Síntese da aula "Historiografia, Imprensa e Censura no Brasil" - Fabrício dos Santos Belizario
UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA JÚLIO DE MESQUITA FILHO
FABRÍCIO BELIZARIO
SÍNTESE DA AULA HISTORIOGRAFIA, IMPRENSA E CENSURA NO BRASIL
MARÍLIA
2025
A aula apresentada sobre Historiografia, imprensa e censura no Brasil destacou como a imprensa sempre esteve ligada à disputa de poder e à construção da memória coletiva no país. Desde o início, história e jornalismo caminharam próximos: ambos lidam com fatos socialmente relevantes, mas cada um trata esses fatos de maneira distinta. Enquanto o jornalismo tende à fragmentação e à urgência, a história busca compreender os processos em sua totalidade, articulando passado e presente.
No caso brasileiro, o jornalismo passou por três grandes fases. A primeira foi o período pré-jornalístico, no Brasil Colônia e Império, marcado por forte censura da Coroa portuguesa e da Igreja. A segunda corresponde ao jornalismo profissional, que ganhou força no fim do século XIX e se consolidou a partir de 1950, com a valorização da objetividade. A terceira é a da diversificação em um mercado competitivo, a partir da segunda metade do século XX, quando o jornalismo passou a disputar espaço com novos meios de comunicação. Em todas essas fases, a censura foi elemento recorrente.
Dois exemplos ajudam a entender esse cenário: a Gazeta do Rio de Janeiro (1808), vinculada à família real, voltada para a defesa de interesses oficiais; e o Correio Braziliense (1808–1822), publicado em Londres por Hipólito da Costa, crítico ao governo e defensor da emancipação política. Essa oposição já mostrava que a imprensa brasileira nasceu dividida entre propaganda oficial e contestação.
Com a República, o jornalismo sofreu instabilidades ligadas à fragilidade política e ao autoritarismo. A Era Vargas e, principalmente, a Ditadura Militar de 1964 representaram retrocessos profundos. A imposição de leis de censura e segurança nacional, somada à repressão estatal, configurou o período de 1968 a 1979 como o mais sombrio para a liberdade de expressão. Somente nos anos 1980, com a redemocratização, o jornalismo recuperou relativa autonomia, embora continuasse submetido a pressões políticas e econômicas.
A chegada da internet e das redes sociais transformou esse cenário. Se antes o jornalista era o principal mediador da relação entre fatos e sociedade, hoje essa função é disputada por diferentes atores. Plataformas digitais permitem que qualquer pessoa produza conteúdo, mas também favorecem a propagação de informações falsas e manipuladas. Surgem novas formas de censura indireta, não mais pela mão do Estado, mas pela lógica algorítmica das plataformas, que seleciona o que aparece para cada usuário e reforça bolhas informacionais.
Nesse ponto, a aula introduziu o conceito de pós-verdade. Ele não significa simplesmente mentir, mas construir narrativas enganosas a partir de pedaços de verdade. Isso cria uma sensação de realidade paralela e fragiliza a confiança social. O jornalismo perde o monopólio da verdade e vê sua credibilidade ameaçada por desinformações que circulam rapidamente e exploram emoções, preconceitos e divisões sociais.
Esse debate pode ser aprofundado com as reflexões de Florestan Fernandes sobre o negro em São Paulo. Para ele, a modernização paulista não eliminou hierarquias raciais, apenas as reconfigurou. A presença negra cresceu justamente quando as velhas formas coloniais de convivência estavam se desgastando, mas isso não significou igualdade. Pelo contrário, a integração ocorreu de modo desigual e cheio de contradições. Esse processo ajuda a entender como, também na esfera da comunicação, a modernização e as novas tecnologias não garantem por si mesmas maior liberdade ou inclusão. Ao contrário, podem gerar novas formas de exclusão, seja social ou informacional.
O artigo de Thiago Cury Luiz, por sua vez, mostra como a pós-verdade atua na prática. Ao estudar as fake news sobre o 8 de janeiro de 2023, ele demonstra que as narrativas falsas não negam totalmente os fatos, mas os distorcem, atribuindo responsabilidades a inimigos políticos. Muitas vezes, usam imagens verdadeiras fora de contexto ou associadas a informações manipuladas. Essa estratégia explora preconceitos já existentes e reforça antagonismos típicos do populismo digital, como a divisão entre “o povo” e “as elites”. Assim, a desinformação não é apenas erro ou mentira: ela cumpre uma função política de mobilização, corroendo a confiança nas instituições democráticas.
Dessa forma, tanto na análise histórica da imprensa quanto nas experiências contemporâneas de desinformação, vemos que a disputa pela verdade nunca foi neutra. No século XIX, a imprensa se dividia entre a defesa da Coroa e os ideais emancipatórios; no século XX, os jornais enfrentaram censura estatal; e hoje, na era digital, as tensões se reproduzem em forma de fake news, polarização e manipulação algorítmica. Em todos esses contextos, o que está em jogo é quem controla a narrativa, quem tem o poder de definir a versão válida da realidade.
Referências
MINA, Camila Prado. Historiografia, imprensa e censura no Brasil. Aula de História do Brasil II, UNESP, 01 ago. 2025.
Materiais complementares: FERNANDES, Florestan. O negro no mundo dos brancos. 2. ed. São Paulo: Global, 2007. p. 104-130. LUIZ, Thiago Cury. O combate à desinformação sobre a tentativa de golpe: intercorrências de pós-verdade, populismo e fact-checking. Galáxia (São Paulo, online), v. 48, 2023, p. 1-23. DOI: 10.1590/1982-2553202362879.