Reportagens do JOA/Beatriz Carvalho, Fidel Forato e Lívia Vitale

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Nas entrelinhas das palavras oficiais[editar | editar código-fonte]

“Não há crimes!” Respondeu de forma enfática o policial do posto 24 horas da Rua São Bento, no centro de São Paulo. Olhamos para o lado e tudo parecia muito tranquilo. O próprio funcionário público sentava-se confortavelmente em sua cadeira com uma arma na cintura. Ele estava por trás da guarita, envolta por um vidro insufilme preto. A conversa se sucedeu através de uma pequena abertura, um recorte no casulo de vidro. No entorno, os pedestres andavam rápido. Provavelmente era apenas a correria da rotina, mas jamais o medo. A maioria levava seus pertences muito próximos ao corpo. Talvez, devido ao afeto íntimo por aqueles objetos. Talvez, também pelo conforto de se ter a carteira de identidade próxima ao coração e ao peito. E os celulares só saíam dos bolsos para curtos passeios, afinal eles não gostam de conviver no mundo real.

Pura coincidência? Preferências de paulistano? O cuidado redobrado e os olhares atentos a quaisquer movimentos suspeitos nunca foram fundamentados por um ato concreto. Isso, segundo uma autoridade militar que preferiu manter seu nome em segredo e o sorriso capcioso nos lábios quando dissemos que éramos jornalistas. Com os olhos preocupados, logo encontrou o gravador que guardávamos em mãos. Não estava ligado, mas, mesmo assim, gerou uma profunda desconfiança do jornalismo que combate, luta e denúncia. Além daquele homem fardado, havia mais dois. Um deles buscava entender e nos ajudar na apuração, mas os outros o convenceram do contrário.

A busca continuava. Outros policiais apareceram dispostos a ouvir e, quem sabe, responder nossas dúvidas. Fracasso. A atenção era desviada pelo receio assim que escutavam a palavra “jornalismo”. A passos curtos e esperançosos, avistamos uma banca antiga. A simpatia aflorou daquela jovem alma de fartas rugas. Alberto sorriu. Pedimos uma entrevista. Ele negou. “Fui policial por 32 anos, se eu te contasse tudo que vi, não teria mais tempo para trabalhar”. Subiu em uma escada para pegar um objeto no alto de uma das prateleiras, virou de costas. Entendemos o recado. Fomos embora intrigados.

Óbvio que continuamos nossa procura pela realidade. Sílvia, funcionária de uma loja importados chineses, estava apenas começando mais um dia de trabalho no metrô. Não sentiu a movimentação de mãos suspeitas e leves dentro de sua bolsa. Foi deixada, no meio do caminho, sem a carteira, sem documentos, sem identidade. Já amiga e colega de trabalho, Camila, optou pela vida, frente a um moleque com canivete em mãos. Em troca, deixou sua bolsa ir para um destino desconhecido. Não há crimes?

Não muito longe dali, o prédio João Justino fecha religiosamente às 18 horas, mas os funcionários costumam estender o expediente. O seu Rubens é um dos mais aplicados e carrega em seu corpo as marcas de anos de trabalho. Antes das 19 horas, ele não coloca os pés na calçada e certamente está a agraciar o ouro e a prata, seus instrumentos do trabalho dentro da joalheira no quarto andar do prédio. Numa noite de julho, não havia sido diferente, porém ele não estava sozinho. Com uma arma na cabeça, deixou com que dois homens e uma mulher armados levassem, além das joias dos clientes, o seu trabalho e sua dignidade. Rubens com seus óculos quebrados foi deixado ali no chão do prédio 64 da rua Rua Barão de Paranapiacaba com a roupa do corpo e as dívidas que hoje trabalha dobrado para cobrir. Não há crimes?

Voltando para casa em um ônibus vermelho, que partia em direção ao Terminal Santo Amaro, algo nos chamou atenção. Aproximadamente 12 policiais armados, cercando alguns dos moradores de rua que ali estavam alojados, acolhidos em barracas encardidas, com roupas penduradas do lado de fora. Cinco policiais com suas atitudes se destacavam, cercaram um daqueles alojamentos azuis e precários, gritando para que o morador saísse. Um homem negro, de cabelos cacheados e um bigode malfeito manifestou-se, dando um passo à frente para se explicar. Eles não deram chance. Primeiro, os gritos fortes que ecoaram em meus ouvidos protegidos pela fina camada de vidro do transporte público. Depois, a cena. Aquela cena que o vidro não tampa e o metal também não, porque dói. A agressão, o desrespeito, a desesperança, a autoridade que se transforma em autoritarismo doentio. A pergunta que permanece: não há crimes?