Síntese da aula "Historiografia, Imprensa e Censura no Brasil" - Ana Laura de Santana Silva
Síntese da aula "Historiografia, Imprensa e Censura no Brasil"
[editar | editar código]UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA JÚLIO DE MESQUITA FILHO
Ciências Sociais - Noturno
História do Brasil II
Ana Laura de Santana Silva
Marília, 2025
Síntese
[editar | editar código]O jornalismo e a história se encontram em um ponto fundamental que faz parte do propósito que ambos carregam, a análise de informações extraídas de acontecimentos que são relevantes para a sociedade, a partir da mesma matéria prima. No entanto, a maneira pela qual isso vai acontecer é a principal distinção entre as duas áreas, enquanto os jornalistas compreendem um fato que está em curso, os historiadores vão compreender o passado com o apoio dos materiais produzidos pelo jornalistas, dessa maneira, a história é observada à luz das narrativas presentificadas pelos jornalistas em sua época (Carvalho; Figueira, 2022).
Dessa forma, é necessário ressaltar a importância que essas áreas têm para a construção e divulgação de uma memória coletiva. Entende-se por memória coletiva os acontecimentos que fazem parte da história e que marcam um grupo ou uma nação, além de passar por inúmeras gerações, ela é longa e estável, como por exemplo, a memória que o povo brasileiro possui sobre a ditadura militar que ocorreu no país entre os anos de 1964 e 1985.
Porém, essa memória só pode ser passada adiante quando sua divulgação não é prejudicada pelas barreiras da censura, o que aconteceu no Brasil na própria ditadura mas não está restrito a esse momento, tendo em mente que a história da imprensa brasileira esteve marcada por censuras da Coroa Portuguesa no período colonial e também da própria Igreja Católica.
Segundo Carvalho e Figueira (2022), a história vai ser interpretada no campo jornalístico como responsável pelos registros da memória, mas não somente, ela será a responsável por fornecer métodos de análise que poderiam trazer respostas acerca do presente com base na interpretação do passado.
Com isso em mente, tanto a história quanto o jornalismo enfrentam os mesmos desafios, sendo eles: a reconstrução da história a partir de certas conjunturas, como a histórica, política, local, cultural e econômica - como construir uma narrativa se as informações não são neutras?; reconhecer que as partes não são suficientes para explicar o todo em sua complexidade, é necessário ter um panorama geral e filtro das informações ofertadas; a fuga da abordagem cronológica, a história não é linear.
A história do Brasil, tanto como colônia de Portugal e pós independência, foi marcada por censuras. Quando a Coroa Portuguesa se instala no Brasil, em 1808, ela replica o seu modelo de governo português, isso significa que a maneira pela qual as informações foram transmitidas no Brasil nesse momento, era a mesma que acontecia em Portugal, ou seja, por meio de impressos e com a forte presença de filtros. O motivo dessa ação política, era que os impressos poderiam ser importantes armas em prol da independência na mão de certos atores (Carvalho; Figueira, 2022). Esse momento será conhecido como pré-jornalístico, e abrange o Brasil Colônia e Império.
Durante o período do Brasil Império (século XIX), cabe aqui destacar dois jornais que eram mais expressivos, o Correio Braziliense e a Gazeta do Rio de Janeiro. Enquanto o Correio Braziliense trazia críticas ao governo português e defendia a “ideologia da emancipação”, a Gazeta do Rio de Janeiro era um jornal feito pela família real portuguesa e fazia a propagação e louvação dos seus interesses absolutistas.
Posteriormente, já no final do século XIX temos o jornalismo profissional, que se consolidou no ano de 1950, com a diversificação do jornalismo em uma grande concorrência de mercado e uma maior liberdade. No entanto, é notório a imaturidade no campo jornalístico devido às limitações da censura e do controle editorial, o que contribui para um cenário desfavorável ao exercício da atividade jornalística.
Sob esse viés, Sodré (1997) e Melo (1973), irão se debruçar para debater a respeito das especificidades do jornalismo brasileiro sob um olhar histórico, principalmente durante o regime militar. Sodré (1997) destaca a as censuras que ocorreram pela Coroa Portuguesa e também pela Igreja, enquanto isso Melo (1973), destaca aspectos socioculturais como o analfabetismo, que dificulta o acesso à informação pelo povo.
Durante o regime militar (1964-1985), o jornalismo passou por um processo de retrocesso em sua história e o espaço e a liberdade que vinha conquistando, foi contido. O Ato Institucional nº 5 decretado em 1968 foi o principal decreto responsável pela censura e repressão contra inúmeras formas de expressão como os impressos, músicas e outras manifestações artísticas.
Diante desse cenário, em meio a toda a censura, falta de acesso a informações e também o analfabetismo, a memória coletiva se encontra totalmente prejudicada. Narrativas são silenciadas e esquecidas, tragédias são ocultadas e inúmeras outras notícias são deturpadas.
Infelizmente, nos dias atuais enfrentamos outro problema, a desinformação impulsionada em larga medida por instituições jornalísticas consagradas. Os novos meios de comunicação como os celulares e as redes sociais se tornaram o novo monopólio da (des)informação (Luiz, 2023).
As redes sociais se mantém devido ao engajamento que as publicações dos usuários recebem, devido a isso, discursos conspiracionistas, negacionistas e populistas ganham força, de modo que essas plataformas não são neutras e são um dos responsáveis por uma gama de notícias falsas, por isso as agências de fact-checking se tornam tão importantes no combate a disseminação de notícias falsas.
Sobre o populismo, é necessário defini-lo como uma resposta convergente com a revolta, em nome do povo, com o ataque às elites e o apelo à ideia de povo. Junto a ele, se destaca o que é conhecido como pós-verdade, que se apropria de frações da verdade que, em seu todo, geram uma informação falsa, marcada pelo apelo às emoções e com publicações alarmistas que podem despertar o medo ou o ódio (Luiz, 2023).
Em síntese, concluímos que, ao decorrer do tempo, o Brasil sempre esteve marcado pela censura e pela manipulação de informações, o que prejudica a construção da memória do país. Por isso, devemos ter uma rigidez cada vez maior com as notícias com que nos deparamos, buscar a fonte delas, para não cair em “verdades” que estão atribuladas a interesses de políticos, por exemplo, como aconteceu durante o Brasil nos séculos XIX e XX.
REFERÊNCIAS
CARVALHO, G. & FIGUEIRA, J. Historiografia da censura à imprensa brasileira: tradição, permanência e particularidades. Tempo, Niterói, vol. 28, no 3, set./dez. 2022, p. 200-219.
LUIZ, Thiago C. O combate à desinformação sobre a tentativa de golpe: intercorrências de pós-verdade, populismo e fact-checking. Galáxia (São Paulo, online), v. 48, 2023, pp.1-23. ISSN: 1982-2553.http://dx.doi.org/10.1590/1982-2553202362879.
MINA, Camila Prado. Historiografia, imprensa e censura no Brasil. Aula de História do Brasil II, 01 ago. 2025.