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Síntese da aula "Historiografia, Imprensa e Censura no Brasil" - Alunos: Iago Santana dos Santos Cuba e Júlia Gomes do Nascimento

De Wikiversidade

UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA JÚLIO DE MESQUITA FILHO

Síntese Crítica

Nomes: Iago Santana dos Santos Cuba e Júlia Gomes do Nascimento

Ciências Sociais- Noturno  

Marília, 2025  

Síntese da aula: "Historiografia, Imprensa e Censura no Brasil"

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A história da imprensa brasileira é atravessada por um fio de permanência que a conecta tanto a regimes coloniais quanto a conjunturas democráticas. Esse fio é o controle da informação. Desde os mecanismos explícitos de censura até as formas contemporâneas de desinformação, o jornalismo no Brasil nunca conseguiu se constituir plenamente como esfera autônoma de mediação pública. O que muda são as estratégias: antes, o silêncio imposto pela repressão; hoje, a saturação de vozes falsas que obscurecem a realidade. A leitura de Carvalho e Figueira (2022) e de Luiz (2023), somada à aula “Historiografia, Imprensa e Censura no Brasil”, permite perceber tanto as permanências quanto as rupturas desse processo, revelando que, em todos os casos, o alvo é o mesmo: limitar a construção de um espaço público democrático.

A relação entre jornalismo e história sempre foi marcada por proximidade e tensão. Ambas as áreas lidam com acontecimentos socialmente relevantes, mas a forma de tratá-los difere. O historiador observa o jornalismo como documento do passado, ao passo que o jornalista presentifica a história em narrativas situadas em seu próprio tempo (Carvalho & Figueira, 2022). Essa tensão metodológica, já destacada nos slides da aula “Historiografia, Imprensa e Censura no Brasil”, atravessa a trajetória da imprensa brasileira, fortemente condicionada por mecanismos de censura. Assim, compreender a imprensa no Brasil exige recuperar as permanências históricas da censura, reconhecer os novos desafios da era digital e articular as estratégias de combate à desinformação, especialmente no contexto recente da tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023 (Luiz, 2023).

Carvalho e Figueira (2022) demonstram que a censura não pode ser lida como exceção, mas como tradição política e cultural que estrutura o jornalismo no Brasil. A Coroa portuguesa e a Igreja Católica retardaram a instalação da tipografia na colônia e submeteram qualquer publicação à Mesa Censória. Enquanto colônias espanholas e inglesas já tinham uma vida impressa desde o século XVI, o Brasil só conheceu sua primeira tipografia no século XIX. Não se tratava de atraso técnico, mas de um projeto deliberado de impedir a circulação de ideias críticas (Melo, 1973; Sodré, 1977).

O Correio Braziliense, de Hipólito da Costa, publicado em Londres, simboliza esse contexto: fora do alcance da censura portuguesa, tornou-se veículo de ideias iluministas, em contraposição à Gazeta do Rio de Janeiro, órgão oficial da Corte. Desde esse momento inicial, configurou-se um padrão: de um lado, uma imprensa crítica, perseguida e reprimida; de outro, uma imprensa oficial, alinhada ao poder. A independência em 1822 não mudou esse quadro. O Primeiro Reinado e o período regencial foram marcados por prisões e até assassinatos de jornalistas.

No Segundo Reinado, houve relativa tolerância sob Dom Pedro II, mas a Proclamação da República retomou práticas de censura, agora associadas à fragilidade institucional. No século XX, o padrão se consolidou: Vargas criou o DIP, que censurava jornais e impunha conteúdos; a ditadura militar (1964-1985) radicalizou a repressão, com cortes diretos em redações e perseguição sistemática. Como afirmam os autores, a censura no Brasil não foi episódica, mas estruturante.

Carvalho e Figueira (2022) também problematizam o modo de estudar a imprensa. Três pontos são centrais: primeiro, reconhecer que as fontes jornalísticas são fragmentadas, construídas em disputas e contradições; segundo, evitar generalizações que naturalizam avanços e retrocessos; terceiro, compreender a censura como prática recorrente e não como exceção.

Esse olhar histórico mostra que a imprensa brasileira nunca foi totalmente independente. Sua sobrevivência esteve condicionada a subsídios públicos, alianças políticas ou interesses empresariais. (Carvalho e Figueira 2022, apud Barbosa, 2012; Luca, 2012). Isso cria uma ambiguidade: ao mesmo tempo em que pode atuar de forma crítica, a imprensa também se mostra subserviente. Ou seja, a censura não é só imposição externa, mas parte de um sistema em que o jornalismo muitas vezes coopera com a manutenção da ordem.

Se a censura tradicional atuava pela supressão de vozes, a era digital inaugurou outro cenário. Luiz (2023) analisa como a desinformação se tornou uma forma de censura difusa. As redes sociais quebraram o monopólio da informação das mídias tradicionais, mas abriram espaço para fluxos massivos de narrativas falsas. A novidade é que esse controle não vem mais só do Estado, mas de plataformas privadas que operam por algoritmos. (Luiz 2023, apud Bucci, 2019; apund Santaella, 2019)  

Nesse ambiente, a censura clássica convive com novas formas de manipulação. A desinformação não se apresenta como mentira pura, mas como distorção parcial da verdade. Dunker (2017) define a pós-verdade justamente como apropriação de fragmentos reais retirados de contexto. As checagens feitas pela agência “Aos Fatos” sobre o 8 de janeiro de 2023, analisadas por Luiz (2023), mostram que muitas fake news usavam imagens verdadeiras, mas deslocadas temporalmente. O efeito é poderoso porque se apoia em algo crível, mobilizando afetos como medo e ódio.

A desinformação não se espalha de forma neutra, mas ganha força em narrativas populistas. Segundo Luiz (2023, apud Mazzoleni e Bracciale, 2018), o populismo se estrutura em antagonismos: “nós contra eles”. Luiz (2023) mostra como, no caso brasileiro, personagens como Alexandre de Moraes, Lula, o STF e o MST foram alvos de desinformação que os representava como inimigos do povo. Esse mecanismo reforça divisões, explora preconceitos já existentes e mina a legitimidade das instituições. Luiz (2023, apud Waisbord 2018), explica que isso se conecta à seletividade cognitiva: os indivíduos acreditam mais facilmente em narrativas que confirmam suas crenças. Assim, a desinformação não apenas confunde, mas aprofunda a polarização política. Nesse sentido, o impacto é comparável ao da censura histórica: ambos fragilizam a democracia, ainda que por vias distintas.

O fact-checking surge como tentativa de resposta, mas enfrenta limitações. Luiz (2023) destaca três: (1) depende de fontes institucionais já desacreditadas pelos grupos que propagam fake news; (2) é lento em comparação à velocidade viral das redes; (3) não rompe bolhas informacionais, já que os públicos mais expostos rejeitam correções. Essa situação gera uma contradição: se no passado o problema era o silêncio imposto pela censura, hoje é o excesso de ruído da desinformação. Em ambos os casos, a imprensa perde autoridade e a esfera pública fica comprometida. Consequentemente, a democracia enfraquece.  

A leitura dos dois artigos permite pensar em permanências e rupturas. A permanência está na centralidade do controle da informação como mecanismo de poder. Do período colonial à ditadura militar, passando por Vargas, a censura atravessou diferentes regimes. A ruptura aparece na transição digital, em que não se trata mais de proibir o que pode circular, mas de inundar o espaço público com falsidades. No passado, a censura consistia em cortar textos, fechar jornais, prender jornalistas. Hoje, a desinformação consiste em multiplicar vozes falsas até que a verdade se torne indistinguível. Mas, em ambos os casos, o resultado é a mesma fragilidade democrática.

A imprensa ocupa um lugar ambíguo nesse processo. Carvalho e Figueira (2022) mostram que o jornalismo brasileiro sempre oscilou entre crítica e subserviência. Essa ambiguidade persiste: se, de um lado, agências independentes como Aos Fatos buscam preservar a verdade factual, de outro, parte da grande mídia contribuiu para difundir pseudo-eventos e legitimar discursos populistas (Luiz, 2023; apud Boorstin, 2007). O jornalismo não é apenas vítima, mas também ator no processo.

Hoje, o desafio não é só garantir liberdade de expressão formal, mas reconstruir a credibilidade jornalística em meio ao colapso da autoridade informacional. Isso exige políticas públicas de educação midiática, regulação democrática das plataformas e compromisso ético com a sociedade.

A história da imprensa brasileira é a história de sua luta contra formas de controle informacional. Carvalho e Figueira (2022) mostram como a censura é tradição que atravessa séculos, moldada por heranças coloniais e regimes autoritários. Luiz (2023) evidência como essa tradição se reconfigura na era digital, em que a desinformação, alimentada pela lógica da pós-verdade e do populismo, ameaça a própria noção de verdade pública.

Portanto, a síntese dos textos e da aula aponta para a necessidade de vigilância crítica constante. Nem a censura deve ser naturalizada como tradição, nem a desinformação pode ser aceita como inevitável. Ambas representam ameaças complementares à esfera pública e exigem respostas que combinem educação, regulação e fortalecimento de um jornalismo verdadeiramente comprometido com a sociedade.

REFERÊNCIAS  

CARVALHO, G. & FIGUEIRA, J. Historiografia da censura à imprensa brasileira: tradição, permanência e particularidades. Tempo, Niterói, vol. 28, nº 3, set./dez. 2022, p. 200-219.

LUIZ, Thiago C. O combate à desinformação sobre a tentativa de golpe: intercorrências de pós-verdade, populismo e fact-checking. Galáxia (São Paulo, online), v. 48, 2023, pp.1-23. ISSN: 1982-2553. http://dx.doi.org/10.1590/1982-2553202362879.  

MINA, Camila Prado. Historiografia, imprensa e censura no Brasil. Aula de História do Brasil II, 01 ago. 2025.