Síntese da aula "Historiografia, imprensa e Censura no Brasil" Alunos - Cauê e Marina
Trabalho História do Brasil II - Síntese da aula do dia 01/09
Universidade Estadual Paulista - Faculdade de Filosofia e Ciências (FFC)
4° Semestre - Curso: Ciências Sociais
Professor: Paulo Teixeira
Aula Ministrada: Mestranda Camila Prado Mina
Alunos: Cauê Ryan de Oliveira Botin e Marina Bueno Otoboni.
Marília, 2025.
História x Jornalismo
História e Jornalismo mantêm uma relação próxima, mas não são totalmente iguais. Ambos trabalham com informações socialmente relevantes e utilizam diferentes meios de comunicação, como jornais, revistas, rádios, redes sociais, livros, cartas e até memórias orais, até porque a memória também é um veículo de informação, a transmissão oral de um indivíduo para outro com contato a partir de uma perspectiva, para construir suas narrativas. No entanto, apresentam distinções relacionadas à forma como estes dados são trabalhados em cada uma das categorias analíticas.
A História é dada como um produto das pesquisas jornalísticas, e dos demais meios de transmissão das informações, uma vez que o historiador se apropria desses documentos para apresentar os fragmentos estudados do passado, para construir sua narrativa. Por isso, um está dependendo não única e exclusivamente, mas aproveitando as informações que o outro fornece. Tanto que o jornalista se pauta nas memórias e nas relações com os seus indivíduos para buscar suas ideias, exercendo um papel parecido com o do historiador.
Portanto, pode-se afirmar que História e Jornalismo são complementares: enquanto o historiador se apropria de registros jornalísticos como fonte para analisar o passado, o jornalista produz relatos que poderão se tornar documentos para futuras pesquisas históricas. Assim, ambos compartilham a tarefa de registrar, interpretar e transmitir informações, mas cada um faz segundo objetivos e perspectivas distintas.
O jornalismo brasileiro é dividido em 3 grandes momentos, são eles:
1. Período Pré-jornalístico (Brasil Colônia e Império)
Durante esse período, Portugal replicou o que estava acontecendo no seu território no Brasil, não somente no aspecto econômico, mas também nas informações, as quais eram rigidamente controladas pela Coroa portuguesa e pela Igreja. As publicações que chegavam ao Brasil eram filtradas e adaptadas para atender aos interesses políticos da metrópole, impedindo a difusão de ideias que ameaçassem a ordem colonial. A imprensa tinha caráter essencialmente ideológico e opinativo, servindo como instrumento de disputa política. Um exemplo significativo é o Correio Braziliense, criado por Hipólito José da Costa em 1808, que era publicado a partir de Londres e criticava o governo português, em contraste com a Gazeta do Rio de Janeiro, lançada em 10 de Setembro de 1808, no Rio de Janeiro, que foi o órgão oficial do governo portugues durante a permanência de Dom João VI, sendo uma forma de propagação de informações que estivessem em consonância com os interesses da Coroa. Nesse contexto, a informação não era entendida como serviço público, mas como meio de legitimação do poder, uma vez que até a década de 1820, apenas publicações da Impressão Régia e de poucos impressores ligados ao poder tinham licença para circular no Brasil.
Inclusive, nesse mesmo período, os primeiros periódicos de moda começaram a circular no Brasil, como O Espelho Diamantino, Espelho das Brasileiras, O Correio das Modas, O Jornal das Senhoras e Jornal das Famílias. Todos esses jornais abordavam moda, comportamento, etiqueta, literatura e arte, tornando-se um importante veículo de disseminação de padrões europeus e uma fonte histórica fundamental para o estudo da cultura material do período. Essa imprensa feminina oitocentista em ascensão foi fundamental pois contribuiu para a formação de um mercado próprio tanto de moda quanto de imprensa, impulsionando até mesmo o aumento do letramento das mulheres. (ASSUNÇÃO; ITALIANO, 2018, p. 234).
2. Jornalismo Profissional (final do século XIX – década de 1950 em diante)
A partir da urbanização e do crescimento dos leitores, o jornalismo começou a se estruturar de forma empresarial, com tiragens maiores, publicidade e profissionalização das redações. Nesse período, o jornalismo passa a se diferenciar da militância política, buscando maior objetividade, valorização da apuração dos fatos e separação entre notícia e opinião. Além disso, surgem os primeiros cursos superiores de jornalismo no Brasil, como o da Cásper Líbero (1947) e o da UFRJ (1948), que contribuíram para dar legitimidade acadêmica e profissional à área, mas mesmo assim as publicações permaneciam influenciadas por fatores políticos, econômicos e culturais.
3. Diversificação e concorrência no mercado (segunda metade do século XX até hoje)
Com o fim da era Vargas, em 1954, o jornalismo brasileiro encontrou um cenário mais favorável para buscar maior liberdade em suas publicações e posicionamentos. Nesse momento, consolidou-se o ideal de objetividade, neutralidade e profissionalismo como valores centrais da prática jornalística. No entanto, esse avanço sofreu um grave retrocesso com o golpe militar de 1964, período considerado um dos mais difíceis para a imprensa brasileira, marcado por forte censura e perseguições. Além da Lei de Imprensa, decretos como a Lei de Segurança Nacional (Decreto-Lei nº 898/1969) e a Lei da Censura Prévia (Decreto-Lei nº 1.077/1970) reforçaram o controle estatal sobre a mídia, especialmente entre 1968 e 1979, fase vista como a mais dura para a liberdade jornalística.
Somente a partir da década de 1980, em meio ao processo de redemocratização, o jornalismo passou a recuperar gradualmente sua autonomia e a ampliar sua influência como mediador social. Nesse contexto, o avanço tecnológico também desempenhou papel decisivo, como a chegada da televisão e do rádio ampliou o alcance da informação, enquanto, a partir dos anos 1990, a internet inaugurou uma nova era para a comunicação, resultando em um mercado cada vez mais competitivo e fragmentado.
Com a popularização da internet, surgiram os portais de notícia, o jornalismo independente e as mídias alternativas, ampliando o acesso à informação, mas também desafiando a credibilidade dos grandes veículos. Nesse novo cenário, o jornalista e, consequentemente o historiador, precisam lidar com a velocidade da circulação das informações, a proliferação da desinformação e as exigências de adaptação constante às mudanças tecnológicas e sociais.
Diante da história exposta, segundo Carvalho e Figueira (2022), a historiografia da censura no Brasil revela uma tradição de controle da palavra impressa que remonta ao período colonial. A Coroa portuguesa, assim como a Igreja, mantinha rígidos filtros sobre o que podia ou não circular no território. Esse “padrão de silenciamento” não desapareceu com a Independência, sendo reconfigurado em diferentes momentos da história republicana, como no Estado Novo e no regime militar.
Essa perspectiva dialoga com Sodré (1977), que foi citado em aula, o qual reconhece a censura como uma herança adquirida de Portugal. Nesse sentido, o jornalismo não apenas foi limitado por imposições estatais, mas também se tornou um campo de disputa ideológica, como exemplificam os casos do Correio Braziliense e da Gazeta do Rio de Janeiro, com narrativas opostas em um mesmo contexto histórico. A partir dessa análise, torna-se evidente que a censura não deve ser compreendida como uma mera limitação externa, mas como parte constitutiva da própria formação da imprensa brasileira, marcada por dependência política e restrições estruturais, como o analfabetismo e a desigualdade de acesso à informação apresentadas como plano de fundo. (Melo, 1973).
Nessa lógica, a discussão proposta por Florestan Fernandes em “O negro no mundo dos brancos” amplia esse debate ao mostrar como a imprensa e os meios de comunicação historicamente silenciaram ou distorceram as experiências da população negra no Brasil. O autor evidencia que a integração racial sempre se deu em termos desiguais, com o negro inserido de maneira subordinada em um espaço público dominado por brancos. Esse aspecto se conecta às reflexões trazidas em aula sobre Lima Barreto, escritor negro que denunciou, através da literatura, a hipocrisia social e os limites da cidadania no início do século XX, como através do livro “Clara dos Anjos”. Desse modo, ao considerar que a imprensa é também uma arena de exclusões, compreende-se que o problema da censura não é apenas estatal, mas também social e racial, sobre quem tem voz e legitimidade para falar na esfera pública.
Sendo assim, a partir dessa leitura é possível afirmar que a desinformação atual e a censura histórica têm em comum a produção de silenciamentos seletivos, em que determinados grupos sociais como as populações negras e minorias políticas são alvos de invisibilidade ou distorção.
Tecnologia e informação
Além do apresentado, é importante refletir que se a censura foi o instrumento de controle da palavra impressa no passado, no presente o desafio se desloca para a pós-verdade. Como Luiz (2023) argumentou, a tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023 no Brasil escancarou a circulação massiva de desinformação em ambientes digitais, revelando os limites do fact-checking diante de narrativas que não dependem de evidências, mas da crença emocional e influenciável de seus seguidores.
Aí entra o conceito de pós-verdade, que, segundo Dunker (2017), não se baseia em mentiras completas, mas em fragmentos de verdade que são reorganizados para gerar narrativas falsas. Esse fenômeno se conecta diretamente ao populismo, que mobiliza afetos e identidades em detrimento de dados objetivos.
Nesse contexto, as agências de checagem se tornaram mecanismos de resistência, mas não são suficientes para frear a circulação de notícias falsas em redes sociais mediadas por algoritmos, os quais controlam tudo o que a população tem acesso, adicionando um novo filtro que já era utilizado antigamente, mas principalmente hoje com a IA. Como aponta Vreese et al. (2018, p. 428), tais plataformas criam novas formas de “gatekeeping algorítmico”, em que o fluxo informacional é moldado por lógicas de engajamento, e não pelo o que realmente é verdade.
BIBLIOGRAFIA
ASSUNÇÃO, Beatriz; ITALIANO, Isabel. Moda e vestuário nos periódicos femininos brasileiros do século XIX. Rev Inst Estud Bras [Internet]. 2018. Sep;(71):232–51.
CARVALHO, G. & FIGUEIRA, J. Historiografia da censura à imprensa brasileira: tradição, permanência e particularidades. Tempo, Niterói, vol. 28, nº 3, set./dez. 2022, p. 200-219.
FERNANDES, Florestan. O negro no mundo dos brancos. 2. ed. São Paulo: Global, 2007. p. 104-130.
FUNDAÇÃO BIBLIOTECA NACIONAL. Série Periódicos Brasileiros – Gazeta do Rio de Janeiro, 10 de setembro de 1808. Curiosidades. Biblioteca Nacional, [s.d.].Acesso em: 6 set. 2025.
LUIZ, Thiago C. O combate à desinformação sobre a tentativa de golpe: intercorrências de pós-verdade, populismo e fact-checking. Galáxia (São Paulo, online), v. 48, 2023, pp.1-23. ISSN: 1982-2553.
MINA, Camila Prado. Historiografia, imprensa e censura no Brasil. [Apresentação de slides]. Disciplina História do Brasil II – Faculdade de Filosofia e Ciências, Universidade Estadual Paulista, Marília, 2025.