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Síntese da aula "Movimento feminista no Brasil" - Isabela; Júlio; Maria Júlia

De Wikiversidade

UNESP - Universidade Estadual Paulista

Curso de Ciências Sociais, 2º ano/2º semestre

Síntese da aula “O movimento feminista no Brasil” (09/09), ministrada por Camila Prado Mina.

Disciplina: História do Brasil II

Professor: Paulo Teixeira; Camila Prado Mina

Nome: Isabela Furlan, Júlio César Soares e Maria Júlia Almeida.

1- Introdução

O período da ditadura militar no Brasil (1964–1985) foi marcado por autoritarismo, censura e repressão política, impactando a liberdade de expressão e a participação social. O movimento feminista brasileiro ganhou força a partir da década de 1970, ocupando espaços políticos, culturais e acadêmicos, debatendo subjetividade e rompendo com estigmas sobre o “lugar da mulher”. No entanto, a ditadura agravou os desafios do feminismo, exigindo atenção a contextos específicos de classe, raça e situação econômica. Durante esse período, a criação dos Conselhos da Condição Feminina e ações como a "Marcha do Café" demonstraram tentativas de institucionalizar direitos civis e integrar mulheres à sociedade, incluindo aspectos jurídicos como casamento e divórcio. Sendo assim, a presente síntese foi construída a partir da aula ministrada pela mestranda Camila Prado Mina, durante a disciplina de História do Brasil II, aula essa que foi complementada por obras de referência, como Lélia Gonzalez (2020), que discute o feminismo afro-latino-americano; Cynthia Sarti (2004), que revisita a trajetória do feminismo brasileiro; Tânia S. A. M. Brabo (2014), que analisa a relação entre feminismo e ditadura militar; e Lídia M. V. Possas (2019), que aborda a vivência de viúvas durante o período de repressão, permitindo que possamos compreender a dimensão histórica, social e política do movimento feminista brasileiro.

2. A atuação do movimento feminista da Ditadura e sua consolidação.

O feminismo brasileiro dos anos de 1970 iniciou no seio da classe média e ganhou espaço nas camadas populares – não necessariamente periféricas – através das organizações de bairro mediante a resistência à Ditadura Militar, contando inclusive com o apoio da Igreja Católica. A atuação das mulheres na luta contra o regime militar foi importante para esculpir o rascunho do que viria a ser o movimento feminista brasileiro, já que, ao se colocarem na linha de frente e pegarem em armas, elas rompem com um ideal de feminilidade caracterizado pela submissão e fragilidade do sexo, comum à época. No entanto, como ressalta Sarti (2004), mesmo combatendo nas guerrilhas de igual para igual, a igualdade reconhecida entre homens e mulheres de esquerda ainda não passava da retórica e as demandas eram vistas como mero “reformismo burguês”. Ademais, a conjuntura política marcada pela Ditadura agravou o impasse estrutural do feminismo: em primeiro lugar, a luta política e a opressão interferiu diretamente nas reivindicações do movimento – devido às alianças com outros movimentos políticos que iam contra a ditadura, manter a homogeneidade da luta política custou o adiamento de pautas mais radicais, por exemplo – e, segundamente, acreditava-se em um “ser mulher” universal, ignorando clivagens sociais essenciais para a compreensão das demandas da mulher brasileira, tendo em vista que o movimento se constituía majoritariamente de mulheres brancas e classe média.

Em 1972 ocorre o Conselho Nacional de Mulheres do Brasil, onde são discutidas questões jurídicas referentes à condição feminina, como a implementação de direitos entre marido e mulher e a institucionalização do divórcio em lugar do “desquite” – posteriormente essas questões são incorporadas ao Código Civil. É importante também lembrar que muitas mulheres que atuaram durante a Ditadura Militar haviam sido presas e exiladas no exterior e, após a Lei da Anistia (1979), retornam ao Brasil fortemente inspiradas pelo movimento feminista que se desenvolvia na Europa especialmente, tendo sido esse fator muito importante para a consolidação do feminismo no Brasil a partir de 1980 (SARTI, 2004). Nesse período, há também a criação dos Conselhos da Condição Feminina (nacionais e estaduais) com o objetivo de integrar a mulher na sociedade, tendo o primeiro sido fundado em 1983 em São Paulo. No entanto, enquanto parte dessas mulheres se concentravam em debates públicos e na ocupação dos espaços políticos e a outra parte no campo científico das universidades, as mulheres pobres e especialmente negras permanecem invisibilizadas e não eram contempladas por este projeto de emancipação feminina, sendo elas quem desempenhavam múltiplas jornadas – como domésticas, babás, operárias, além de funções domésticas de seu próprio lar – para que as ativistas pudessem se libertar da esfera doméstica e ocupar o espaço público. Como afirma Gonzalez (2020): “(...) A libertação da mulher branca, tem sido feita às custas da mulher negra”.

3. O feminismo a partir de 1990

Ainda em 1980, com a fundação do Movimento Negro Unificado, os debates sobre a presença e a atuação da mulher negra na sociedade passaram a ganhar destaque, ao serem encabeçados por setores da classe média negra, contribuindo para a organização do movimento feminista consolidado futuramente. A partir, então, da década de 90 surge o movimento de crítica, dada por duas ordens, à noção conhecida da ideologia feminista: de um lado, a luta política contra as opressões históricas da mulher, e do outro, o fato de que o feminismo referia-se a mulheres em contextos sociais, econômicos, políticos e culturais específicos – ou seja, mulheres brancas que integravam uma elite. Dessa forma, o feminismo teve de enfrentar o fato de se caracterizar por uma ideologia que tem marcas sociais precisas, abrindo espaço para um novo modelo de si mesmo, e apontando que as desigualdades sociais restringiam as possibilidades e experiências de mulheres em seus diferentes níveis de inserção na sociedade. Assim, por meio de uma análise antropológica, a radicalização do movimento feminista entende que “as mulheres não constituem uma categoria universal, exceto pela projeção de nossas próprias referências culturais. As mulheres tornam-se mulheres em contextos sociais e culturais específicos” (SARTI, 2004).

Nesse contexto, na América Latina, urge a necessidade de remodelar o feminismo, evidenciando o conceito não-hegemônico e não-eurocêntrico do “ser mulher”. No Brasil, principalmente, esse movimento se dá pela atuação direta do movimento negro – pois, como aponta Gonzales (2020): dentro do movimento de mulheres, as negras e indígenas são o testemunho vivo da exclusão. Dessa forma, tanto o racismo quanto o sexismo, que se estabeleciam como ideologias de dominação, são avaliados nesse novo modelo do movimento das mulheres como um racismo por omissão, difundido por uma visão de mundo eurocêntrica-neocolonialista, testemunhando a psicologia do colonizado frente ao colonizador – e, por consequência, o feminismo latino-americano falha ao negligenciar o caráter multirracial e pluricultural de seu continente, comprometendo-se a partir de uma discriminação dupla com as mulheres amefricanas e ameríndias (GONZALEZ, 2020); essas mesmas que em movimentos populares se fazem maioria organizando-se coletivamente. Desse modo, os movimentos étnicos e sociais desempenham papéis definitivos na formação do movimento feminista da década de 90: o movimento indígena, por exemplo, discute as estruturas sociais tradicionais, reconstrói sua identidade e resgata sua história, e o movimento negro articula com as categorias de raça, classe, sexo e poder contra as estruturas de dominação do Estado.

Portanto, entende-se que a alternativa do movimento feminista latino-americano, que emerge em 1990, buscou organizar-se como grupo étnico-racial e feminino, que lutou em duas frentes: o movimento étnico e o movimento das mulheres; mas, que atuam de forma conjunta, não se anulando, uma vez que dentro do movimento étnico-racial seus parceiros reproduzem as práticas sexistas, e no movimento de mulheres, reproduzem-se as práticas de exclusão e dominação racistas. E, a partir desse momento histórico, Lélia Gonzalez (2020) anuncia: um novo feminismo foi delineado em nossos horizontes, aumentando nossas esperanças de expansão de suas perspectivas.

4. Conclusão

Diante da síntese acima representada, aprofundamos os pontos principais abordados em sala de aula, visto analisar a trajetória do feminismo do Brasil desde a ditadura militar até a década de 1990, mostrando principalmente como mulheres resistiram à repressão, ocupando espaços políticos e acadêmicos, além de obterem participação na luta por direitos jurídicos. Destaca-se, principalmente, a evolução do movimento para a inclusão questões de raça, classe e cultura, trazendo ao feminismo um espaço inclusivo e representativo diante das experiências vivenciadas por mulheres brasileiras. Nesse sentido, entendemos que o movimento feminista brasileiro evoluiu ao longo de décadas, ao qual houve sua trajetória marcada pela resistência política durante a ditadura militar, seguida de tornar-se um movimento mais inclusivo e crítico em meados dos anos 90, articulando lutas de classe, gênero e raça de forma integrada.

5. Referências Bibliográficas

GONZALEZ, Lélia. Por um feminismo afro-latino-americano. Rio de Janeiro: Zahar, 2020.  Disponível em: https://mulherespaz.org.br/site/wp-content/uploads/2021/06/feminismo-afro-latino-americano.pdf Acesso em: 13 set. 2025  

SARTI, Cynthia Andersen. O Feminismo Brasileiro desde os anos 1970: Revisitando uma trajetória. Revista Estudos Feministas, Florianópolis, v. 12, n. 2, p. 264, 2004. Disponível em:  https://www.scielo.br/j/ref/a/QVNKzsbHFngG9MbWCFFPPCv/?format=pdf&lang=pt Acesso em: 13 set. 2025.