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Resgatando a memória: uma breve história da Unesp e o legado da Fafi atual campus ffc de Marilia. - Luana Paulino de Melo

De Wikiversidade


Faculdade de Filosofia e Ciências - FFC/ Campus Marília

Luana Paulino De Melo


Resgatando a memória: uma breve história da Unesp e o legado da FAFI atual campus FFC de Marilia.

Começo esse trabalho refletindo sobre a importância da memória para a sociedade e os grupos que a cercam. Segundo o sociólogo francês, Michael Pollak a memória coletiva é um mecanismo pelo qual as sociedades preservam e transmitem seus relatos, experiências e valores ao longo do tempo. No entanto, ele vai além dessa perspectiva tradicional ao destacar a importância de como as memórias são selecionadas, ressignificadas e compartilhadas dentro dos grupos sociais. De acordo com Pollak, a memória é fundamental para a construção de uma identidade coletiva, pois é por meio dela que um grupo se reconhece e se define, estabelecendo um sentido de pertencimento e continuidade. Através das narrativas compartilhadas, o grupo cria um "nós" que o distingue de outros, reforçando seus valores e crenças, nesse sentido, memória também é vital para a formação da identidade social no sentido de que ela ajuda as pessoas a entenderem seu lugar na sociedade, por meio de suas lembranças e experiências compartilhadas, os indivíduos se inserem em um contexto maior, reconhecendo-se como parte de uma história comum.

Em primeiro lugar, são os acontecimentos vividos pessoalmente. Em segundo lugar, são os acontecimentos que eu chamaria de "vividos por tabela", ou seja, acontecimentos vividos pelo grupo ou pela coletividade à qual a pessoa se sente pertencer. São acontecimentos dos quais a pessoa nem sempre participou mas que, no imaginário, tomaram tamanho relevo que, no fim das contas, é quase impossível que ela consiga saber se participou ou não. Se formos mais longe, a esses acontecimentos vividos por tabela vêm se juntar todos os eventos que não se situam dentro do espaço-tempo de uma pessoa ou de um grupo.(POLLAK, 1992, pg.201)

Michael também enfatiza que, a memória coletiva tem um poder estruturante na sociedade, pois define os contornos do que é considerado legítimo ou relevante para determinado grupo social. A identidade social, portanto, não é algo dado ou imutável, mas um processo contínuo, em que o passado, a memória e as narrativas compartilhadas atuam como elementos-chave na definição da identidade de um grupo.

Partindo desse contexto, o presente trabalho visa resgatar fragmentos de uma memória coletiva, através da narrativa sobre a construção da Universidade Estadual Paulista e algumas vivências que fizeram parte de sua formação, bem como enfatizar como esse processo se deu a partir de outras associações acadêmicas já existentes. Partindo desse cenário, a Universidade Estadual Paulista (Unesp), fundada em 1976, representou um marco importante no processo de descentralização do ensino superior no Estado de São Paulo, sua criação foi fruto da incorporação de diversas unidades universitárias situadas no interior paulista, originadas, em sua maioria, na década de 1950 e início de 1960. Essas unidades, como a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Marília (Fafi), criaram as bases de um modelo de ensino superior voltado para a interiorização e democratização do acesso à educação no interior paulista, já que a maioria dos cursos de graduação de forma gratuita se concentravam em sua maioria na capital paulista, sobretudo na Universidade de São Paulo (USP). A história da Unesp, porém, não se resume apenas à sua fundação, mas à transformação dessas instituições isoladas de ensino superior, como a Fafi, que contribuíram para o fortalecimento da educação superior no estado.

“Inicialmente, a tese sobre a “FAFI de Marilia” denominação que ficou conhecida a faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Marilia/SP (1959-1975), da qual resultou este livro, teve origem pelo interesse despertado pela tese de Vaidergorn(1995), sobre as faculdades de filosofia, ciências e letras criadas entre 1957 e 1959 com a política de interiorização do ensino superior no estado de São Paulo, pelo então governador Jânio Quadros da Silva.”(CASTRO, 2009, pg 25).

A Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Marília, criada em 25 de janeiro de 1957, foi um dos marcos iniciais dessa trajetória. Fundada no governo de Jânio Quadros, em um período de expansão econômica e cultural da cidade, a Fafi simbolizava o crescimento de Marília e o desejo da cidade de se tornar um polo educacional no interior do oeste paulista. Durante sua criação, o governo do estado e a sociedade mariliense viam na educação uma ferramenta de desenvolvimento, assim, a fundação da faculdade não apenas atendeu à demanda local, mas também foi um reflexo das políticas públicas de expansão da educação superior que ganhavam força no Brasil.

“A Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Marília como Faculdade que, a exemplo dos demais institutos isolados de ensinos criados durante a década de 1950, havia se destacado pela dinamização econômica, política e cultural proporcionada à sua cidade-sede e pela importância a ela atribuída, não somente pelos políticos e pelos chamados” intelectuais da terra”, como também por parte de centros acadêmicos de outros estados brasileiros.”(CASTRO, 2009, pg. 25).

Entretanto, a transição da Fafi para a Unesp não ocorreu de forma imediata, entre a fundação da faculdade e sua aglutinação à Unesp, passaram-se 19 anos, um período no qual o cenário educacional e as necessidades da região passaram por mudanças significativas. A decisão de incorporar a Fafi à Unesp, passou por um contexto de reorganização administrativa, essa reorganização envolveu a redistribuição dos cursos e áreas de conhecimento dentro da nova estrutura da universidade. Por exemplo, em 1976, quando a Fafi foi incorporada a Unesp, o Conselho Universitário Provisório da universidade decidiu transferir as áreas de História e Letras para Assis, ao mesmo tempo, extinguiu o curso de Licenciatura em Ciências que era oferecido, em contrapartida, o curso de Filosofia foi transferido para Marília. Após a integração da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Marília (Fafi) à Unesp, a instituição passou por um processo contínuo de expansão e diversificação de suas áreas de conhecimento, em um movimento de adaptação às demandas educacionais e ao contexto social da região, foram criadas novas áreas de estudo, ampliando as possibilidades de formação para os estudantes. Posteriormente foram instituídos outros cursos, como o de biblioteconomia e pedagogia, que contribuiu para um avanço significativo no compromisso da faculdade com a formação de educadores. Na década de 1990, o campus de Marília experimentou um crescimento ainda mais expressivo, a instituição inaugurou o curso de Fonoaudiologia, nessa condição, a denominação da faculdade foi alterada para Faculdade de Filosofia e Ciências da Unesp ( FFC ), Campus de Marília e, a partir de 2003 os cursos de fisioterapia, terapia ocupacional, relações internacionais e arquivologia também foram implantados da unidade como reflexo dessa expansão.

Ao resgatar alguns fragmentos das memórias sobre a construção da Unesp como instituição e a integração dos institutos isolados de ensino superior como a Fafi de Marília, é importante também resgatar e pontuar o contexto histórico e politico que o país viva na época, pois esses são elementos que afetam tanto as dinâmicas da sociedade, como também as dinâmicas das instituições de ensino superior. Nos períodos 1964 - 1985, o Brasil passou por um regime militar, regime este que estabeleceu a censura à imprensa, restrição aos direitos políticos e perseguição policial aos opositores do regime. Além disso, um dos campos mais afetados durante os anos em que a ditadura foi implementada, foi o campo da educação como um todo, sobretudo os da educação superior. Apesar da maior repreensão ditatorial no meio acadêmico ter se concentrado com mais fervor nas capitais e consequentemente em universidades como USP no estado de São Paulo, os institutos isolados e posteriormente os campus da Unesp, não saíram ilesos e também foram muito afetado com o golpe.

“O ingresso na Fafi foi uma coisa maravilhosa e provocou em mim um grande  amor. Era uma faculdade modelo, os professores eram da USP, tinham um jeito de  ensinar... muito, muito bom, principalmente o de Sociologia, Wilson Cantoni... os de  Filosofia, Aiex e Aloisio Reis de Andrade, também eram especiais... me apaixonei por  essas disciplinas por causa dos professores que tive... só o final do curso não teve  nada de glorioso... fui parar na cadeia[...] quando  voltei para a faculdade meus professores queridos não estavam mais lá, muitos  colegas tinham ido embora... se isso não tivesse acontecido creio que teria feito  carreira universitária, mas depois do que presenciei em Rio Preto... não... nunca.”( AMORIM, 2009, pg.137).

O medo, a prosseguição, as prisões, as torturas e os exílios foram uma realidade vivida por diversos professores, alunos e funcionários dentro dos institutos e da Unesp, principalmente nos campus em que se concentrava em sua maioria os cursos nas áreas das ciências humanas, como, por exemplo, história, sociologia, filosofia, ciências sociais, pois, esses cursos e as pessoas que os cercavam eram vistos de alguma forma como “perigosos” pelo então governo.

Por fim, este trabalho estabelece uma conexão direta com a memória, especialmente a memória coletiva, ao relacionar a fundação da Universidade Estadual Paulista, os istitutos de ensino superior como a Fafi de Marília,(atual campus Unesp Marília FFC) e as trajetórias de pessoas e eventos que moldaram não apenas a história da instituição, mas também a vida daqueles que dela fizeram parte e ainda fazem. Como bem destaca Vieira (2014), “As narrativas do passado, alegres ou tristes, modulam nossa identidade, nos ensinam a viver com consciência o presente e a preparar o futuro. É manter a memória viva para que as lindas histórias nunca se acabem e as tristes, jamais voltem a acontecer.” Dessa forma, resgatar essas memórias por meio desta breve narrativa faz parte de um exercício sobre a preservação histórica, como também é um meio de reafirmar a importância de refletirmos sobre o passado para fortalecer nossa identidade e memória coletiva.

   Referências:

AMORIM, Maria Aparecida. No interior… ditadura militar e ensino superior (FAFI/UNESP)  Memórias Sobre a Intervenção na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de São José do Rio Preto. Programa de pós-graduação em história social. São Paulo. 2009.

Assessoria de Comunicação do CEDEM, da Unesp. CEDEM torna público Relatório da Comissão da Verdade da Unesp. 2022. Disponível em: <https://www.cedem.unesp.br/#!/noticia/591/cedem-torna-publico-relatorio-da-comissao-da-verdade-da-unesp/>. Acesso em: 15 nov.2024.

CASTRO, Rosane. A produção de uma faculdade. As revistas alfa, estudos históricos e didática e a “FAFI de Marilia”. Marília: Cultura Acadêmica. 2009.

LEME, Luiz. FAFI e a criação da Unesp em Marília. 2012. Disponível em: <https://www.marilia.unesp.br/#!/instituicao/apresentacao/a-faculdade/>. Acesso em: 15 nov. 2024

POLLAK, M. Memória e identidade social. Estudos históricos, Rio de Janeiro, v. 5, n. 10, p. 200-212, 1992.

SARDENBERG, Trajano. Carta aberta à Unesp. 2024. Disponível em: <https://www.fmb.unesp.br/#!/noticia/3312/carta-aberta-a-unesp/>. Acesso em: 15 nov. 2024.

VIEIRA, Rosângela, (org). Ecos da ditadura na sociedade brasileira. Marília: Cultura Acadêmica. 2014.

VALLE, Maria Ribeiro do; CARDOSO, Clodoaldo Meneguello; FERREIRA, Antonio Celso; CORRÊA, Anna Maria Martinez (Orgs). Tenho algo a dizer: memórias da UNESP na ditadura civil militar (1964-1985). Bauru: Cultura Acadêmica, 2014.