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Síntese da aula "Historiografia, Imprensa e Censura no Brasil" - Alunos: João Gabriel de Castro Pereira, Kevin Regis Lopes de Souza, Maria Eduarda Damico Augusto.

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Síntese da aula "Historiografia, Imprensa e Censura no Brasil" - Alunos: João Gabriel de Castro Pereira, Kevin Regis Lopes de Souza, Maria Eduarda Damico Augusto.

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Introdução

Marc Bloch, historiador francês da Escola dos Annales, afirma que a história é a ciência dos homens no tempo (BLOCH, 2001, p. 39), e articulando o pensamento do autor com o jornalismo, podemos compreender não apenas como a simples transmissão neutra de fatos, mas como uma prática que interpreta, contextualiza e organiza acontecimentos a partir de um determinado recorte temporal. Enquanto a historiografia busca entender fatos em diferentes períodos, o jornalismo atua principalmente no presente, oferecendo informações que permitem o público compreender os eventos atuais. Nesse sentido, o jornalismo pode ser visto como uma prática que corrobora diretamente com a ciência historiográfica, quando compreendemos jornais como fontes históricas que ajudam no entendimento do passado.  

A história em relação ao jornalismo pode ser definida como algo que se observa à luz das narrativas que foram presentificadas por jornalistas em suas épocas, no sentido de que, ao relatar um fato em um jornal, cria-se um documento histórico (CARVALHO; FIGUEIRA, 2022). O material jornalístico visto como uma memória do passado, analisando o presente ao passo que a historiografia analisa o passado. Entender o jornalismo é uma forma de estudar um outro presente (passado) por meio da memória produzida pelo material jornalístico.  Assim, os jornalistas, ao documentar o momento presente, acabam criando fragmentos de história, que servirão de base para a construção de narrativas históricas no futuro. A história pode ser vista como um produto das pesquisas jornalísticas para apresentar fragmentos do passado. Por outro lado, o jornalismo pode ser entendido como a capacidade de identificar aspectos do passado e atribuí-los ao presente.

Jornalismo no Brasil antes e depois do golpe militar de 1964


O jornalismo brasileiro passou por mudanças importantes ao longo do século XX. Durante a Primeira República (1889-1930), a imprensa tinha caráter partidário, voltada para elites políticas, com pouca inserção popular. No governo Vargas, principalmente no Estado Novo (1937-1945), a censura foi intensificada e os jornais se tornaram instrumentos de propaganda, embora houvesse também iniciativas ligadas à cultura e à educação.

Com a redemocratização de 1945, a imprensa ganhou mais autonomia e ampliou sua cobertura, incluindo política, economia, esportes e cultura. Nesse período cresceu a profissionalização e o jornalismo crítico, enquanto a televisão começava a surgir, mas sem substituir o papel central dos jornais impressos.

O golpe de 1964 trouxe de volta a censura e a perseguição a jornalistas. Leis como a de Segurança Nacional (1969) e a de Censura Prévia (1970) reforçaram o controle sobre a imprensa, especialmente entre 1968 e 1979 (CARVALHO; FIGUEIRA, 2022). A neutralidade jornalística, antes associada ao profissionalismo, virou muitas vezes uma estratégia de sobrevivência. Apesar disso, alguns veículos encontraram maneiras de denunciar abusos de forma indireta.

Com o fim da ditadura em 1985, a imprensa recuperou liberdade, diversificou formatos e fortaleceu o jornalismo investigativo. Nesse contexto, a televisão se consolidou como meio de massa, enquanto jornais, rádios, revistas e, posteriormente, a internet ampliaram o acesso à informação.


O jornalismo brasileiro dividido em três grandes fases.

Dividindo o jornalismo brasileiro em três grandes fases, cada uma marcada por determinadas características próprias e influenciada pelo contexto histórico e social do país. A primeira fase, o período pré-jornalístico, abrange o Brasil Colônia e o Império. Sodré (1977) e Melo (1973) destacam que o Brasil herdou de Portugal a censura e o controle sobre a imprensa, reforçados também pela influência política e social da Igreja nos primeiros períodos pós-invasão. Além disso, fatores como o analfabetismo e o atraso cultural das comunidades indígenas dificultavam a produção e circulação de informações. Durante esse período, a imprensa era fortemente controlada pela corte portuguesa, as informações trazidas chegavam ao Brasil parcialmente, apenas com informações pertinentes para a manutenção da reputação imagem e da coroa, por exemplo, a Gazeta do Rio de Janeiro.

Em um segundo momento, o jornalismo brasileiro passa por uma fase denominada jornalismo profissional, que surge no final do século XIX e se consolida a partir da década de 1950. Durante esse período, os jornais passam a apresentar redações organizadas e sistematizadas, com maior compromisso com a coleta das informações precisas. O jornalismo profissional ganha força em paralelo com a transição da monarquia para a república, e ao crescimento industrial, fator importante para o aumento do público leitor na época. A segunda fase também é marcada pela emergência de normas éticas e técnicas jornalísticas, ao passo que, cada vez mais, jornais tornam-se veículos de informação capazes de influenciar debates políticos e sociais. De acordo com Parada (2007), o jornal A Razão, fundado em meados de 1931 por Alfredo Egydio de Souza Aranha, publicava as ideias de Plínio Salgado em uma coluna denominada “Nota política”. Além disso, o jornalismo deixa de ser um veículo de divulgação oficial ou propaganda como costumava ser durante a primeira fase e passa a desempenhar um papel ativo na sociedade ao questionar autoridades e discutir políticas públicas, aproximando o leitor das decisões governamentais.

A terceira fase pode ser chamada de diversificação do jornalismo, tendo início a partir da metade do século XX e chegando até os dias atuais. Esse período é caracterizado pelo rápido crescimento e pela multiplicidade dos formatos do jornalismo, como o rádio, televisão, revistas, portais digitais e até redes sociais. A expansão da tecnologia aumentou a pluralidade das vozes e pontos de vista, promovendo uma maior circulação de informações. No entanto, com a chegada dessa nova fase, principalmente com o advento das redes sociais, desafios novos foram criados, como a competição por audiência e a influência dos algoritmos. Redes sociais e portais digitais possuem como principal característica a velocidade da divulgação da informação, que dificulta a checagem dos fatos, podendo ter impactos irreversíveis – e mesmo que revertidos, muitas vezes o estrago da desinformação causa danos irreparáveis, como vimos nas eleições de São Paulo em 2024 –.

Pós-verdade


Com o avanço da internet e das redes sociais, os algoritmos passaram a ocupar um papel central na forma como as informações chegam ao público. Eles coletam dados sobre hábitos, interesses e buscas e, a partir disso, personalizam o conteúdo exibido. O problema é que essa seleção não se baseia na veracidade das informações, mas sim naquilo que gera maior atenção e engajamento, mesmo quando se trata de notícias falsas, mensagens enganosas ou até conteúdos violentos e criminosos. O objetivo principal é manter o usuário conectado o maior tempo possível, sem considerar o impacto social do que é divulgado.

Antes desse cenário, as agências de jornalismo tinham como responsabilidade central verificar fatos, checar fontes e garantir a confiabilidade do que era publicado. Com a popularização das plataformas digitais, esse processo de checagem perdeu espaço diante da rapidez com que as informações circulam e da lógica algorítmica, que prioriza a visibilidade e o engajamento em vez da verdade.

É nesse contexto que surge o conceito de pós-verdade, um momento em que os fatos objetivos perdem importância diante da força das emoções e das crenças pessoais na formação das opiniões. Hannah Arendt já alertava, em Verdade e Política (1967), que “a mentira sempre foi considerada como uma ferramenta necessária e justificável não apenas na profissão de políticos ou demagogos, mas também na de estadistas”. A reflexão de Arendt demonstra que a manipulação da verdade não é novidade na política, mas hoje assume novas formas, impulsionada pela velocidade da informação e pela lógica digital. Assim, a pós-verdade constitui um dos grandes desafios contemporâneos, especialmente no campo político e midiático, por favorecer a propagação da desinformação e a manipulação em larga escala.  

REFERÊNCIAS

BLOCH, Marc. Apologia da História ou O Ofício de Historiador. Tradução de André Telles. Rio de Janeiro: Zahar, 2001.

CARVALHO, G.; FIGUEIRA, J. Historiografia da censura à imprensa brasileira: tradição, permanência e particularidades. Tempo, Niterói, v. 28, n. 3, p. 200-219, set./dez. 2022.

PARADA, Maurício. O jornal A Razão e o jornalismo político de Plínio Salgado. 2007.  

SODRÉ, Nelson Werneck. História da Imprensa no Brasil. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1977.

MELO, Luiz Antônio de. A Imprensa Brasileira: do Século XIX à Era Vargas. São Paulo: Brasiliense, 1973.

ARENDT, Hannah. Entre o passado e o futuro. 8. ed. São Paulo: Perspectiva, 2011.