Ir para o conteúdo

Rolezinho Linguístico/Arquivo/Guia 2025

De Wikiversidade

Esta página faz parte do arquivo histórico e deve ser desconsiderada para qualquer outra finalidade.

Favor não editá-la nem criar ligações para ela.


A seguir estão as informações da edição de 2025.

Neste Rolezinho de 2025, todos os grupos vão desenvolver uma mesma proposta: realizar uma análise variacionista da manifestação verbal do futuro do presente no português brasileiro contemporâneo. Com o termo variacionista, estamos aqui demarcando que esta pesquisa segue (de modo aproximado) a metodologia de pesquisa desenvolvida por William Labov (1927-2024) dentro do âmbito da Sociolinguística. Portanto vale a pena conhecermos alguns conceitos principais relacionados a essa linha de pesquisa.

Heterogeneidade ordenada

[editar | editar código]

Como o próprio nome sugere, para a Sociolinguística a língua é inerentemente social; e assim como os indivíduos de uma sociedade não se comportam de uma única forma, também a língua não é usada, manifestada de uma mesma forma por todos os falantes. É nesse sentido que dizemos que a língua é heterogênea, não-uniforme, diversa.

Embora sob essa perspectiva a língua pudesse parecer um grande “caos”, a Sociolinguística postula que essa heterogeneidade é ordenada, ou seja, que as formas não são utilizadas por quaisquer falantes em quaisquer situações comunicativas.

Desvendar a ordenação (isto é, a organização, distribuição) de uso de um determinado fenômeno variável por um determinado grupo de falantes é o grande objetivo de uma pesquisa nessa corrente da linguística - e das nossas pesquisas neste Rolezinho.

Variação, variável, variantes

[editar | editar código]

O termo variação diz respeito a um fenômeno presente em todas as línguas, que é a existência de duas ou mais formas linguísticas para exprimir um mesmo significado. A variação pode ser encontrada em todos os níveis da língua. Por exemplo:

  • no léxico: alternância regional entre “menino”, “garoto”, “moleque”, “piá”, “curumim”, “guri”, “rapaz”, “pirralho”, entre outros.
  • na fonologia: pronúncias m[e]nino, m[ɛ]nino e m[i]nino para a palavra “menino”.
  • na morfologia: coexistência de coroação e coroamento; acumulação e acumulamento.
  • na sintaxe: alternância entre “a música de que eu gosto muito” [estratégia padrão], “a música que eu gosto muito” [estratégia cortadora] e “a música que eu gosto muito dela ” [estratégia copiadora].
  • na semântica: uso do diminutivo -inho para exprimir tamanho pequeno (como em “mesinha”), afeto (como em “benzinho”), ofensa (como em “povinho”), entre outros sentidos.

A variável linguística (ou regra variável, fenômeno variável) é um elemento variável dentro do grande sistema que é a língua. De modo simplificado, podemos dizer que é um fenômeno específico de variação.

As variantes linguísticas, por sua vez, são as formas linguísticas que convivem nesse fenômeno variável, isto é, “os modos alternativos semanticamente equivalentes de dizer ‘a mesma coisa’ (valor referencial ou representacional) em um mesmo contexto” (Freitag e Lima, 2010, p. 50).

Como sistematizado na tabela abaixo, cada um dos exemplos acima constitui um fenômeno variável, com suas variantes.

Exemplificação de fenômenos variáveis e suas variantes
Nível de análise Exemplo de variável Exemplo de variantes dessa variável
léxico expressão nominal para o referente ‘criança do gênero masculino’ menino, garoto, moleque, piá, curumim, guri, rapaz, pirralho…
fonologia alteamento da vogal [e] pretônica vogais [e], [ɛ] e [i]
morfologia nominalização deverbal por derivação sufixal sufixos -ção e -mento
sintaxe construção da oração adjetiva oração padrão, oração cortadora e oração copiadora
semântica multiplicidade de sentidos do uso de diminutivo tamanho pequeno, afeto, desdém...

Neste Rolezinho estamos lidando com uma variação no nível morfossintático. O fenômeno variável é a manifestação formal do verbo quando usado para expressar o tempo futuro do presente. Este fenômeno é nosso objeto de estudo e comporta, pelo menos, quatro variantes: a simples com marcação de futuro (como em “farei”); a composta com verbo auxiliar no presente (como em “vou fazer”); a composta com verbo auxiliar no futuro (como em “irei fazer”); e a simples com marcação de presente (como em “faço”). Os termos “simples” e “composto” também podem ser nomeados como “sintético” e “analítico”.

Fatores de análise

[editar | editar código]

A variável linguística também é chamada de variável dependente, porque o uso das variantes pode ser condicionado, motivado, influenciado por fatores internos (do sistema gramatical) e externos (da sociedade). E cada um desses fatores que influencia a ocorrência de uma variante (em detrimento de outra) é uma variável independente.

As variáveis externas podem marcar uma relação de identidade ou pertencimento a um grupo (daí a percepção de que “tal grupo fala dessa forma”). Com isso, queremos dizer que uma variante pode ser usada com muito mais frequência por uma determinada comunidade, mas isso não impede que seja utilizada também por outras. Geralmente os fatores sociais investigados nas pesquisas são:

  • sexo/gênero: é um fator mais fácil de lidar, mas nem sempre se revela decisivo.
    • “Na vida adulta, os estudos sociolinguísticos apontam que homens e mulheres têm diferenças (mais ou menos sutis) em seu falar. Em função de seu papel social de exemplo na educação dos filhos, as mulheres tendem a preferir o uso de variantes linguísticas mais prestigiadas socialmente, bem como são mais sensíveis ao prestígio social das formas linguísticas. Já quando as variantes são desprestigiadas, as mulheres assumem uma atitude conservadora; homens tendem a liderar a mudança, nesse caso” (Freitag e Lima, 2010, pg 76)
  • idade: é um fator muito importante, porque favorece o estudo da mudança linguística. Há várias formas de aplicar esse fator; deixamos abaixo algumas sugestões.
    • “Labov (1994) propõe duas faixas extremas: a dos mais velhos e a dos mais jovens. Chambers (2003) propõe três: crianças, adolescentes e adultos. Eckert (1997), por sua vez, propõe que as faixas etárias representam o curso da vida linguística: infância, adolescência, vida adulta e velhice.” (Freitag e Lima, 2010, p. 74).
    • Tarallo, em seu livro norteador “A pesquisa sociolinguística” (1985), sugere três faixas: 15-29 anos; 30-45 anos; e 46-60 anos.
    • Três projetos de pesquisa variacionista muito tradicionais usaram as seguintes faixas: i) Projeto NURC: 25-35 anos; 36-55 anos; e 56 anos em diante; ii) PEUL: 15-25 anos; 26-49 anos; e 50 anos em diante; e iii) VARSUL: 15-24 anos; 25-49 anos; e 50 anos em diante.
  • nível de escolarização: nas pesquisas sobre o português brasileiro, este é um fator muito recorrente, porque é mais claramente delimitável do que o fator “classe social”. Pode ser mensurado conforme polarização alfabetizado vs. não alfabetizado; ou conforme as etapas de educação formal.
  • região: é um forte motivador de diferenciação entre dialetos. Podem ser comparadas diferentes regiões geográficas, estados, cidades, bairros, entre outros.
  • modalidade: é um fator que pode mostrar características próprias da fala, da escrita ou do universo digital; ou revelar a influência de outras variáveis, como escolarização e classe social. Neste Rolezinho, já estipulamos duas categorias: meio sonoro (oral) e meio gráfico (escrito ou digital).
    • Tenha em mente que há uma gradação entre esses meios, porque os gêneros textuais podem ser produzidos com planejamento prévio, com roteiro escrito ou com intenção de ser registrado, por exemplo. Dessa forma, uma conversa espontânea entre amigos pode ser considerada mais oral do que uma notícia televisiva.
  • grau de monitoramento: é um fator importante para considerar o grau de espontaneidade da situação comunicativa. O monitoramento diz respeito à atenção que o falante confere sobre si mesmo quanto ao uso da língua; em uma atitude muito monitorada, o sujeito tende a escolher com mais cautela as estratégias linguísticas ou mesmo preferir variantes de maior prestígio. Ainda que não seja diretamente mensurável, o grau de monitoramento pode ser (mais ou menos) inferido de acordo com a situação comunicativa e o gênero textual.

As variáveis internas também podem ser decisivas para a escolha de uma ou outra variante - especialmente se não parece haver uma motivação social. Os fatores internos podem ser muitos e variados, afinal a língua é um fenômeno complexo com muitos níveis de análise. Abaixo listamos alguns fatores estruturais investigados nas pesquisas sobre uso do futuro verbal, mas essa não é uma lista fechada: seu grupo pode analisar algum(ns) desses fatores e/ou outros não listados. Siga a sua intuição de falante.

  • Extensão fonológica do verbo: pode ser medida em quantidade de sílabas.
  • Paradigma verbal: verbos regulares e irregulares.
  • Conjugação verbal: verbos de 1ª, 2ª e 3ª conjugação.
  • Pessoa verbal: 1ª, 2ª e 3ª pessoas do singular e do plural.
  • Papel temático do sujeito: de modo simplificado, é possível analisar se o papel é agente ou paciente (ou seja, se a atitude do sujeito na ação verbal é ativa, como em “ele doará um livro”, ou passiva, como em “ele receberá um livro”). Não confundir com voz ativa e passiva. Existe uma classificação extensa de papeis temáticos, cujo resumo pode ser conferido aqui.
  • Tipo de sujeito: se preenchido lexicalmente (com expressão nominal, pronome ou oração) ou não; e se determinado ou indeterminado.
  • Tipo de verbo: se principal ou auxiliar.
  • Transitividade verbal: se transitivo ou intransitivo. Há diversas classificações entre as gramáticas tradicionais e entre as correntes da Linguística.
  • Projeção de futuridade: futuro próximo ou distante.
  • Presença/ausência de futuridade fora do verbo: presença (ou não) de outras marcas de futuro, como advérbios de tempo e orações temporais.
  • Modalidade: o verbo pode ter (ou não) valor modal epistêmico (de certeza), deôntico (de ordem, obrigação) ou outro.

Para ter uma noção de como esses fatores se relacionam com o uso do futuro do presente, indicamos a leitura deste artigo e deste outro.

É possível ler outras pesquisas semelhantes ou relacionadas, como essa, esta e aquela.

Status social das variantes

[editar | editar código]

Ao serem correlacionadas a determinado grupo social, as variantes podem sofrer avaliação, julgamento de valor. Assim, pode-se dizer que há variantes:

  • Estigmatizadas, quando são associadas a um determinado grupo social estigmatizado, estereotipado ou de baixo prestígio. Ocorre, assim, uma avaliação negativa da variante linguística que decorre antes de uma avaliação negativa do grupo social. Essa estigmatização pode ser observada em atitudes de preconceito linguístico.
  • Neutras, quando não há associação negativa ou positiva.
  • De prestígio, quando são associadas a um dado grupo social de prestígio na sociedade, sendo portanto valorizadas pelo falante.

Atente-se que a avaliação social é feita pelo falante. Logo, uma variante pode ser estigmatizada por falantes de uma região e soar neutra à avaliação de falantes de outra região, por exemplo.

Hipercorreção

[editar | editar código]

As dinâmicas sociais de estigma e prestígio podem conduzir os indivíduos a uma atitude de “correção” linguística, isto é, de substituição de uma variante estigmatizada por outra de maior prestígio. No Brasil, isso ocorre na escrita formal (por exemplo, a maioria dos brasileiros diz “tá”, mas prefere escrever “está” em um relatório de trabalho), na interação de fala entre pessoas de classes sociais diferentes (por exemplo, uma pessoa pode falar “nós vai” com seus familiares e “nós vamos” com uma pessoa de autoridade), entre outras situações.

A procura por correção pode levar, no entanto, a um “erro”, ou melhor, ao uso de uma forma linguística que não é prevista na norma padrão nem é usada naturalmente por ninguém. Trata-se de uma hipercorreção: o falante tem tanto medo de “falar errado” que acaba exagerando na “correção” (Belga, 2019, p. 37-39). Algumas formas linguísticas que surgem desse fenômeno são, por exemplo, “carangueijo” e “prazeiroso” (em que se adiciona um ditongo, tal como se faz na correção de “pexe” para “peixe”); e “telha” de aranha ou “pilha” de cozinha (em que se transforma o /j/ em /λ/, tal como na correção de “paia” para “palha”. Você pode conferir mais exemplos no livro “Falsas elegâncias”, de Marcos Bagno (2020), através deste link.

Neste Rolezinho, a proposta de pesquisa envolve um caso de hipercorreção: a forma composta com verbo auxiliar no futuro (como “irei fazer”), como afirma Bagno (2012, p. 579-580).

Metodologia

[editar | editar código]

Tradicionalmente, a Sociolinguística variacionista se preocupa em estudar a língua oral de uso espontâneo não monitorado, em situações de comunicação face-a-face. Esse contexto é o que poderíamos chamar de língua do dia a dia. Como diz Tarallo (1985, p. 19): “É a língua que usamos em nossos lares ao interagir com os demais membros de nossas famílias. É a língua usada nos botequins, clubes, parques, rodas de amigos; nos corredores e pátios das escolas, longe da tutela dos professores. É a língua falada entre amigos, inimigos, amantes e apaixonados.” Para ter acesso a esse registro, foi necessário desenvolver um processo de coleta específico, que é comumente chamado de entrevista sociolinguística.

Os demais registros de uso da língua (como, por exemplo, a fala monitorada e a escrita não monitorada) também são investigados, mas com a compreensão de que nesses contextos a escolha das variantes pode ser menos intuitiva e espontânea.

Neste Rolezinho, os grupos devem escolher uma das quatro opções de registro da língua: meio gráfico com alto grau de monitoramento; meio gráfico com baixo grau de monitoramento; meio sonoro com alto grau de monitoramento; ou meio sonoro com baixo grau de monitoramento. Em seguida, devem realizar a pesquisa seguindo as etapas descritas na proposta e comentadas a seguir. Os grupos que escolherem a última opção podem realizar entrevistas sociolinguísticas.

Etapas de pesquisa

[editar | editar código]

Em geral, as pesquisas são desenvolvidas seguindo uma sequência de etapas, dentre as quais se destacam:

Delimitação do tema

[editar | editar código]

Definir o objeto de estudo (qual fenômeno variável será abordado) e prever quais variantes podem ocorrer. Além disso, deve se considerar qual é o interesse em estudar esse objeto, quais curiosidades ele desperta.

  • Isso não anula, naturalmente, que também sejam encontradas, durante a coleta de dados, variantes não previstas.
  • Essa etapa já está parcialmente determinada neste Rolezinho, o objeto é a manifestação verbal do futuro do presente no português brasileiro contemporâneo. Cabe ao grupo “envelopar” esse objeto em um tema, conferir-lhe um interesse, uma justificativa.

Escolha do registro e dos grupos sociais

[editar | editar código]

Definir quais textos serão investigados. Isso implica delimitar o “tipo” de texto, através de características como o meio, o grau de monitoramento e o gênero textual; e o “recorte” da população, isto é, a exata parcela do conjunto de falantes que será observada.

  • Neste Rolezinho, a escolha dos textos está mais ou menos direcionada: o grupo deve selecionar um dos quatro meios pré-determinados e definir o(s) gênero(s) textual(is). Por outro lado, o “recorte” da população está mais flexível: é possível considerar os falantes brasileiros de um modo geral, ou especificar um grupo (como, por exemplo, sujeitos pernambucanos; ou ainda mais específico, como pernambucanos adultos da comunidade LGBT+).

Estabelecimento de hipóteses

[editar | editar código]

Prever como deve ser o uso das variantes no registro e recorte selecionados. Em geral, tenta-se responder às seguintes perguntas: nesse contexto há variação ou não? Em caso afirmativo, quais variantes ocorrem? Quais variantes são mais frequentes? E quais, menos frequentes? Quais fatores sociais e estruturais influenciam o uso de cada variante por cada grupo social? Há variantes estigmatizadas ou de prestígio?

  • Note que pode ser relevante estabelecer fatores (variáveis) estruturais já no início da pesquisa. Também é possível adicionar (outros) fatores de análise no decorrer da investigação.
  • Todas as hipóteses, mesmo aquelas que surgirem ao longo da análise, devem ser formuladas antes da geração de resultados.

Montagem do corpus

[editar | editar código]
Tutorial 1 - delimitando a pesquisa e montando o corpus.
Tutorial 2 - compilando o corpus.

Selecionar os textos que serão investigados, compondo um corpus de pesquisa (ou seja, um conjunto, um “banco” de textos). O corpus pode ser formado por um único grupo de textos ou ser dividido em subconjuntos de acordo com os fatores de análise pretendidos.

  • É importante que o corpus tenha tamanho suficiente para a coleta. Um fenômeno muito frequente (como a concordância verbal, por exemplo) pode ser analisado com um corpus menor, em comparação com um fenômeno menos frequente (como o uso de vocativos). Mas também é necessário considerar o gênero textual; por exemplo, anúncios de jornal podem ter poucas sentenças com sujeito determinado, demandando um corpus bem maior para a análise da concordância verbal, enquanto peças de teatro favorecem o uso de vocativos, podendo reduzir o tamanho necessário do corpus.
  • Também é importante que o corpus seja representativo do “recorte” de população pretendido. Se há intenção, por exemplo, de comparar a fala de homens e mulheres, é preciso ter uma quantidade equilibrada (senão igual) de textos falados por homens e mulheres. Além disso, é desejável que a escolha dos falantes (autores dos textos) seja aleatória, para que não ocorra enviesamento do resultado. Voltando ao exemplo: seu grupo pode ter conseguido 10 textos de autoria masculina e 10 de autoria feminina, mas se os 10 homens são idosos enquanto as 10 mulheres são de idade diversas, a variável idade pode afetar a comparação pretendida entre homens e mulheres.
    • Tradicionalmente, dá-se prioridade na montagem do corpus a “indivíduos que sejam falantes nativos da língua, que tenham morado na cidade onde nasceram por pelo menos 2/3 de sua vida, preferencialmente filhos de pais nascidos e criados na mesma cidade, que não tenham morado fora da cidade no período de aquisição da língua – notadamente, infância e adolescência – e, ainda, que não causem estranheza aos demais falantes da comunidade” (Freitag e Lima, 2010, p. 85-86). Contudo, a avaliação do Rolezinho não cobrará isso.
  • No Rolezinho, o grupo pode escolher entre montar seu próprio corpus ou usar um corpus (de textos orais ou escritos) já existente. Os grupos do meio sonoro de baixo grau de monitoramento também têm a opção de gravar suas próprias entrevistas sociolinguísticas. Leia a página Corpora para ver algumas sugestões e conhecer importantes bancos de dados linguísticos do português brasileiro.

Coleta de dados

[editar | editar código]
Tutorial 3 - montando a planilha de coleta e análise.

Examinar os textos do corpus, identificar as ocorrências das variantes e anotar as ocorrências em uma planilha.

  • Neste Rolezinho, sugerimos coletar as 50 ocorrências mais recentes em cada subconjunto de corpus. Por exemplo, se o grupo escolher três gêneros textuais diferentes (digamos: conto, artigo de opinião e reportagem), pode coletar as 50 primeiras ocorrências encontradas em contos, depois as 50 primeiras em artigos de opinião e por fim as 50 primeiras em reportagens. Outro exemplo, se o grupo escolher analisar o fator idade, pode coletar 50 dados entre jovens, 50 entre adultos e 50 entre idosos.
  • Não há necessidade, mas caso o grupo escolha investigar dois ou mais fatores sociais, sugerimos não trabalhar com essa meta de 50 para cada subconjunto, mas sim com a meta de 200 dados totais.

Tratamento dos dados

[editar | editar código]
Tutorial 4 - coletando e analisando os dados.

Analisar cada dado coletado, conforme os fatores sociais e estruturais definidos. É importante que cada fator seja delimitado em categorias para permitir a geração de resultados quantitativos. Por exemplo, o fator idade pode ser anotado em três categorias (jovem, adulto e idoso) e o fator “extensão fonológica do verbo” em quatro categorias (1 sílaba, 2 sílabas, 3 sílabas e 4 ou mais sílabas).

  • Também é importante fazer uma análise qualitativa dos dados, lendo atenciosamente o contexto de ocorrência para verificar se há influência de outros fatores.

Geração de resultados

[editar | editar código]
Tutorial 5 - usando ferramentas da planilha para análise dos dados.

Computar as frequências de ocorrência de cada variante de acordo com os fatores estipulados e gerar tabelas e gráficos. Também observar se as anotações de análise qualitativa revelam alguma informação importante ou se direcionam para alguma generalização.

  • Os resultados quantitativos precisam ser interpretados. Questione: o que o número parece indicar? Esse número é muito ou pouco expressivo? O valor encontrado para um fator pode ter sofrido influência de outro fator?
  • O ideal é que os resultados quantitativos passem por tratamento estatístico (para além de números brutos e porcentagem), mas isso não será cobrado no Rolezinho.
  • De posse dos resultados, é necessário conferir se as hipóteses foram (total ou parcialmente) confirmadas ou refutadas.
  • Ausência de dados e refutação de hipóteses fazem parte da ciência e não significam que a pesquisa “deu errado”. Nesses casos, é necessário observar e refletir: por que não encontrei nenhum dado daquela variante? Por que a minha hipótese não se confirmou? É necessário melhorar a hipótese ou buscar outra futuramente?

Conclusão

[editar | editar código]

Resumir os resultados obtidos e avaliar a checagem das hipóteses. Corresponde à etapa final do trabalho de pesquisa, mas não ao fim das investigações; por isso, é necessário esclarecer os encaminhamentos futuros (o que mais pode/poderia ser feito no futuro por seu grupo ou outros pesquisadores) e as limitações (quais foram as dificuldades enfrentadas, quais os limites teóricos e metodológicos da abordagem adotada).

Entrevista sociolinguística

[editar | editar código]

No encalço de obter dados linguísticos com o menor grau possível de monitoramento do falante, a Sociolinguística variacionista tem investido na gravação de áudio de entrevistas sociolinguísticas, que são situações de interação face-a-face em que o pesquisador conversa com um falante, o qual será um informante para a pesquisa. Essas entrevistas são realizadas com falantes de uma mesma comunidade de fala, seguindo um roteiro, e depois são transcritas e compiladas formando um corpus.

Planejamento

[editar | editar código]

Depois de definir o objeto de estudo e considerar quais fatores sociais provavelmente são relevantes para o fenômeno variável sob interesse, o pesquisador planeja quais e quantos informantes ele entrevistará. Uma boa estratégia para garantir equilíbrio de tamanho e representatividade do corpus é fazer uma tabela com os fatores sociais. No exemplo abaixo (retirado de Freitag e Lima, 2010, pg 86), a pesquisa pretende analisar (pelo menos) o gênero, a idade e a alfabetização, e será entrevistado um mesmo número X de informantes para cada célula da tabela. Tradicionalmente almeja-se o número de 5 indivíduos em cada célula, mas nem sempre há tempo e recursos suficientes para isso (ainda no exemplo abaixo, seria necessário realizar 60 entrevistas, um número muito alto). O número mínimo costuma ser 2 informantes por célula - valor este que parece mais apropriado para o Rolezinho.

Estratificação social de uma amostra (Freitag e Lima, 2010)
Analfabetos Alfabetizados
Masculino Feminino Masculino Feminino
Adolescentes X X X X
Adultos X X X X
Jovens X X X X

Durante a entrevista, é importante que o indivíduo se sinta o mais confortável possível e tente ignorar que está sendo gravado por um pesquisador. Uma boa estratégia nessa direção é montar um roteiro de perguntas que estimulem o informante a abordar delongadamente algum assunto de seu interesse ou que lhe seja envolvente. Tarallo (1985, p. 22) e Freitag e Lima (2010, p. 88) elencam algumas sugestões de tema: histórias de vida, fatos da infância, namoros, brigas, risco de morte, amigos, religião, escola, trabalho, entre outros.

Os mesmos autores indicam três situações discursivas, dando prioridade à primeira: narrativas de experiências pessoais, como pedir que o falante relate algo que aconteceu em sua vida; questões dissertativas/opinativas sobre um tópico específico, como pedir que comente ou explique algo sobre esporte ou política; e questões procedurais, como pedir que se ensine uma receita ou o modo de chegar em algum lugar.

Essas sugestões têm justificativa:

“Ao falar sobre experiências com as quais se envolveu afetivamente, o falante envolve-se com o tema discorrido e se esquece de monitorar a fala” (Freitag, p. 88).

“Os estudos de narrativas de experiência pessoal têm demonstrado que, ao relatá-las, o informante está tão envolvido emocionalmente com o que relata que presta o mínimo de atenção ao como.” (Tarallo, pg. 22).

É importante que as entrevistas sigam o mesmo roteiro e tenham a mesma duração de tempo aproximada.

Protocolo de entrevista

[editar | editar código]

Ao abordar um possível informante, não se deve informar que o objetivo da pesquisa é analisar sua fala (e muito menos o fenômeno variável escolhido como objeto de estudo), porque isso fará com que ele eleve seu grau de monitoramento.

Caso o sujeito concorde em participar da entrevista, o pesquisador deve fazer a checagem social: perguntar seus dados pessoais (como idade, gênero e escolaridade) para conferir se ele é realmente elegível para a pesquisa.

Para o momento da entrevista, é importante escolher um ambiente calmo, silencioso e confortável para o informante. Preferência por um bom gravador de voz, que deve ser posicionado entre o entrevistado e o entrevistador.

A entrevista transcorre mais como um monólogo do que como um diálogo. O entrevistador deve lançar a pergunta e deixar que o informante fale à vontade.

Ao final da entrevista, é imprescindível que o entrevistado assine um termo de autorização (caso continue concordando em participar da pesquisa, é claro). Esse termo deve ser preparado pelo grupo do Rolezinho e revisado pela equipe de orientadores. É possível conferir um modelo aqui (conferir página 90).

Por fim, o entrevistado deve ser referenciado de forma anônima, por meio de um código, e a entrevista é transcrita.

Referências

[editar | editar código]

ALMEIDA, Fernanda dos Santos; FIGUEIREDO, Joana Gomes dos Santos; OLIVEIRA, Josane Moreira de. Relevância de variáveis linguísticas e sociais na expressão do futuro verbal. XVII CONGRESO INTERNACIONAL ASOCIACIÓN DE LINGÜÍSTICA Y FILOLOGÍA DE AMÉRICA LATINA (ALFAL 2014). João Pessoa - Paraíba, Brasil. Disponível online em: https://www.mundoalfal.org/CDAnaisXVII/trabalhos/R0487-1.pdf

ARAÚJO, Jussara Maria Oliveira de. A expressão de futuridade na escrita jornalística manauara dos anos 80 aos dias atuais: um estudo sociofuncionalista. Dissertação (Mestrado em Letras e Artes) - Universidade do Estado do Amazonas. Manaus, 2016.

BAGNO, Marcos. Falsas elegâncias: como evitar a hipercorreção na escrita formal. São Paulo: Parábola, 2020. Disponível online em: https://www.parabolaeditorial.com.br/Custom.asp?IDLoja=34487&arq=ebook.htm

BAGNO, Marcos. Preconceito linguístico. In: FRADE, Isabel Cristina Alves da Silva; VAL, Maria da Graça Costa; BREGUNCI, Maria das Graças de Castro (orgs). Glossário Ceale: termos de Alfabetização, Leitura e Escrita para educadores. Belo Horizonte: UFMG/Faculdade de Educação, 2014. Disponível online em: https://www.ceale.fae.ufmg.br/glossarioceale/verbetes/preconceito-linguistico

BAGNO, Marcos. Variação linguística. In: FRADE, Isabel Cristina Alves da Silva; VAL, Maria da Graça Costa; BREGUNCI, Maria das Graças de Castro (orgs). Glossário Ceale: termos de Alfabetização, Leitura e Escrita para educadores. Belo Horizonte: UFMG/Faculdade de Educação, 2014. Disponível online em: https://www.ceale.fae.ufmg.br/glossarioceale/verbetes/variacao-linguistica

BAGNO, Marcos. Lexicogramática do português brasileiro: No princípio era… o verbo: Categorias semânticas do verbo: Tempo. In: ______. Gramática pedagógica do português brasileiro. São Paulo: Parábola Editorial, 2012, p. 574–580. Disponível na pasta do Rolezinho.

BANDEIRA, Grace Freire; RAMOS, Rodrigo Felipe. Expressões de futuridade em cartas manuscritas do século XIX. MOARA – Revista Eletrônica do Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal do Pará, n. 54, 2019. Disponível em: http://dx.doi.org/10.18542/moara.v0i54.8161

BELGA, Juliana dos Santos. O conceito de hipercorreção. In: BELGA, Juliana dos Santos. Hipercorreção na escrita acadêmica: uma análise de textos de alunos da graduação em Direito. Dissertação (Mestrado em Linguística Aplicada) - Faculdade de Letras, Universidade Federal de Minas Gerais. Belo Horizonte, 2019. p. 37-39. Disponível online em: https://repositorio.ufmg.br/handle/1843/LETR-B9LHU6

CANÇADO, Márcia. Papeis temáticos. In: CANÇADO, Márcia. Manual de semântica. São Paulo: Contexto, 2013, p. 105-118. Disponível online em: https://www2.unifap.br/letraslibras/files/2024/04/Papeis-tematicos.pdf

FREITAG, Raquel Meister Ko; LIMA, Geralda de Oliveira Santos. Sociolinguística. São Cristóvão: Universidade Federal de Sergipe, CESAD, 2010. Disponível online em: https://www.researchgate.net/profile/Raquel-Freitag/publication/324969198_Sociolinguistica/links/5aeda9dca6fdcc8508b8041c/Sociolinguistica.pdf

MARCUSCHI, Luiz Antônio. Oralidade e letramento. In: ______. Da fala para a escrita: atividades de retextualização. 10. ed. São Paulo: Cortez, 2010, p. 15–43. Disponível na pasta do Rolezinho.

OLIVEIRA, Josane Moreira de. A expressão variável do futuro verbal na escrita: Brasil e Portugal em confronto. Revista da ABRALIN, [S. l.], v. 10, n. 3, 2011. Disponível em: https://revista.abralin.org/index.php/abralin/article/view/1096

SIMAS, Ana Augusta de Oliveira. O gerúndio na expressão de tempo futuro na diversidade do português do manauara. Dissertação (Mestrado em Letras e Artes) - Universidade do Estado do Amazonas. Manaus, 2016.

TARALLO, Fernando. A pesquisa sociolinguística. São Paulo: Ática, 1985. Disponível na pasta do Rolezinho.