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Síntese da aula "HISTORIOGRAFIA, IMPRENSA E CENSURA NO BRASIL" -Abia Criveli

De Wikiversidade

UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA JÚLIO DE MESQUITA FILHO



ABIA CRIVELI




SÍNTESE DA AULA

HISTORIOGRAFIA, IMPRENSA E CENSURA NO BRASIL



MARÍLIA

2025



Na aula de História do Brasil II, o tema foi a relação entre historiografia, imprensa e censura, buscando entender como esses três elementos se cruzam na história do Brasil. A professora começou explicando que história e jornalismo são áreas diferentes, mas que se aproximam pelo fato de ambas lidarem com acontecimentos socialmente relevantes. O jornalismo trabalha com os fatos no calor do momento, tentando narrar o presente. Já a história procura analisar os processos de forma mais ampla, entendendo as continuidades e rupturas. Como dizia um dos slides, “a história é observada à luz das narrativas presentificadas pelos jornalistas em suas épocas”. Isso mostra que até mesmo a história depende da forma como o jornalismo registrou os fatos, e por isso os jornais acabam sendo fontes importantes, ainda que cheias de limitações.

A partir dessa introdução, a explicação se voltou para a trajetória da imprensa no Brasil, foi mostrado que o primeiro jornal de circulação impressa no país, a Gazeta do Rio de Janeiro, surgiu em 1808 e estava ligado à família real portuguesa. Era um jornal que servia como propaganda oficial, exaltando os interesses da Coroa e reforçando seu poder. Ao mesmo tempo, havia o Correio Braziliense, publicado em Londres por Hipólito da Costa, que fazia críticas ao governo e defendia a emancipação. Esses dois exemplos iniciais já revelam a tensão que marcou a imprensa brasileira desde o começo: de um lado, o jornalismo como instrumento de poder e de controle; de outro, o jornalismo como espaço de contestação e de crítica.

Essa relação entre controle e resistência se manteve ao longo do tempo. Sodré (1977) e Melo (1973) destacam que a censura foi uma herança trazida de Portugal e reforçada pela Igreja, o controle sobre o que era publicado não era apenas político, mas também moral e religioso, influenciando a circulação das ideias no início do período colonial e imperial. Isso significa que, no Brasil, a liberdade de imprensa nunca foi plena, e sempre esteve submetida a mecanismos de vigilância e repressão.

No século XX, essa situação ficou ainda mais evidente, após a Era Vargas, a imprensa viveu um curto período de maior liberdade, com a valorização do objetivismo e da neutralidade jornalística. Porém, com o golpe militar de 1964, veio um novo retrocesso. Leis como o Decreto-Lei nº 898/1969 (Lei de Segurança Nacional) e o Decreto-Lei nº 1.077/1970 (Lei da Censura Prévia) tornaram o período entre 1968 e 1979 um dos mais difíceis para os jornalistas que passaram a ser constantemente vigiados e silenciados. Apenas na década de 80 apesar de transformações lentas houve uma certa retomada da autonomia profissional. Esse passado ajuda a entender por que a imprensa brasileira ainda enfrenta tantos desafios na sua credibilidade e independência.

A aula também fez uma ponte entre esse passado de censura e os problemas atuais relacionados à desinformação. Se antes a censura era praticada diretamente pelo Estado, hoje ela aparece de outras formas, ligadas ao funcionamento das redes sociais e dos algoritmos. Como lembra Thiago Cury Luiz (2023), vivemos em um ambiente de pós-verdade, em que não importa apenas o que é verdadeiro ou falso, mas principalmente o impacto emocional da narrativa. Muitas vezes, notícias falsas não são completamente inventadas, mas se apoiam em frações de verdade, que quando descontextualizadas criam uma narrativa enganosa. Segundo Dunker (2017), esse mecanismo explora preconceitos e emoções como o ódio e a vergonha, gerando um efeito muito mais poderoso do que a simples mentira.

Um exemplo analisado pelo autor de “O combate à desinformação sobre a tentativa de golpe: intercorrências de pós-verdade, populismo e fact-checking” foi a tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023. E como o antagonismo é uma ferramenta central do populismo, as redes sociais oferecem um espaço fácil para essa lógica de polarização. É nesse sentido que a desinformação atual se conecta ao passado: enquanto antes se censurava para calar vozes críticas, hoje se manipula a informação para confundir, deslegitimar e dividir.

Esse ponto também dialoga com o que Florestan Fernandes analisava em outro contexto. Ao estudar a situação do negro no Brasil, ele mostrou como a chamada “democracia racial” era uma ilusão, segundo ele, a democracia racial não passava de uma ilusão, que escondia a desigualdade e a exclusão. Mesmo após a abolição, os negros foram deixados de lado, enquanto os imigrantes ocupavam os postos de trabalho mais valorizados. Essa dinâmica mostra como as narrativas podem ser usadas para sustentar desigualdades sociais.

Outra reflexão importante é que, tanto no passado quanto hoje, as fontes têm papel central. Os slides destacavam que o jornalismo se apoia em fontes documentais, pessoais e institucionais. No artigo de Luiz (2023), vimos que a agência Aos Fatos também utilizou, na maioria das checagens, fontes jornalísticas tradicionais.

Existe um certo paradoxo nisso tudo: a imprensa, mesmo sendo muito atacada por grupos populistas, ainda é a base usada para checar fatos e tentar mostrar o que realmente aconteceu. Só que, como a confiança na mídia anda baixa, esse esforço nem sempre convence quem já vive dentro de bolhas digitais. Santaella (2019) e Seixas (2019) lembram que os algoritmos acabam reforçando essas bolhas e criando uma espécie de realidade própria, onde cada pessoa só enxerga aquilo que confirma o que já acredita.

A reflexão que ficou da aula é que história, imprensa e política sempre caminharam juntas no Brasil. Desde a Gazeta do Rio de Janeiro, no início do século XIX, até as fake news espalhadas hoje no WhatsApp, o que muda são os meios, mas a disputa pelo controle da informação continua a mesma. Antes eram decretos e censura explícita, agora são algoritmos e narrativas digitais. Isso mostra que a tal “verdade” nunca foi neutra: ela sempre serviu a interesses, seja da Coroa, do regime militar ou dos políticos atuais que se apoiam nessa lógica da pós-verdade.


Referências FERNANDES, Florestan. O negro no mundo dos brancos. 2. ed. São Paulo: Global, 2007.

LUIZ, Thiago Cury. O combate à desinformação sobre a tentativa de golpe: intercorrências de pós-verdade, populismo e fact-checking. Galáxia (São Paulo, online), v. 48, p. 1-23, 2023. DOI: 10.1590/1982-2553202362879.


MINA, Camila Prado. Historiografia, imprensa e censura no Brasil. Aula de História do Brasil II, 01 ago. 2025.