Síntese de aula + análise - "Historiografia, Imprensa e Censura no Brasil" - Rodrigo Lopes Viudes
UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA
FACULDADE DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS
CÂMPUS DE MARILIA
CURSO DE CIÊNCIAS SOCIAIS
HISTÓRIA DO BRASIL II
RODRIGO LOPES VIUDES
SÍNTESE DE AULA + ANÁLISE SOBRE
AUTOCENSURA NO JORNALISMO
MARÍLIA (SP)
2025
INTRODUÇÃO
Cuidou o professor doutor, Paulo Eduardo Teixeira, a inclusão no programa de sua disciplina de História do Brasil II, do curso de Ciências Sociais deste campus da Universidade Estadual Paulista (Unesp), em Marília, de aula proferida na noite do dia primeiro de setembro de 2025 sobre ‘Historiografia, Imprensa e Censura no Brasil, ministrada pela mestranda Camila Prado Mina.
Na exposição, foram abordadas as relações de proximidade e as diferenças metodológicas entre história e jornalismo, os desafios do tratamento das narrativas na produção das publicações; reflexões sobre autores, veículos de comunicação e governos acerca do cerceamento da liberdade de imprensa; e a atual curadoria da informação, das agências de checagem à pós-verdade disseminada pelas redes sociais.
De todo conteúdo apresentado, outorgou-se aos alunos do segundo ano do curso, a produção de escrita de síntese, conforme consta nos “critérios de avaliação de aprendizagem”, apresentada pelo professor Paulo Teixeira. Com a devida vênia à sobriedade da redação exigida, apresento a referida síntese acompanhada de análise quanto ao aspecto da censura no jornalismo.
Mais ainda, proponho particularizar minhas reflexões à seara da autocensura a que profissionais de imprensa estão sujeitos na atividade regular da produção de reportagens e notícias por diferentes veículos de comunicação (rádio, TV, impressos e digitais). Analiso, ainda que brevemente, duas de suas possíveis causas: a insegurança pessoal e o que defino como rendição profissional.
Além das referências bibliográficas definidas para leitura e análise da referida aula, recorro a autores da Sociologia, da Geografia Urbana e da Psiquiatria, cujas reflexões abordam as causas supracitadas em suas relações com a contemporaneidade das relações de trabalho – aqui, dos profissionais da comunicação.
Às contribuições destas obras, publicadas no Brasil e no exterior, acrescento relatos pessoais sobre desafios diários, rotinas e condições de trabalho, testemunhados em quase três décadas de atuação como jornalista em ambientes de trabalho cada vez menos crítico e mais censurados e autocensurados nos dias atuais.
AUTOCENSURA NO JORNALISMO
Em sua aula, Camila Prado Mina abordou o período mais recente na memória brasileira de repressão à liberdade de imprensa no país, ocorrida entre os anos de 1968 e 1979, durante o regime militar. Na semana anterior à apresentação da mestranda, em 25 de agosto, o professor Paulo Teixeira aprofundara sobre as restrições impostas pelo governo dos generais através dos atos institucionais.
A respeito dos primeiros jornais veiculados no Brasil, Camila citou o Correio Braziliense – aquele primeiro, impresso em Londres e distribuído no país entre 1808 e 1822, e não o atual, fundado em 1960 e sediado em Brasília – e o Gazeta do Rio de Janeiro, com período de circulação idêntico e publicações favoráveis à coroa, diametralmente opostas ao de seu concorrente.
Relatam Carvalho e Figueira (2022), que ainda nos primeiros anos da república, jornais com vieses supostamente comerciais passaram a ser contados entre os destinatários dos recursos públicos, restando aos demais a sobrevivência e a repressão oficial, como ocorrera, por exemplo, no Governo Vargas, conforme citado por Luca (2012).
Já sob o regime da ditadura militar (1964-1985), em que censura foi principal algoz da liberdade de imprensa, alguns privilegiados conglomerados de comunicação detiveram os repartes do financiamento do estado em troca da prioridade na narrativa noticiosa governista – em particular, a Rede Globo, fundada em 1965 – que sujeitaria seus profissionais à censura, conforme relatam Silva (1985) e Mattos (2005).
Ainda depois da redemocratização do país, consolidada pela Constituição de 1988, a prática clientelista entre veículos de comunicação e governos persistiu, seja através concessão de canais de rádio e TV a grupos políticos simpáticos ao Executivo, como relata Carvalho (2017), ou ainda pela manutenção do fluxo dos recursos públicos via publicidade oficial.
Até aqui, detivemo-nos à síntese da aula, conforme fora pedido. Por agora, passamos a analisar os efeitos do silêncio da imprensa patrocinado com dinheiro público na rotina dos jornalistas que, ao longo de décadas, tiveram que decidir entre persistir no ideal de vigilantes da sociedade, segundo cunhou Elias (1987) ou sucumbir à autocensura ante a ameaça do desemprego, cujas consequências psíquicas Dejours (1980) define como patologia de submissão.
Nas redações, os jornalistas, por regra, não são sujeitos ativos da produção da notícia. Quaisquer coberturas, das mais efêmeras às complexas, demandam a aprovação do editor que, por sua vez, tutela a publicação de assuntos que estejam alinhados aos interesses da direção do veículo de comunicação – não raro, distintos aos daqueles primeiros, que propõem as reportagens, quando das reuniões de pauta.
É nesta desconexão entre o fato desejado e o publicado que reside a gênese do questionamento proposto nesta análise. A realidade (nua e crua) dos processos de produção da notícia é o motivo pelo qual jornalistas costumam autorregular a prática profissional pela preservação do emprego, submetido à rotina mal remunerada e alienante do trabalho, como identifica Marx (1967).
Neste contexto, soma-se ainda a redução do número de postos de trabalho, seja pelo encolhimento das redações ou o fechamento de empresas. Na região de Marília, o jornal Comércio do Jahu, de Jaú (SP), publicou sua última edição em 5 de maio de 2019, após quase 111 anos de atividade. Em Bauru, o Jornal Bom Dia, conhecido por sua linha editorial independente, ainda que mantido por um mecenas, o empresário Jose Havilla (1943-2018), fechou as portas em 2015, nove anos após sua primeira publicação.
Seja como repórter, editor-executivo e, por fim e em curto período, editor-chefe deste periódico bauruense entre 2012 e 2013, compartilhei, ao lado de dezenas de jornalistas que passaram pela redação instalada na esquina das ruas Treze de Maio e Cussy Junior, no centro velho da Cidade Sem Limites, a rara oportunidade de trabalhar em um veículo de comunicação onde a autocensura era exceção na busca diária pela informação.
Noutras praças, no entanto, a convivência com os ferrolhos editoriais eram inversamente presentes, sujeitando a mim e os colegas às restrições editoriais, ainda na orientação das reportagens, quanto às matérias que implicassem em eventuais riscos de ruptura de contratos com órgãos públicos e empresas em geral.
Ainda hoje, agora na prestação de serviço a portais de notícias, os meios digitais permanecem igualmente suscetíveis e servis à dependência de recursos públicos, como foram os impressos de outrora. Além da produção dos ‘conteúdos’, parte do tempo contratado tem sido ocupado com a checagens de informações imprecisas ou falsas – tais como as agências citadas na aula – dispersadas por redes sociais disfarçadas de ‘veículos de comunicação’.
CONCLUSÃO
Ao final da produção do presente trabalho, considerada a síntese acompanhada pelas reflexões pessoais propostas, cabe reiterar a importância – e por que não dizer, a oportunidade – para a condução destes poucos parágrafos acerca um dos maiores dilemas da atuação profissional de qualquer jornalista – a saber, a censura – e, ainda mais profundo, a autocensura.
É certo que, pelo espaço limitado de páginas orientado, não se pôde delongar mais em outros aspectos da convivência entre jornalistas e veículos de comunicação, ainda no debruço sobre a censura, que poderiam contribuir, seja para endossar explicações rigorosamente pontuadas pela mestranda Camila Prado Mina, ou mais, expor a profissão como ela é.
De todo modo, ainda que tenha proposto a redação de uma síntese de aula por um dos temas principais – no caso, a censura – e não por todo conteúdo ministrado, espero ter contribuído para enriquecer a análise e o debate, sobremaneira pelo fato de ser um jornalista em atividade.
Considero, por fim, registrar meus cumprimentos à mestranda Camila Prado Mina pela acurada condução do tema proposto em sala de aula, contribuindo com suas explicações acadêmicas o alargamento de meu conhecimento empírico, porque prático, sobre questão tão cara ao livre exercício do jornalismo no Brasil.
BIBLIOGRAFIA CONSULTADA
CARVALHO, G.; FIGUEIRA, J. Historiografia da censura à imprensa brasileira: tradição, permanência e particularidades. Tempo, Niterói, v. 28, n. 3, p. 200-219, set./dez. 2022.
LUCA, Tania Regina de. História dos, nos e por meio dos periódicos. In: PINSKY, Carla Basssanezi (org.). Fontes históricas. 2.ed. São Paulo: Contexto, 2008. p. 111-142.
MATTOS, Sérgio. Mídia controlada: a história da censura no Brasil e no mundo. São Paulo: Paulus, 2005.
SILVA, Carlos Eduardo. Muito além do Jardim Botânico: um estudo sobre a audiência do Jornal Nacional da Globo entre trabalhadores. São Paulo: Summus, 1985.
ELIAS, Norbert. A sociedade dos indivíduos. Tradução de Vera Pereira. Rio de Janeiro: Zahar, 1987.
DEJOURS, Christophe. A loucura do trabalho: estudo de psicopatologia do trabalho. Tradução de Ana Cristina R. de Oliveira. 5. ed. São Paulo: Cortez, 1994.
MARX, Karl. O Capital: crítica da economia política. Livro I: o processo de produção do capital. Tradução de Rubens Enderle. São Paulo: Boitempo, 2013