado de São Paulo, com cisalhamento vertical do vento (CVV) fraco, em torno de 15 m/s, e índices de CAPE em torno de 500 J/kg. A situação observada em Piracicaba mostrou que a célula se manteve auto-sustentada devido ao movimento relativamente acelerado da frente de rajada em direção ao sul, que forçou o ar quente e úmido a ascender, gerando updrafts que superaram temporariamente os downdrafts. As correntes ascendentes mantiveram o gelo em suspensão por mais tempo na nuvem. Eventualmente, a força dos updrafts diminuiu, resultando na queda de granizo no Jardim Itapuã. A baixa frequência observada indica que os updrafts ainda estavam intensos e, portanto, o interior da célula ainda continha gelo em quantidade. Isso foi evidenciado pela posterior queda de granizo ao norte de Capivari, quando os downdrafts romperam a sustentação dos updrafts, provocando a liberação de gelo e, consequentemente, a dissipação da célula.