Ir para o conteúdo

Síntese de aula "Movimento feminista no Brasil" - Camila Pigato Sakuraba, Giovana Borges Vieira, Maria Eduarda Silva Pinho

De Wikiversidade

Disciplina: História do Brasil II

Professor: Paulo Teixeira; Camila Prado Mina

Síntese de Aula – Movimento Feminista no Brasil

Em 1964, é instaurada a ditadura militar no Brasil através de um golpe de Estado que depôs o então presidente João Goulart (1961-1964). Diante desse contexto, houve uma drástica mudança política marcada por forte repressão que acometia grande parte da sociedade. As mulheres, por sua vez, eram afetadas de forma sexual, manipuladas por meio da sua relação materna e torturadas de diversas maneiras (Teles, 1993).

O movimento feminista no Brasil eclode na década de 1970 como um movimento contrário ao regime militar, e que se seguiu moldando e expandindo no contexto do processo de abertura política. Esse cenário foi impulsionado por conta de mudanças no Brasil, ocorridas a partir de 1960, que colocavam em questão a hierarquia de gênero, ao mesmo tempo em que estavam em evidência as ditaduras latino-americanas.

Outro fator que auxiliou o crescimento do movimento foram circunstâncias internacionais, em que a ONU declarou o Ano Internacional da Mulher em 1975 e promoveu o reconhecimento do movimento feminista (Sarti, 2004).

Com isso, 1975 ficou marcado para o movimento, pois foi quando as ideias feministas começaram a ser colocadas em pautas junto à opinião pública. Nesse ano, surgiram debates como baixos salários, exigências de melhores condições para os filhos, papel submisso da mulher e igualdade de direitos em relação aos homens (Teles, 1993).

De acordo com Sarti (2004), o feminismo da década de 70 existiu a partir de duas vertentes. A primeira diz respeito ao feminismo que colaborou para a formação futura de políticas públicas, uma vez que tratava de aspectos do trabalho, direito e saúde. Já a segunda vertente, era mais subjetiva e seu impacto é notável por meio de estudos, reflexões e do cotidiano.

Todavia, é evidente que o feminismo brasileiro era, a princípio, um movimento formado majoritariamente pensado por mulheres de classe média branca. Como apontado por Lélia Gonzalez, a partir de uma análise de dados “[...] pode-se concluir que discriminação de sexo e raça faz das mulheres negras o segmento mais explorado e oprimido da sociedade brasileira, limitando suas possibilidades de ascensão” (Gonzalez, 2020, p.145).

Sendo assim, em um primeiro momento as questões raciais no movimento feminista eram muitas vezes negligenciadas e as mulheres negras eram frequentemente taxadas como hostis e contrárias ao movimento por tentarem inserir o racismo na discussão (Gonzalez, 2020).

Em razão da baixa perspectiva de novas alternativas no meio do trabalho, muitas mulheres voltavam para a prestação de serviços domésticos, em posição de dependência das famílias para as quais elas trabalhavam. Mesmo que colocadas em posição de inferioridade, foram elas que possibilitaram a emancipação econômica e cultural da patroa no contexto da dupla jornada de trabalho.

Ainda que o movimento feminista se atentasse para reivindicações específicas, o debate acerca da discriminação racial ainda era silenciado, tirando de cena o que Gonzalez traz como uma questão crucial: “a libertação da mulher branca tem sido feita às custas da exploração da mulher negra” (Gonzalez, 2020, p.36).

A expansão dos movimentos sociais na segunda metade dos anos 1970 trouxeram a mobilização e participação de diversos setores da população, buscando reivindicar seus direitos e uma intervenção política mais direta. Quando se trata da população negra, é encontrada nesse período sobretudo no movimento negro e no movimento de associações de moradores nas favelas e bairros periféricos (Sarti, 2004).

A partir do estabelecimento do Movimento Negro Unificado (MNU), entre os anos 1978-1980, um importante aspecto tomou notoriedade: a discussão da presença da mulher negra na sociedade. O movimento também surgiu dos setores de classe média, com maior concentração no Rio de Janeiro e em São Paulo, centros de desenvolvimento do país no período em questão. Por meio da participação ativa dessas mulheres na organização e direção do MNU, foi proporcionado a elas um espaço de fala e escuta (Gonzalez, 2020).

Portanto, o movimento feminista brasileiro surgiu em um período político conturbado, sendo essencial para a defesa de causas vigentes, reivindicando direitos e denunciando atitudes discriminatórias. Todavia, deixou de lado pautas raciais que eram fundamentais para que o feminismo se tornasse um movimento inclusivo e abrangente. Por isso, os movimentos de mulheres negras só ganharam espaço posteriormente, demonstrando a importância de incorporar sua luta por direitos dentro da sociedade brasileira.

Referências

BRABO, T. S. A. M. A participação do movimento feminista contra a Ditadura Militar e no processo de redemocratização do Brasil. In: BRABO, T. S. A. M. (org.). Direitos humanos, educação e participação popular: 50 anos do golpe militar. Marília: Oficina Universitária; São Paulo: Cultura Acadêmica, 2014. p. 153–170. DOI: https://doi.org/10.36311/2020.978-85-7983-595-7.p153-170.

GONZALEZ, Lélia. Por um feminismo afro-latino-americano. Rio de Janeiro: Zahar, 2020.

SARTI, Cynthia Andersen. O Feminismo Brasileiro desde os anos 1970: Revisitando uma trajetória. Revista Estudos Florianópolis, v. 12, http://www.scielo.br/pdf/ref/v12n2/23959.pdf. Acesso em: 15 set. 2025.

TELES, Maria Amelia de Almeida. Breve história do feminismo no Brasil. São Paulo: Brasiliense, 1993.