Síntese da aula "Historiografia, Imprensa e Censura no Brasil" - Gabriela de Sousa Vieira
UNESP – Universidade Estadual Paulista
Faculdade de Filosofia e Ciências – FFC
Curso de Ciências Sociais
Gabriela de Sousa Vieira
SÍNTESE – HISTORIOGRAFIA, IMPRENSA E CENSURA NO BRASIL
Trabalho apresentado à disciplina História do Brasil II, sob orientação da Profª Camila Prado Mina, como requisito avaliativo.
Marília – SP
2025
Historiografia, Imprensa e Censura no Brasil: uma análise integrada
1. Introdução
A relação entre História, imprensa e censura no Brasil constitui um campo de investigação que atravessa diferentes temporalidades, do período colonial às dinâmicas digitais contemporâneas. A aula ministrada pela mestranda Camila Prado Mina e os textos de Carvalho & Figueira (2022), Luiz (2023) e Florestan Fernandes (2007) permitem compreender como a censura e o controle da informação se apresentam de forma múltipla: política, midiática, digital e social. Este trabalho busca integrar essas reflexões, evidenciando permanências, rupturas e especificidades do fenômeno.
2. A aula de Camila Prado Mina: História, Jornalismo e Censura
Na aula Historiografia, Imprensa e Censura no Brasil, a mestranda Camila Prado Mina discute a proximidade entre História e Jornalismo, ressaltando que ambas as áreas lidam com acontecimentos socialmente relevantes, ainda que sob perspectivas diferentes. Segundo ela, “a história é observada à luz das narrativas presentificadas pelos jornalistas em suas épocas” (MINA, 2025, p. 2). Camila divide o desenvolvimento do jornalismo brasileiro em três momentos principais: Período pré-jornalístico (Colônia e Império): caracterizado pelo analfabetismo e pela influência da Coroa e da Igreja na censura dos impressos. Nesse contexto, a Gazeta do Rio de Janeiro servia aos interesses oficiais, enquanto o Correio Braziliense (1808-1822) se destacava pela crítica ao governo e pela defesa de ideias emancipatórias. Jornalismo profissional (século XIX a meados do século XX): fase de consolidação da imprensa, mas ainda marcada pela repressão e pela instabilidade política. A jovem República e governos autoritários restringiram movimentos jornalísticos e liberdade de expressão. Diversificação do jornalismo (segunda metade do século XX até hoje): expansão de veículos e concorrência mercadológica, especialmente impactada pela revolução tecnológica e pela emergência de novas formas de comunicação. A aula enfatiza também o período do regime militar (1964-1985) como o mais crítico para a imprensa, quando legislações como a Lei de Segurança Nacional (1969) e a Lei da Censura Prévia (1970) institucionalizaram o controle do Estado. Apenas a partir da década de 1980 houve uma recuperação gradual da autonomia jornalística. No século XXI, a ascensão das mídias digitais transformou o papel do jornalista. “As mídias sociais fornecem acesso direto ao público sem interferência jornalística (mas sujeitas a novas formas de gatekeeping algorítmico)” (VREESE et al., 2018, p. 428). Camila destaca, nesse cenário, a emergência da pós-verdade, conceito que não se reduz à mentira integral, mas à manipulação de fragmentos da verdade para compor narrativas falsas (DUNKER, 2017).
3. Carvalho & Figueira (2022): tradição e permanência da censura
O artigo de Carvalho & Figueira (2022) analisa a historiografia da censura à imprensa brasileira, ressaltando que a censura não é episódica, mas uma tradição que atravessa períodos democráticos e autoritários. Os autores identificam permanências — como a vigilância estatal e a justificativa da censura em nome da ordem — e particularidades de cada regime. Para eles, “a censura é parte constitutiva da formação da imprensa no Brasil” (CARVALHO; FIGUEIRA, 2022, p. 205).
4. Luiz (2023): pós-verdade, populismo e fact-checking
O texto de Luiz (2023) investiga o fenômeno da desinformação durante a tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023, articulando os conceitos de pós-verdade, populismo e fact-checking. O autor demonstra como notícias falsas reforçam discursos autoritários e populistas, enquanto as iniciativas de checagem de fatos se apresentam como formas de resistência. Contudo, o combate à desinformação enfrenta limites diante da velocidade e da capilaridade das redes sociais. Assim, mesmo sem censura direta, o controle da informação permanece um elemento central da política contemporânea.
5. Fernandes (2007): censura simbólica e exclusão social
Florestan Fernandes (2007), em O negro no mundo dos brancos, oferece uma contribuição essencial para ampliar o debate sobre censura. Ao analisar a condição do negro em uma sociedade estruturada pelo domínio dos brancos, Fernandes revela como a comunicação e a circulação de discursos operam formas de censura simbólica e invisibilização. Dessa forma, o autor mostra que o silenciamento não se restringe às práticas estatais, mas também à exclusão social e racial.
6. Conclusão
A integração entre a aula de Camila Prado Mina e os textos de Carvalho & Figueira (2022), Luiz (2023) e Fernandes (2007) permite compreender a censura à imprensa no Brasil de maneira ampliada. De um lado, observa-se a dimensão política, marcada por mecanismos legais e repressivos. De outro, emerge a dimensão digital, com a pós-verdade e o fact-checking. Por fim, é preciso considerar a dimensão social e simbólica, que reproduz desigualdades e silenciamentos históricos. Em síntese, a historiografia da censura demonstra que controlar a palavra, restringir narrativas e selecionar vozes legítimas são práticas constitutivas da experiência brasileira. Como afirma Camila Prado Mina, reconstruir essa trajetória implica reconhecer que “as partes não são suficientes para explicar o todo em sua complexidade” (MINA, 2025, p. 3).
Referências
CARVALHO, G.; FIGUEIRA, J. Historiografia da censura à imprensa brasileira: tradição, permanência e particularidades. Tempo, Niterói, v. 28, n. 3, p. 200-219, set./dez. 2022.
DUNKER, C. Subjetividade em tempos de pós-verdade. In: DUNKER, C. Ética e pós-verdade. Porto Alegre: Dublinense, 2017. p. 101-128.
FERNANDES, Florestan. O negro no mundo dos brancos. 2. ed. São Paulo: Global, 2007. p. 104-130.
LUIZ, Thiago C. O combate à desinformação sobre a tentativa de golpe: intercorrências de pós-verdade, populismo e fact-checking. Galáxia (São Paulo, online), v. 48, p. 1-23, 2023. DOI: 10.1590/1982-2553202362879.
MINA, Camila Prado. Historiografia, Imprensa e Censura no Brasil. Aula ministrada em História do Brasil II, 1º set. 2025.